Indústria do diet engorda as vendas

Interessados em manter a saúde e a beleza, consumidores compram mais produtos dos tipos diet/light, e ampliam o mercado dos edulcorantes

RENATA PACHIONE

O mercado diet/light a cada ano mostra-se mais robusto. Cheio de vigor, apresenta índices de crescimento da ordem de no mínimo 10% ao ano, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos Dietéticos (Abiad). E não é para menos. Os produtos trazem embutido a entrega de um corpo bonito e, sobretudo, saudável, indo ao encontro da atual necessidade da sociedade, guiada por parâmetros de beleza à Gisele Bündchen. Se no passado, essa indústria sofria o estigma de vender o amargo a um público doente (leiam-se diabéticos e hipertensos), hoje a história é outra. Ter no rótulo a inscrição diet ou light agrega o conceito de saúde. 

A venda desses produtos avança sem restrição, conquistando números crescentes de pessoas interessadas em comer o mais doce do açúcar, sem o ônus de engordar um grama por isso. Cada vez maior, esse mercado registra faturamento de US$ 2,5 bilhões, segundo levantamento da ACNielsen. Para fazer um comparativo, em 1998, essa indústria movimentou US$ 1 bilhão. Com base nesse histórico, a Abiad prevê para 2005 a cifra de US$ 7 bilhões. Na opinião do gerente de marketing da Vepê Edson Chang, embora representem algo entre 3% e 5% dos alimentos vendidos no Brasil, os produtos light e diet estão associados a números promissores; a média de lançamentos da categoria é de 180 produtos por ano. No mundo há 7 mil títulos, distribuídos em 750 categorias.  Divulgação
Chang: mercado local cresce todos os anos

Justificar esse incremento é tarefa fácil. Basta considerar os hábitos da população. Ávidos por qualidade de vida e por um corpo de formas perfeitas, os consumidores buscam praticidade e uma alimentação balanceada. Também responsável pelo potencial desse mercado estão os diabéticos e os obesos. Levantamento da Newsweek, de agosto último, revela a existência de 300 milhões de obesos, no mundo, dos quais 80% são diabéticos (176 milhões). No caso específico do Brasil, o estudo indicou que 19% da população está acima do peso, representando um público potencial para dietas com restrição ao açúcar. 

Por essas razões, parece não haver empecilhos para a expansão da indústria de edulcorantes (ingredientes substitutos da sacarose). Porém, de nada valeria essa necessidade de mercado se a indústria não oferecesse qualidade. Por conta disso, é um consenso entre os fabricantes de edulcorantes ser o fator mais significativo para a aceitação do consumidor de light e diet a melhoria do sabor dos produtos. A tecnologia da engenharia de alimentos refletida no desenvolvimento de ingredientes fazem a diferença, desencadeando um processo de novos edulcorantes, com dulçor cada vez mais acentuado e sabor, próximo ao do açúcar. 

Cuca Jorge Novidades - Resistente às crises internacionais, às mudanças de governo e à instabilidade cambial, o setor se aperfeiçoa com a urgência de um mercado dinâmico, faminto por novidades e tecnologias diferenciadas. A Nutrasweet Company, líder mundial em market-share e volume de aspartame, ilustra essa realidade, com a apresentação do neotame, novo edulcorante da marca. 
Considerado também um acentuador de sabor, este é versátil e notável, pois oferece ao fabricante de produtos diet/light a flexibilidade de desenvolver formulações das mais diversas, entre alimentos e bebidas. Foram mais de 20 anos de pesquisa para chegar a este ingrediente, cuja doçura equivale a 8 mil vezes a da sacarose. “Trata-se de uma revolução no mercado”, afirmou a gerente de vendas da Nutrasweet Daniella Conrado. 
Daniella: neotame não libera fenilalanina

O anúncio da introdução do neotame no mercado norte-americano, este considerado referência para o setor, se deu em julho de 2002, pela Food and Drug Administration/USA (FDA), garantindo assim sua segurança para o consumo. Até o momento o ingrediente já foi aprovado em 19 países, incluindo Austrália, China, Nova Zelândia, Rússia, Irã, México e Indonésia. Produzido pela Nutrasweet, o neotame, segundo previsão do fabricante, deve entrar no mercado brasileiro no primeiro trimestre de 2004 – aguardam-se o aval do Ministério da Agricultura e o da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “Até o momento este foi o edulcorante mais rapidamente aprovado”, comentou Daniella. Conforme explicou, o neotame é um sucesso nos países nos quais sua utilização é permitida. Por isso, a Nutrasweet criou, inclusive, uma divisão exclusiva e focada no negócio neotame, agregando-a à tradicional divisão aspartame. “Essa novidade prova que a Nutrasweet continua investindo em tecnologia, o que além de benefícios internos, alavanca os negócios do setor como um todo”, disse Daniella. 

Obtido a partir de modificação da molécula do aspartame, o neotame, cuja fórmula é N-[N-(3,3-dimetilbutil)-L-a-aspartil]- L-fenilalanina -1- éster metílico, apresenta como uma das principais vantagens o fato de estar imune a qualquer restrição de uso, ao contrário do aspartame que é contra-indicado para portadores de fenilcetonúria. (A fenilcetonúria trata-se de um distúrbio hereditáio detectado nos recém-nascidos, com o teste de Guthrie, conhecido como o exame do pezinho. Os portadores desta doença não possuem a quantidade suficiente da enzima necessária para decompor o aminoácido fenilalanina. Por isso a fenilalanina pode acumular-se no sangue e no líquido cerebral, causando problemas à saúde, inclusive retardamento mental. As pessoas com fenilcetonúria devem limitar a injestão desse aminoácido de todas as fontes alimentares.) 

O neotame é recomendado para pessoas de todas as idades, inclusive diabéticos e mulheres grávidas em época de amamentação. “O neotame não libera fenilalanina. Por isso a Nutrasweet atingirá um novo público, limitado pelo aspartame”, observou Daniella. Por conta da presença do dimetilbutil na molécula do neotame, ocorre uma reacomodação das ligações, tornando estas mais fortes, impedindo assim a liberação do aminoácido fenilalanina. Outro benefício é o baixo custo. Em função de seu alto dulçor, recomenda-se uma baixa dose nas formulações, o que reduz, entre outros gastos, os de embalagem, armazenamento e produção.

Sem revelar números, Daniella admitiu que a empresa prevê um incremento no faturamento, além dos ganhos institucionais. De acordo com ela, empresas líderes no mercado norte-americano, como a Coca-Cola já contam com esse edulcorante em suas formulações. “neotame tem sido muito bem visto pelo segmento de refrigerantes”, informou. E completou: “Esse lançamento será um novo marco no mercado de edulcorantes, assim como foi o aspartame”, concluiu. A importância da aceitação das indústrias de refrigerante está ligada ao volume por estas consumido em todo o mercado de edulcorantes. De acordo com dados da Nutrasweet, o setor de bebidas (incluindo refrigerantes, refrescos em pó, sucos, chás e afins) dá conta de 60% do total, adoçantes de mesa ficam com a fatia de 20% e outros 20% referem-se às demais aplicações.

Evolução – O princípio dos edulcorantes é o mesmo: conferir sabor doce em substituição ao açúcar. No entanto, cada um deles se sustenta no mercado a partir de uma característica específica. Foram vários os séculos de hegemonia mundial da sacarose, obtida da cana-de-açúcar ou da beterraba. Com a introdução dos edulcorantes derivados, sobretudo do amido de milho, a história mudou. E ainda mais com a descoberta da sacarina sódica em 1878. Depois dessa primeira geração de edulcorantes, sendo encabeçada ainda pelo ciclamato de sódio, o mercado não foi mais o mesmo. A partir daí, essa indústria só cresceu, levando consigo o desenvolvimento do setor de diet/light, com edulcorantes de alta intensidade e agentes de corpo. 

A sacarina (300 vezes mais doce do que a sacarose), em parceria com o ciclamato (com poder adoçante de 30 vezes o da sacarose), foram revolucionários. Apesar do estigma de possuir residual amargo até hoje apresentam índices representativos. No ano passado, o segmento de sacarina/ciclamato movimentou 51,3 milhões de unidades e R$ 96,7 milhões, o que corresponde, em volume, a 71% do mercado de adoçantes de mesa, de acordo com dados da ACNielsen. As vantagens da sacarina fundamentam-se no preço, cerca de 20 vezes menor que o da sacarose. De acordo com estudo da Sociedade Brasileira de Ciência e Tecnologia de Alimentos (SBCTA), no Brasil os adoçantes de mesa, em geral, utilizam a proporção de duas partes de ciclamato para uma de sacarina. Segundo a análise revela, o ciclamato reduz o gosto amargo residual da sacarina nas formulações, contribuindo para o êxito da parceria. 

No entanto, foi em função de uma descoberta acidental do químico pesquisador James Schlatter, em 1965, que o amargo dos edulcorantes se dissolveu. Com o intuito de sintetizar um tetrapeptídeo para o tratamento de úlcera gástrica, ele descobriu um pó branco de intenso gosto doce, no caso, o composto N-L-a-aspartil-L-fenilalanina-1-metil éster, ou seja, o aspartame. Trata-se do primeiro edulcorante a mais se aproximar do sabor do açúcar, acabando com a hegemonia sacarina/ciclamato. A partir de sua entrada no mercado, em 1981, registra-se um importante marco da indústria, de acordo com a opinião unânime dos fabricantes de edulcorantes.Para Daniella, o crescimento do mercado diet/light coincide com o lançamento do aspartame. “O ingrediente revolucionou no sentido de trazer sabor agradável aos edulcorantes”, comentou. 

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