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Números assustadores - O Probiodiesel nasceu com metas ambiciosas. O projeto estima que dentro de um prazo aproximado de três anos o país já esteja utilizando um blend chamado B5, composto por 5% de biodiesel e 95% de diesel comum, para abastecer picapes, ônibus, caminhões e demais veículos hoje movidos apenas pelo óleo convencional. No futuro, a idéia é que o B5 dê lugar ao B20, blend cuja formulação conta com a presença de 20% de biodiesel.
Hoje o Brasil consome cerca de 34 milhões de m³/ano de óleo diesel, dos quais quase 30 milhões são destinados ao setor de transporte. Para substituir 5% do total consumido por veículos, portanto, será necessário produzir em torno de 1,5 milhão de metros cúbicos/ano de biodiesel. A substituição geraria uma economia de divisas bastante razoável para os cofres nacionais. Hoje são importados cerca de 6 milhões de m³/ano de diesel, a um custo próximo dos US$ 1,22 bilhão (valor sujeito a alterações devido às constantes oscilações da cotação internacional do petróleo). Nos números de hoje, a adoção do B5 reduziria as necessidades de importação em 25%. Já com o B20, as importações se tornariam desnecessárias.
Os ganhos ambientais também seriam muito vantajosos. Números levantados por produtores de álcool estimam que com a adoção do B5 deixariam de ser jogadas na atmosfera cerca de 4,5 milhões de toneladas de CO2. Também haveria uma grande redução da emissão de partículas de enxofre, ausentes no combustível de origem vegetal.
Otimismo – Será possível atingir metas tão ambiciosas? Entusiastas do uso do biodiesel garantem que sim. Neste time, é lógico, encontram-se alguns dos principais interessados, caso dos fornecedores de matérias-primas. Silvio Rangel, diretor-administrativo da Ecomat, empresa de capital privado criada em novembro de 2000 pelos produtores de álcool de Mato Grosso para desenvolver aplicações que elevem a produção de álcool, é um dos otimistas. A empresa é pioneira no assunto e já conta, desde o final do ano passado, com uma planta industrial capaz de produzir biodiesel.
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A Ecomat pode produzir 1,2 tonelada/mês de biodiesel
Rangel explica que o incremento necessário na produção de álcool para atender a necessidade do mercado caso seja adotado o B5 é algo em torno de 300 milhões de litros, número que não assusta os produtores. O diretor também garante que o biodiesel obtido a partir do etanol atende às especificações técnicas das montadoras assim como o produzido no exterior a partir do metanol. “Começamos a fazer testes com etanol há ano e meio e conseguimos bons resultados. Amostras do biodiesel que produzimos já foram aprovados pelo Instituto de Tecnologia do Paraná (TecPar) e pela Agência Nacional do Petróleo (ANP). Atualmente estamos realizando testes nos laboratórios da Bosch, na Alemanha”, explica.
A fábrica da Ecomat tem capacidade de produção de 1,2 tonelada por mês de biodiesel. “Mas com algumas adaptações podemos elevar essa capacidade de maneira significativa e rápida”, revela Rangel. O executivo explica que no momento a empresa está produzindo o necessário apenas para a realização de testes no Brasil. “Vários veículos estão rodando com nosso biodiesel em Curitiba”, informa.
O desafio também não assusta a Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (Abiove), que recentemente publicou um relatório sobre a viabilidade econômica do projeto. A entidade garante não ter grandes problemas para ampliar em grande escala e em curto prazo o fornecimento do óleo de soja, matéria-prima que considera a ideal para o projeto a partir das condições da agricultura brasileira.
De acordo com a entidade, no ano passado o Brasil produziu 4,7 milhões de toneladas de óleo de soja, dos quais cerca de 1,8 milhão foram exportados. Esse volume poderia ser rapidamente incrementado por meio da expansão das áreas de cultivo na região Centro-Oeste, o que de quebra provocaria conseqüências muito agradáveis: além de gerar milhares de empregos, a exportação do farelo de soja excedente resultaria na chegada de divisas consideráveis para o País. Outro fator apontado como positivo é o das fábricas processadoras de óleo de soja estarem distribuídas pelas regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste, regiões de maior consumo de diesel no País.
Para a associação, o preço relativamente competitivo do biodiesel fabricado no Brasil em relação ao seu concorrente obtido do petróleo também é motivo de otimismo. A entidade fez estudos que estimam o preço do éster de óleo de soja, livre de impostos e da margem do produtor, em torno de R$ 0,82 a R$ 0,90 por litro no Estado de São Paulo e de R$ 0,77 a R$ 0,83 na região Centro-Oeste.
Os números são de abril de 2002 e a diferença de custos decorre da variação dos valores das matérias-primas utilizadas e dos fretes. Na mesma época, o preço médio do diesel de petróleo na distribuidora estava na casa dos R$ 0,78 em São Paulo e R$ 0,93 no Mato Grosso.
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Indefinições – Enquanto muitos esbanjam entusiasmo, alguns especialistas advertem que para que as metas do Probiodiesel sejam atingidas ainda precisam ser tomadas muitas decisões fundamentais. É o caso do engenheiro Herman Rittner, um dos maiores estudiosos do tema no País, autor de seis livros sobre óleos vegetais, colaborador do Probiodiesel e consultor da Ecomat é um deles. Para Rittner, é preciso concretizar com agilidade o planejamento da produção das quantidades necessárias de biodiesel para que o B5 seja adotado nas diversas regiões do País. “O programa deve atingir de forma prioritária os grandes centros urbanos, onde o problema da poluição é mais grave”, defende o consultor. |
Cuca Jorge |
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| Rittner: urge definir as especificações
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A criação de uma logística eficaz de distribuição do produto e de uma política de preços adequada são outras premissas que o consultor considera imprescindíveis e delicadas. A Petrobras, já demonstrou interesse de se encarregar dessas tarefas, o que pode vir a desagradar interessados em se tornar produtores.
A definição da característica das fábricas a serem instaladas também é um aspecto crucial, na opinião do engenheiro. Para ele, o gigantismo do projeto vai exigir a construção de plantas de grande capacidade e tais instalações exigem elevados investimentos, uma vez que devem operar em regime contínuo e com sofisticado grau de automatização. Para se ter uma idéia do investimento necessário, uma planta de porte médio, com capacidade de produção da ordem de 30 mil toneladas por ano, demanda investimentos entre US$ 6 milhões e US$ 10 milhões. Para suprir a necessidade provocada pela adoção do B5 seriam necessárias 50 fábricas com essa capacidade.
Como um avanço, Rittner vê o surgimento de uma proposta preliminar feita pelo Probiodiesel sobre as especificações do combustível de origem vegetal a ser produzido no País. Tais especificações acompanham as características do combustível renovável fabricado no exterior, desenvolvidas a partir das exigências feitas pelas empresas fabricantes de motores. O engenheiro ressalta, no entanto, que tais propostas ainda não foram aprovadas em caráter definitivo.
Resta torcer para que a condução do Probiodiesel resolva rapidamente esses e outros dilemas que certamente surgirão na esteira de um programa de tamanha dimensão. E que o projeto deixe de ser um sonho para se transformar em uma realidade que se torne positiva para o crescimento da economia nacional.
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