HIGIENE INDUSTRIAL

ANÁLISES EVITAM DANOS À SAÚDE DE TRABALHADORES

A química Maria Sílvia Martins de Souza, DIRETORA DA P&d CONSULTORIA, comenta a importância da higiene industrial, destaca as técnicas analíticas para avaliar o ambiente de trabalho e revisa conceitos de toxicologia

Técnicas analíticas como a cromatografia gasosa ou a espectrometria de absorção atômica permitem avaliar o ambiente no qual trabalhadores desenvolvem suas atividades, tendo em vista a saúde e segurança dos profissionais. Com base nesses resultados e de outras disciplinas, higienistas industriais e engenheiros de segurança podem identificar e corrigir fontes diversas de riscos, como a exposição a agentes perigosos, tais como radiação, barulho excessivo, extremos de temperatura, produtos químicos e biológicos ou os inerentes à própria natureza do trabalho, como movimentos repetitivos de mãos ou braços, o ato de levantar objetos muito pesados etc.

Identificado o risco, ações corretivas são tomadas, incluindo mudanças no local de trabalho, como, por exemplo adequar a ventilação para reduzir os teores de produtos químicos no ar. Em casos em que isso não é possível, a segurança ao trabalhador é provida pelo uso dos equipamentos de proteção individual (EPI’s). Outros profissionais envolvidos com a saúde ocupacional são os chamados médicos do trabalho. Diferentemente do higienista, o foco de atuação desse técnico não é o ambiente de trabalho, mas sim o trabalhador. Idealmente os dois trabalham em cooperação, com o higienista provendo informações sobre o ambiente de trabalho, que podem ajudar a definir se um problema observado com o trabalhador tem origem ocupacional ou não.

No caso das indústrias químicas, a maior preocupação é, obviamente, a exposição dos trabalhadores às matérias-primas e produtos por elas utilizados e manufaturados, respectivamente. O contato diário com essas substâncias deve ser cuidadosamente monitorado para determinar se está sendo realizado dentro dos parâmetros toleráveis, isto é, abaixo daqueles em que efeitos nocivos à saúde são causados. Em última análise, é preciso determinar se as concentrações no ambiente de trabalho estão ou não acima dos níveis tóxicos.

Cabe a outro profissional, o toxicologista, normalmente ligado a instituições de pesquisa e não indústrias, determinar que nível de exposição a um produto químico é seguro e qual pode causar danos. No estabelecimento desses parâmetros, vários fatores devem ser considerados. Primeiro, a freqüência de exposição, pois embora o risco para um determinado produto químico possa ser baixo a uma certa concentração em uma única exposição, isso não significa que exposições repetidas à mesma concentração impliquem risco similar. Como uma porção da dose pode não ser totalmente metabolizada até a próxima exposição, a concentração no organismo acaba por aumentar. Da mesma forma, se a exposição danifica um determinado tecido, torna-se necessário repará-lo. Não sendo possível fazê-lo antes de nova exposição, os danos se acumulam e provocam substituição gradual do tecido saudável por tecido não funcional, levando à perda da função do órgão. Um exemplo desse tipo de intoxicação é a cirrose hepática, conseqüência da ingestão continuada de altas doses de álcool etílico.

Outros fatores são considerados no estabelecimento dos níveis de exposição aceitáveis dos produtos químicos. Para compreendê-los melhor, alguns conceitos relacionados à toxicologia devem ser revistos.

Os produtos tóxicos são classificados pelo tipo de malefício que provocam. Dividem-se em venenos sistêmicos, mutagênicos, carcinogênicos, teratogênicos ou toxinas comportamentais. As divisões compreendem apenas produtos danosos após entrarem no organismo e serem distribuídos pelo sistema circulatório. Essa classificação não inclui alguns produtos químicos altamente reativos, como ácidos e bases fortes, causadores de danos tão logo entram em contato com a pele ou olhos, por exemplo. Também exclui compostos capazes de provocar respostas alérgicas em determinados indivíduos. Alergia não é normalmente causada pela ação tóxica do produto. Um indivíduo sensível terá a reação alérgica como conseqüência de exposição a quantidades muito pequenas de determinado produto e a manifestação será típica desse indivíduo. Há, entretanto, produtos químicos denominados sensibilizantes porque produzem reações alérgicas em expressivo número de pessoas, a exemplo dos isocianatos usados para fabricação de poliuretana (1). Nesses casos, essa capacidade é levada em conta quando se estabelecem os limites máximos permitidos para exposição.

Tabela 1: classificação das toxinas

TIPO DE TOXINA

DEFINIÇÃO

venenos sistêmicos

interferem nos processos celulares, fazendo com que as células alterem suas funções ou morram, afetando os 
órgãos a que elas pertencem
toxinas que 
afetam o DNA
mutagênicos interferem nos processos celulares, fazendo com que as células alterem suas funções ou morram, afetando os 
órgãos a que elas pertencem
carcinogênicos podem causar danos ao DNA
toxinas que 
afetam o sistema
reprodutivo
teratogênicos aumentam a probabilidade da ocorrência de câncer; em geral são também mutagênicos
alteradores da fertilidade causam anormalidades nos embriões
toxinas que afetam sistema nervoso, produzindo
alterações de comportamento
afetam as células do sistema reprodutivo
sem produzir danos nas células cerebrais, interferem nos neurotransmissores, provocando alterações de 
comportamento, como perda de memória, 
irritação, sonolência etc.

Os venenos sistêmicos são os mais facilmente reconhecidos. O envenenamento por esses produtos resulta em dano geral às células de um determinado órgão, seu “alvo”. Os sintomas aparecem como resultado do mau funcionamento desse órgão, embora geralmente células de outros órgãos também sejam afetadas. O “alvo” de cada veneno determina a sua denominação. Por exemplo, as toxinas que agem no fígado são chamadas hepatotoxinas, danos no sistema nervoso são produzidos por neurotoxinas e assim por diante. Conhecido o órgão “alvo”, seu monitoramento se torna possível por meio de exames médicos. A tabela 1 detalha a classificação das toxinas.

Dos outros tipos de toxinas pode-se dizer que têm mecanismo de ação ainda mais complexo, dificultando sua caracterização, como ocorre, por exemplo, com os produtos mutagênicos e carcinogênicos. O estabelecimento da relação entre câncer e produtos químicos data do século XIX, devido às observações feitas pelo médico inglês sir Percival Potts, que notou a ocorrência de grande quantidade de casos de câncer de próstata entre os limpadores de chaminé. Suspeitando haver algo responsável pelos tumores na fuligem com a qual aqueles homens tinham intenso contato, propôs que se banhassem depois do trabalho. O subseqüente sucesso de sua sugestão estabeleceu o começo do presente entendimento da atividade carcinogênica de vários produtos químicos.

Da mesma forma, somente quando os trabalhadores da sala de embalagem de uma fábrica de agrotóxicos na Califórnia perceberam ter em comum problemas de fertilidade é que foi descoberta a capacidade do dibromocloropropano de inibir a produção de espermatozóides. Classificam-se hoje tais compostos como alteradores de fertilidade.

Outro exemplo trágico permite ilustrar a diferença do mecanismo de ação das toxinas mutagênicas e teratogênicas nos embriões: no caso destes, o perigo existe quando uma gestante é a eles exposta no momento em que algum órgão do embrião está se formando, podendo interferir no seu desenvolvimento. Exposição dos pais, homem ou mulher, a um produto teratogênico antes da concepção não tem maior significado. Mutagênicos, ao contrário, podem causar deficiências de nascença alterando o DNA do óvulo ou do espermatozóide antes da fertilização. Preocupações com produtos teratogênicos também são recentes. Datam de 1960, quando a droga talidomida foi largamente prescrita a mulheres grávidas na Europa e no Japão. Teratogênico potente, o efeito freqüentemente causado por este composto é a má formação de braços e pernas ou muitas vezes a completa ausência desses membros.

Quando a dose do produto tóxico é suficientemente alta de modo a danificar imediatamente o órgão “alvo”, impedindo seu correto funcionamento, o indivíduo exposto morre. Esse nível de exposição é chamado dose letal aguda e é a medida fundamental para determinar a toxicidade de uma substância. São dados que podem ser obtidos na literatura especializada para os mais variados produtos químicos. Devido a diferenças constitutivas, a dose letal mínima pode variar de um indivíduo para outro. Os valores publicados são baseados em dados estatísticos obtidos em vários estudos. De forma geral, pode-se dizer que o estabelecimento dos parâmetros toxicológicos é muito difícil. Por exemplo, avaliações do potencial teratogênico tem de ser feitas usando cobaias em processo de gestação. As cobaias normalmente usadas, em geral pequenos roedores, são muito diferentes dos humanos nos aspectos reprodutivos. Assim, a extrapolação dos resultados de testes em animais para humanos é um dos grandes problemas dessas determinações.

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