Perspectivas
Marcelo Fairbanks
O crescimento de 37,7% das importações brasileiras de produtos químicos em 2007, reforçando a tendência iniciada em 2002, consiste em excelente oportunidade para investimentos em novascapacidades produtivas. A manutenção do crescimento econômico nacional, embora modesto, reforça essa necessidade. Apesar disso, os projetos anunciados para os próximos anos ficam aquém dessas possibilidades.
A explicação para o descompasso entre oportunidades e investimentos reside na baixa rentabilidade obtida pelo setor. A anlise apresentada pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) abrange fatores intrínsecos e extrínsecos ao negócio. Embora os preços de venda dos produtos no Brasil tenham apresentado elevação, os custos de matrias-primas e energia consumidas nos processos tiveram aumento ainda maior, comprimindo as margens.
A indústria, como o país todo, sofre também com o garrote tributário e com as deficiências notórias de infra-estrutura, em especial, nas áreas de logística e de energia. A redução do volume de chuvas, verificado no final de 2007, fez reaparecer o fantasma do apagão elétrico. Como por reflexo condicionado, autoridades federais passaram a apontar a geração termoelétrica como solução para o problema anunciado. Com isso, o gás natural produzido no Brasil ou importado da Bolívia passaria a ser enviado prioritariamente para a geração de eletricidade, em detrimento de outros usos, entre os quais a nobre função de insumo para o setor químico.
“O gás natural é matéria-prima para nossa indústria, não podemos ser relegados a um segundo plano”, criticou Carlos Mariani Bittencourt, presidente do conselho diretivo da Abiquim. A entidade setorial encaminhou protestos e solicitações para evitar a paralisação de fábricas por conta de interrupções no suprimento. Ele reconheceu os esforços da Petrobras para aumentar a oferta de gás natural, mas salientou que os resultados demoram. A produção de gás do Espírito Santo oferecerá 18 milhões de metros cúbicos por dia, que ajudarão a abastecer o mercado, mas pouco representam perto da demanda total das termoelétricas.
José de Freitas Mascarenhas, vice-presidente da Abiquim, quer manter diálogo com o governo federal para participar das decisões sobre o consumo e a precificação do gás natural. Atualmente, essas decisões estão concentradas na Petrobras. A entidade defende a elaboração de uma estratégia oficial para administrar com clareza os efeitos sociais e econômicos. “O uso químico é o que agrega mais valor ao gás”, informou. Uma política adequada para o insumo também exige buscá-lo em países com preços atraentes e suprimento garantido. A Bolívia de Evo Morales não oferece a devida segurança, exigindo buscar novas fontes.

Mariani ressaltou que a indústria química nacional apresentou crescimento de vendas e de produção em 2007, acompanhando a evolução da economia, fato que deve se repetir em 2008. Embora isso aponte para um novo aumento das importações, ele tranqüilizou os presentes ao Encontro Anual da Indústria Química (Enaiq), realizado em dezembro, em São Paulo. “A China tem déficit no comércio químico, os Estados Unidos também, isso não é o problema”, afirmou. “Precisamos avaliar a conveniência de investir no país e para isso é preciso ter rentabilidade.”
Do ponto de vista setorial, a lição de casa foi feita. A recente reestruturação petroquímica reduziu o número de players, ampliou sua escala de produção e eliminou entraves societários nas companhias, fato exemplar da busca da competitividade global e maior eficiência da indústria. “O Brasil precisa de um choque de seriedade para eliminar desperdícios, não só do governo, mas de toda a sociedade”, defendeu.
A contínua elevação dos preços do gás e do petróleo e, conseqüentemente, dos derivados de emprego petroquímico, como a nafta, condensados e os gases residuais de refino, estimula a procura por alternativas. Onde há disponibilidade, como na China, o carvão mineral representa um caminho para sustentar a atividade química. No Brasil, produtos de origem renovável, com vantagem ambiental, começam a ganhar espaço. É o caso do etanol. “Braskem e Dow já anunciaram planos para produzir eteno de etanol com excelente viabilidade econômica”, comentou Mariani. A Abiquim entregou ao secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Ivan Ramalho, e ao presidente do BNDES, Luciano Coutinho, um estudo sobre a demanda de matérias-primas petroquímicas e suas fontes prováveis até 2020, como forma de nortear ações oficiais na área.
Crescimento importado – Em 2007, o consumo aparente de produtos químicos de uso industrial apresentou aumento próximo a 10%, mas a produção nacional cresceu apenas 1,5%. “Mais de 90% do crescimento do consumo de químicos foi obtido com importações”, lamentou Josééde Freitas Mascarenhas, vice-presidente da Abiquim.

Mascarenhas comparou o setor químico com a produção de aço, setores com grandes semelhanças: são de capital intensivo, têm operações de grande porte, iniciam sua cadeia com produtos de origem mineral e ambos possuem participação estatal. “A rentabilidade siderúrgica chega a ser entre quatro e cinco vezes maior que a do setor químico para fins industriais”, afirmou. Por isso, os investimentos naquele setor são mais volumosos.
Os investimentos na infra-estrutura nacional, segundo Mascarenhas, representavam 5% do PIB durante os anos 80, período denominado como a década perdida. Porém, nos últimos anos, o percentual destinado a essas obras somou apenas 2% do PIB. “A infra-estrutura está defasada e precisa receber pelo menos 10% do PIB por alguns anos, apenas para tirar o atraso”, avaliou Mascarenhas.
Um exemplo dessa ineficiência foi dado por Eduardo Daher, diretor-executivo da Associação Nacional Para a Difusão de Adubos (Anda), segmento industrial dependente de suprimento externo de ingredientes nitrogenados e potássicos, que somaram 17 milhões de toneladas em 2007. “O setor de fertilizantes paga, em média, US$ 10 por tonelada importada apenas a título de demurrage (taxa cobrada pelos armadores pelos atrasos no atracamento, carga e descarga)”, disse Daher. “Só com o que pagamos em demurrage daria para construir um porto novo por ano no Brasil.”

A venda de adubos e fertilizantes aproveitou o apogeu do agronegócio e da agroenergia em 2007, alcançando aumento de faturamento de 59,5% em dólares e 41,2% em reais, com volume de vendas 16,9% superior ao de 2006. “Os custos dos ingredientes subiram e também os custos de transportes, que representam 25% do total”, explicou Daher. Para 2008, o segmento deverá crescer, porém em ritmo menor, por volta de 4,5% em volume de nutrientes puros. Daher aponta dois limites para o desenvolvimento dos negócios: a precariedade logística nacional e o alto endividamento dos produtores agrícolas.

A agroindústria, a construção civil e as indústrias automotiva e eletroeletrônica foram os principais motores da economia nacional em 2007, e devem repetir a dose em 2008.
No entanto, há necessidade de investir para fortalecer as cadeias produtivas completas. “Temos vantagens nos produtos agrícolas, mas seria melhor vender alimentos já processados e embalados, exigindo contar com uma produção forte de embalagens, incluindo o setor de plásticos”, comentou José Ricardo Roriz Coelho, presidente do Sindicato das Resinas Plásticas do Estado de São Paulo (Siresp) e vice-presidente da Abiquim.
Roriz salienta que o preço médio do petróleo subiu 967% em dezesseis anos. A nafta petroquímica aumentou 20% entre outubro de 2006 e outubro de 2007, de forma abrupta.
“A falta de previsibilidade desses aumentos de custos gera estresse na cadeia produtiva, agravado pela valorização do real”, avaliou. Mesmo assim, a demanda por termoplásticos subiu 10% em 2007, compensando o período de lenta evolução de 2000 a 2005.
O dirigente chama a atenção para o deslocamento geográfico dos negócios petroquímicos mundiais e seu reflexo na competitividade setorial. “O eixo de interesses deixou de ser Europa/Estados Unidos para se situar entre Oriente Médio e China”, comentou. Para ele, isso exigirá mudanças mais profundas no setor de transformação de plásticos, pois a fabricação de resinas já fez um movimento de consolidação importante para ganhar competitividade.