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ATERROS ESPECIAIS Oferta responsável não impede descarte em lixões MARCELO RIJO FURTADO
Se na época da ocorrência havia poucas alternativas corretas e impermeabilizadas para disposição, hoje o número de aterros especiais capazes de confinar o perigo contido em resíduos classe 1, embora não suficiente para toda a demanda local, é pelo menos bem maior do que a do passado. É claro também que só a existência de mais aterros classe 1 não deve prevenir a sociedade de novos "Mantovanis". Na verdade, a maior parte dos resíduos industriais gerados no Brasil ainda continua a ser destinada de forma incorreta, misturada em lixões domésticos, sejam eles municipais ou clandestinos. Segundo a Associação Brasileira de Empresas de Tratamento de Resíduos (Abetre), mais de 70% do lixo industrial acaba em lugares inapropriados. "E sem uma política nacional de resíduos sólidos, cujo projeto de lei federal (do ex-deputado Emerson Kapaz) foi arquivado pelo atual governo, há poucas chances do quadro deprimente se reverter em médio prazo", completou o diretor-executivo da Abetre, Diógenes Del Bel. Se não representa ainda o fim das contaminações, a maior oferta de aterros especiais revela ao menos um lado não tão atrasado do Brasil, mais viável para empresas e órgãos ambientais dispostos a cumprir a lei. Os principais centros industriais, nas regiões Sul, Sudeste e parte do Nordeste (Bahia), contam com aterros para atender a demanda legal de resíduos. Trata-se de um mercado de saída rápida, com muito resíduo no aguardo para ser destinado e com necessidades de ampliação de áreas para recebimento nas regiões mais industrializadas. E é em virtude dessa demanda reprimida que entra em operação, em Franco da Rocha-SP, entre abril e maio de 2005, o novo aterro classe 1 da Essencis Soluções Ambientais, joint-venture da construtora Camargo Corrêa com a francesa Suez. Dentro da sua Central de Tratamento de Resíduos (CTR) Caieiras, uma imensa área verde de 3,5 milhões de metros quadrados, distante 15 quilômetros de São Paulo, a empresa reservou 70 mil m2 em um platô para construir o aterro. Projeto com vida útil aproximada de 30 anos, com capacidade total para confinar o volume de 600 mil m3 de resíduos perigosos, o aterro está com o primeiro dos 17 módulos pronto para receber lixo de clientes que até já deixaram alguns lotes de resíduos no armazém temporário da CTR Caieiras. De acordo com o diretor regional da Essencis, Luciano Amaral, ao receber a licença de operação para dar partida ao aterro, o que deve ocorrer em abril, a empresa soluciona dois gargalos. O primeiro deles é parar de mandar resíduos de clientes paulistas para a CTR Curitiba, no Paraná, onde o grupo já possui aterro classe 1 desde 2000, oriundo da Cavo (da controladora Camargo Corrêa). Só em 2004 foram para lá 5 mil toneladas. Logicamente eram cargas contratadas com desvantagem comercial em relação aos dois aterros classe 1 de São Paulo (Onyx Sasa, de Tremembé, e Ecosistema, de São José dos Campos), por precisar incluir o custo do frete referente aos 400 km até a capital paranaense.
O outro gargalo operacional diz respeito ao mercado de gerenciamento ambiental como um todo. Isso porque o Estado paulista, maior gerador disparado de resíduos no país, não contava com aterros especiais suficientes e, pior ainda, na região mais importante, a Grande São Paulo, não havia até então nenhum para resíduos perigosos classe 1.
É no combate a esses gargalos que o novo aterro da Essencis encontra seu trunfo. Além de se tornar mais competitivo com relação a sua própria opção paranaense, os ganhos com relação aos dois aterros concorrentes são evidentes, sobretudo para atender a demanda de regiões altamente industrializadas, como o ABC paulista e o eixo de Campinas-São Paulo, com custos de frete bem menores.
Aliás, o aterro Onyx Sasa, em Tremembé, também relativamente novo (foi inaugurado em dezembro de 2000), possui a mesma linha tecnológica por células (ver QD-387, pág.10).
Isso porque, com a manutenção de pH neutro no aterro classe 1, evita-se a solubilização dos metais precipitados dos resíduos (lodos, principalmente) e a sua conseqüente lixiviação.
A impermeabilização no estilo Suez, que nessa primeira fase envolveu investimento de R$ 1,2 milhão, começa com uma camada de 1 metro de espessura de argila adensada, com grau de permeabilidade de K= 10-7 cm/s (velocidade que o contaminante líquido levaria para ultrapassar a proteção). Além da barreira física do solo, a argila, como retentora de íons, possibilita a degradação de carga orgânica. A segunda camada da impermeabilização é uma geomembrana de polietileno de alta densidade (PEAD) de 1,5 mm. Acima dela, cobre-se toda a área com uma geogrelha de plástico para drenagem testemunho que, por sua vez, recebe um novo revestimento com geomembrana de PEAD de 2 mm. Como quinta camada do "sanduíche" da impermeabilização, entra outra geogrelha, dessa vez apenas no talude da célula, região mais vulnerável à lixiviação. Depois disso, o revestimento é um geotêxtil de nowwoven (não-tecido). Por fim, como última camada, em contato direto com os resíduos, haverá uma proteção mecânica com pneus preenchidos com material granulado (pedras). Na base da célula, há também 40 cm de brita perpassada abaixo com tubo de polietileno para coleta de percolado. O fechamento dos módulos completos da célula, quando se remove a cobertura metálica móvel, será também com argila compactada, em uma camada de 60 cm de espessura, mais uma geomembrana de PEAD, seguida de drenagem, camada de solo vegetal e, por fim, paisagismo com plantas nativas. O momento do fechamento é quando o módulo atinge três lances de seis metros, totalizando 18 m de altura, desde a base escavada, com resíduos enterrados. |
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