PERSPECTIVAS 2007
cloro-soda

Produção local corre
risco com ação chinesa
e escassez de energia

Marcelo Furtado

A indústria brasileira de cloro-soda, mesmo operando há muito tempo no limite de sua capacidade, a cada ano encontra novos motivos para postergar ainda mais os investimentos na produção. E não se trata aí de desculpa, mas sim puro pragmatismo: fatores claros do mercado criam as condições para o setor conseguir manter por pelo menos mais uns quatro anos o abastecimento dos principais consumidores de cloro, os segmentos das resinas poliuretânicas e a cadeia do PVC, sem precisar colocar a mão no bolso.

As novas razões resultam da evolução de um cenário em desenho há alguns anos, com a reformulação do mercado global provocada pela alta do petróleo e pela ação avassaladora da China. Além de gozar de certa ociosidade, visto ter operado a uma taxa média de ocupação de 89% em 2006, a indústria nacional ainda exporta cerca de 100 mil toneladas de cloro em forma de DCE (dicloroetano, insumo básico do PVC). Com a alta competitividade dos chineses, parte ou até a totalidade do volume exportado poderia ser transferida para atender aos aumentos na demanda interna do mercado de PVC, que cresce cerca de 5% ao ano nos últimos quinze anos, e de PU, com taxa de crescimento na mesma faixa.

Segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Álcalis, Cloro e Derivados (Abiclor), Luiz Pimentel, a inversão do excedente exportado se dá em virtude de toda a cadeia do PVC chinês estar cada vez mais competitiva, com firme tendência de afastar os outros exportadores do comércio global. A causa principal foi o sucesso econômico alcançado pela rota química escolhida pelo país asiático para chegar ao PVC, a do acetileno, que dispensa o derivado do petróleo, o eteno, para sintetizar o monômero de cloreto de vinila (MVC), intermediário da resina. Esse processo, que se utiliza do mineral carbureto de cálcio e água para obter o acetileno, o qual em síntese com o cloro gera diretamente o MVC, é muito mais econômico do que o empregado pelo resto do mundo, baseado na produção do dicloroetano pela reação entre o cloro e o eteno. Estima-se que enquanto o barril do petróleo não abaixar de US$ 45, a rota “ocidental” petroquímica não fará páreo à do acetileno.

A rota da China conta com todas as vantagens possíveis em termos de custo. Em primeiro lugar, apesar de ser uma tecnologia poluente, nesse aspecto ela conta, pelo menos por enquanto, com a indiferença ambiental do país, que permite sua operação sem restrições. Também pesa a favor o fato de o país contar com as maiores reservas de carbureto de cálcio do mundo, o que lhe garante farta matéria-prima para dar continuidade aos grandes investimentos realizados nos últimos anos. Além disso, segundo o presidente da Abiclor, melhorias na qualidade do PVC acetilênico confirmaram a forte penetração chinesa no mercado mundial. “Eles desapontaram os mais céticos, aqueles que não acreditavam que a China conseguiria um PVC comparável ao petroquímico”, explica Pimentel.

 
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