Feira gaúcha da indústria do  couro mostra setor preocupado
em aderir às tecnologias limpas

Texto e fotos de Fernando C. de Castro

Nos últimos vinte anos, a cadeia produtiva do couro lançou um desafio comum a todos os integrantes desse elo ao aderir ao conceito de produção mais limpa.

O objetivo é eliminar produtos ambientalmente deletérios, otimizar processos, fundir etapas, limpar ao máximo os efluentes e quando possível nem criar resíduo ambiental.

A iniciativa ficou evidente por ocasião da trigésima primeira edição da Feira Internacional de Couros, Produtos Químicos, Componentes, Acessórios, Equipamentos e Máquinas para calçados e curtumes (Fimec 2007), realizada de 17 a 20 de abril na cidade gaúcha de Novo Hamburgo. O evento reuniu mais de 250 marcas de expositores entre fabricantes de insumos químicos e bens de capital com foco no setor coureiro-calçadista. Aproximadamente 41 mil visitantes prestigiaram a exposição.

Numa ponta está a indústria química, cada vez mais preocupada em melhorar as fórmulas, na outra, os curtumes, que buscam diminuir o impacto ambiental provocado pela atividade. “O curtume de hoje é totalmente diferente”, observa o presidente da Associação dos Curtumes do Rio Grande do Sul (Aicsul), Francisco Gomes. Segundo ele, todos os procedimentos ocorrem dentro dos parâmetros do controle de processos. A melhoria na qualidade das máquinas também é um elemento a ser considerado.

Muitos empresários optaram por importar máquinas italianas, o que obrigou a indústria nacional a melhorar as suas, defende Gomes. Dessa forma, surgiram equipamentos mais econômicos em termos de consumo de energia, mais eficientes no processo e como conseqüência proporcionaram a diminuição da incidência de químicos durante o beneficiamento justamente pela eficiência dessas máquinas.

Carmen Buffon, engenheira química do Instituto Brasileiro de Tecnologia do Sistema Coureiro-Calçadista (Ibtec) afirma: “Os curtumes chegaram a tal ponto em termos de cuidado ambiental que a água retirada dos rios para os processos retorna ainda mais limpa na devolução ao ambiente. Para mim, processo ambientalmente correto significa estar de acordo com a legislação. Quanto menos material encapsulado for gerado, mais correta é a empresa.”
Carmen aponta ainda o reaproveitamento das sobras de couro como um fator interessante. Segundo ela, as rebarbas antigamente viravam lixo. Hoje, são convertidas em cintos, carteiras, bolsas e outros artefatos. Além disso, o reaproveitamento dos produtos de processo, analisa a engenheira, diminui expressivamente o impacto ambiental.

Atualmente, os curtumes reciclam os corantes do banho e os usam novamente. “A química é desenvolvimento. É só utilizar com inteligência. Tiraram o níquel das fivelas porque é alérgico. Hoje já tem selo free niquel para cintos ou com componentes cobertos por vernizes ou banhados em outro material para proteger a pele do contato”, afirma Carmen.

Na ótica da engenheira, a Iso 14000 (certificação internacional para controle ambiental) é muito mais uma forma de premiar quem adota os procedimentos corretos, pois no momento em que a empresa descumpre as normas ela é punida pela legislação oficial. Por isso existe a engenharia de processo, que auxilia os curtumes a escolher os melhores produtos e a maneira mais correta de empregá-los como forma de proteger o meio ambiente. “Os departamentos de desenvolvimento querem livrar as situações de perigo tanto no produto acabado como para quem está envolvido na operação.”

O mercado comprador de couros é dinâmico. Primeiro passou a exigir o material livre de cromo para estofamentos automotivos. Vieram as soluções com sulfato de alumínio e zircônio. Agora, a tendência é metal free. Com isso, há uma preocupação em aprimorar os curtentes vegetais e de tanino sintéticos. Os óleos também são sintéticos e modificados quimicamente. “A síntese desse tema complexo é equilibrar legislação, produção de qualidade, reciclagem, reúso, reutilização e quando possível não gerar passivo ambiental”, finaliza Carmen.

Foco ecológico – Quando o debate é a produção mais limpa, cada empresa tem sua receita própria para atingir seus objetivos comerciais sem esquecer a importância ecológica. Rejane Paiva, da MK Química (um grupo genuinamente nacional constituído há quase trinta anos, com  sede nacional em Portão-RS e ramificações em todo o País), aponta o estado-da-arte de um curtume ecologicamente correto: manter 100% de uma formulação na superfície do couro. 

Segundo a técnica da MK, elevar ao máximo a capacidade de uma formulação a tal ponto de o produto terminar no processo sem gerar efluente é a principal característica dessa concepção. Ela explica ser essa uma filosofia corrente em todos os produtos desenvolvidos pela empresa. “Tudo o que eu ofertei tem de reagir ou aderir à pele”, define Rejane ao calcular que uma tonelada de peles ou 25 peças de bois consomem cinco mil litros de água somente nos banhos iniciais. Por conta disso, a MK acaba de lançar uma linha de engraxantes que penetra no couro a frio e gera economia de 100% de energia e de água numa só tacada por evitar o uso de vapor empregado na aplicação convencional. O produto reage totalmente com a pele sem deixar resíduo.
 

 
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