P + L

BRASIL ASSUME COMPROMISSO
COM A PRODUÇÃO MAIS LIMPA

Programa do P+L,
proposto pela ONU
em 1989 e que
visa racionalizar
a produção industrial,
começa a fincar
raízes no Brasil com
iniciativas de vários
órgãos públicos e
privados, como Senai,
Cetesb, Fiesp e
universidades
de prestígio

Marcelo Rijo Furtado

Quem deseja estar antenado com as práticas ambientais mais modernas adotadas pela indústria precisa esquecer o chamado controle do “fim-de-tubo”. Esse jargão, usado para nomear tecnologias de remediação e destinação de resíduos, efluentes ou emissões industriais, hoje soa como sinônimo de metodologia superada, de alto custo, e apenas aceita como forma de as companhias cumprirem suas obrigações legais. Para os especialistas, foi-se o tempo em que uma empresa podia se orgulhar de sua estação de tratamento de efluentes ou de gerenciar seus resíduos conforme o exigido por lei.

O abandono do conceito do fim-de-tubo deve anteceder à adoção de novo slogan: a “produção mais limpa”, também conhecida pela abreviatura P+L. Criada como proposta pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) em 1989, essa expressão visa nomear o conjunto de medidas que tornam o processo produtivo mais racional, com uso inteligente e econômico de utilidades e matérias-primas e principalmente com mínima ou, se possível, nenhuma geração de contaminantes. De acordo seu texto original, a proposta do Pnuma sugere a “aplicação contínua de uma estratégia ambiental integrada e preventiva a processos, produtos e serviços, com a finalidade de aumentar a eficiência e reduzir os riscos aos seres humanos e ao meio ambiente.”

A idéia do Pnuma veio de encontro a uma iniciativa anterior, dos EUA, onde alguns anos antes havia surgido o conceito do Prevention Pollution, ou P2, que pregava a redução dos poluentes na fonte de geração. Mas a denominação norte-americana era mais limitada em comparação ao P+L. Principalmente por não dar muita ênfase ao uso racional dos recursos, como energia ou água, da forma como o programa da ONU também veio chamar a atenção. Talvez por isso, e por se basear em conceito criado por uma organização multilateral, técnicas e programas de produção mais limpa tenham se desenvolvido de forma mais efetiva por todo o mundo, inclusive no Brasil.

Entenda-se por técnicas de P+L não um conjunto de práticas ou códigos preestabelecidos, como em muitos sistemas de gerenciamento. O diferencial do programa é não ser muito burocrático e linear. 

“O P+L ensina e provoca os envolvidos na produção a enxergarem o óbvio, o que não é tão simples como se imagina”, explica a gerente do departamento de desenvolvimento e capacitação tecnológica da Cetesb, Tânia Mara Gasi, também coordenadora da recém-formada Mesa Redonda Paulista de Produção Mais Limpa.  Cuca Jorge
Tânia: programa ensina a enxergar o "óbvio"

“Além de sugerirem modificações, com conhecimento próprio, os consultores de P+L instigam toda a fábrica a pensar em alternativas mais inteligentes e econômicas de produzir”, completa Tânia.

Em comum, a adoção desses programas tem o prévio levantamento de dados importantes da fábrica, onde possivelmente serão desenvolvidas melhorias. Deve-se tomar conhecimento nessa fase, por exemplo, do total consumido de água, energia, da carga orgânica dos efluentes e das possibilidades de substituição de matéria-prima ou reaproveitamento de resíduos. Por incrível que pareça, até essa fase preliminar é um “óbvio” que as empresas não costumam saber. “A maioria dos produtores não tem o cuidado de ter seus próprios indicadores ambientais, o que é fundamental quando se pensa em ter metas de economia”, explica a gerente da Cetesb.

Quando obtêm os principais indicadores, os consultores começam a questionar os responsáveis pela produção, tanto os de nível gerencial como os de chão de fábrica. Nesse caso, nem é necessário o consultor entender do processo. Sua função se limita a fazer a indústria trabalhar por si mesma, descobrindo novos caminhos. Outra função é desencadear na empresa esse conceito, integrando todos os níveis hierárquicos e operacionais, ou seja, do diretor ao operário e do estoque ao setor produtivo e administrativo.

Prática brasileira – As experiências brasileiras já adotadas nesse campo, sobretudo no Rio Grande do Sul e em São Paulo, comprovam que o P+L tem-se tornado uma constante preocupação do setor industrial e, melhor ainda, com resultados bastante satisfatórios quando sua metodologia se transfere para a prática. Esses dois estados pioneiros estão criando redes de propagação dos programas e devagar começam a colecionar vários casos de sucesso, motivando inclusive outras iniciativas pelo País, como na Bahia, cuja universidade federal já possui departamento específico para desenvolver o tema (ver a seguir, na pág. 48).

Embora o conceito já existisse desde 1989 no mundo, o início da preocupação com produção mais limpa no Brasil se deu apenas na metade da década de 90. Foi mais exatamente em 1995, quando a Cetesb, em São Paulo, começou a organizar uma divisão de prevenção à poluição, que um ano depois seria de fato implementada para dar origem a vários projetos, e também quando foi inaugurado em Porto Alegre-RS o Centro Nacional de Tecnologias Limpas (CNTL).

A criação do CNTL, que desde então funciona no Senai-RS, tem especial importância por ter sido instalado pelo próprio Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), em parceria com a Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido). Essa iniciativa dos órgãos da ONU fez o Brasil ser um dos 22 países a ter escritório semelhante, cujo propósito é o de prestar consultoria para estimular sistemas de gerenciamento ambiental e de implantanção de programas de P+L.

Segundo a coordenadora do CNTL, Marise Keller, durante esse período o escritório atendeu a cerca de 120 empresas, não só no Brasil, mas em países sul-americanos, como Equador e Paraguai, ou ainda africanos, como Moçambique. Embora o CNTL também assessore a implantação de sistemas de gerenciamento ambiental, a quase totalidade dos clientes tem preferido adotar os programas de produção mais limpa. Para Marise, a explicação é bastante objetiva: o projeto tem demonstrado que as técnicas de P+L trazem resultados diretos na vida econômica das empresas, por introduzir ou aprofundar o conceito da racionalização no consumo das matérias-primas, incluindo aí água e energia.

“Sai muito mais em conta você reduzir o consumo de água no processo industrial. São dois custos reduzidos num só: a conta da água e a despesa para tratá-la”, exemplifica Marise. Ela acrescenta que esses ganhos aparentemente internos da empresa se traduzem em conquistas sócio-ambientais, daí a preocupação da ONU em difundir o programa. “Se a empresa diminui o descarte de resíduos, ou de efluentes, também diminui o risco à sociedade e, se economiza água, disponibiliza mais desse insumo escasso a todos”. 

O escritório regional da Pnuma funciona em parceria técnica com o núcleo de gestão da inovação tecnológica, da Faculdade de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que serve como base científica dos programas. Como explica Marise, o CNTL funciona como a instituição que interliga a empresa aos organismos tecnicamente habilitados a resolverem os problemas. Já o núcleo da UFRGS é a área habilitada em recursos humanos e equipamentos para executar os programas. 

Coordenado por Luiz Felipe do Nascimento, pesquisador com doutorado na Universidade de Kassel (Alemanha), com o auxílio da engenheira química Silvia Poledna, esse departamento da UFRGS gerencia e executa os programas oferecidos pelo CNTL. Sua forma de operação segue a cartilha conhecida da P+L: investigar e medir, conhecer onde ocorre o problema para depois criar a alternativa de tecnologia limpa. Essa auditoria feita por gente de fora à indústria tem se mostrado fundamental, pelo menos numa primeira fase. Isso porque, segundo Nascimento, as empresas têm o mau hábito de alterar para baixo os prejuízos com desperdício de materiais. “As perdas são muito maiores do que as apontadas em relatórios internos”, alerta.  Carlos A. Silva
Felipe: perdas são maiores do que dizem relatórios


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