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ATUALIDADES
AMBIENTE
PASSIVO DE RESÍDUOS SUPERA ESTIMATIVAS
Difícil encontrar, dentro da questão ambiental, um problema da dimensão dos resíduos sólidos industriais. Afinal de contas, a cada ano a indústria nacional gera 2,9 milhões de toneladas de rejeitos, mas apenas 850 mil toneladas, ou 28% do total, recebem tratamento adequado, como disposição em aterros, incineração ou co-processamento.
| O restante, pelo menos nas estatísticas da Associação Brasileira de Empresas de Tratamento de Resíduos (Abetre), ainda possui destino indevido, em lixões clandestinos ou em aterros preparados para receber apenas lixo doméstico. |
Cuca Jorge |
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| Fernandes: encomenda de pesquisa com a FGV |
O agravante nessa questão, porém, é saber que esse número pode ser muito maior do que as estatísticas da Abetre. Isso porque a própria entidade reconhece a imprecisão dos dados. “Esses levantamentos não são científicos, baseiam-se em estimativas informais e antigas”, revelou o presidente da associação, Carlos Fernandes. Estados como Rio Grande do Sul, Pernambuco e Paraná já estão refazendo seus inventários ambientais, iniciativa apoiada pela Abetre. Mas muitos outros, como São Paulo, preferem não promover a recontagem, pelo temor de eles mesmos sofrerem autuações do Ministério Público. Afinal, tornam-se co-responsáveis ao não terem descoberto antes as irregularidades.
Justamente por não confiar nesses dados preliminares, a Abetre contratou a Fundação Getúlio Vargas (FGV) para fazer um estudo comparativo da situação do Brasil em destinação de resíduos sólidos em relação a países desenvolvidos. “Precisamos saber não só quanto geramos de resíduos, mas em que regiões, qual destino damos para eles e qual deveria ser o tratamento mais adequado”, explicou Fernandes. O estudo da FGV deve estar pronto ainda no primeiro quadrimestre de 2003.
A falta de informação confiável não é o único problema do setor de tratamento de resíduos industriais. Há um outro latente e cuja gravidade se ampliará quando o Brasil ficar sabendo dos números reais de geração de poluentes sólidos. Trata-se da ausência de recursos para resolver o problema dos passivos ambientais, ou seja, para descontaminar as áreas com os resíduos gerados e descartados de maneira ilegal e incorreta no passado. Várias dessas irregularidades foram cometidas por indústrias já desativadas e estão, muitas vezes, em regiões habitadas ou até em lixões municipais.
“Elegemos a questão dos passivos como uma de nossas prioridades a partir de 2003”, disse o presidente da Abetre. A idéia é discutir com órgãos ambientais e as três instâncias de governo alternativas para obter recursos financeiros para a execução dos serviços. Passa pela pauta de discussões a criação de incentivos fiscais para as empresas remediadoras ou a formulação de um fundo nacional para a descontaminação de áreas degradadas. Neste último caso, seria uma proposta se basear em experiência semelhante ocorrida nos Estados Unidos, o Superfund. Mas com o cuidado de não repetir os mesmos erros do fundo americano, cujos recursos foram muito utilizados em gastos com pesquisa, advogados e diagnósticos ambientais, e não nas remediações propriamente ditas.
Para cumprir os desafios que a Abetre se “auto-impôs”, além do esforço próprio, Carlos Fernandes conta com a confiança no novo governo federal. Na sua percepção, a postura oficial de priorizar o atendimento a populações carentes deve ser benéfica ao setor de tratamento de resíduos.
“A falta de saneamento e a má destinação dos resíduos sólidos afetam principalmente as regiões pobres”, disse o dirigente, também presidente da Essencis, empresa especializada em gerenciamento de resíduos, controlada pelo grupo francês Suez e pela Camargo Corrêa. A sua única ressalva com o futuro próximo é a falta de perspectiva para a aprovação do Plano Nacional de Resíduos Sólidos Urbanos, um projeto de política para o setor há anos em discussão no Congresso. Com as prioridades anunciadas pelo Governo em deslanchar as reformas da previdência, política, tributária, entre outras, a problemática dos resíduos deve entrar na fila.
Marcelo Furtado
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