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AMBIENTE
Curtumes gaúchos aderem à produção mais limpa

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ovas práticas adotadas em curtumes como forma de melhorar os índices de produção mais limpa foram apresentadas durante a XI Jornada de Estudos Ambientais do Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefatos (IBTeC) em 3 de outubro último. Sob o tema Produção e Consumo Sustentáveis, Carlos Zimmermann – da Peles Pampa – apresentou a forma como sua empresa atua para remediar seus processos sem produzir passivo ambiental com foco principalmente na maximização da eficiência industrial.

Zimmermann apontou a firma como uma das mais modernas da América Latina no acabamento de peles para estofamento de móveis e setor automobilístico e, por isso, conectada com as exigências das grandes corporações do mercado mundial automotivo; essas por sua vez com níveis elevados de padrões de exigência quanto à eficiência ecológica dos couros embarcados nos automóveis.

Do total da matéria-prima usada pela Peles Pampa, 80% são couros acabados e 20% na etapa semi-acabada, sendo que 70% são couros verdes e 30% wet blue. A empresa deu start up em 2003, em um amplo programa de otimização do uso da matéria-prima, economia de água e prevenção da geração de resíduos. Como parte desse projeto, foram construídas duas lagoas para captar a água da chuva originária dos telhados dos prédios e do asfalto do seu pátio.
 

“É impressionante a quantidade de água que conseguimos armazenar”, conta Zimmermann, destacando que a mesma é utilizada para a subsistência, refletindo em economia para a empresa e também para o meio ambiente, uma vez que esse empreendimento reduz substancialmente os gastos de água tratada.

Quanto à matéria-prima, a otimização do processo de descarne tem como conseqüência menor peso para o remolho e caleiro, maior aproveitamento dos produtos utilizados no remolho e caleiro, aumento da qualidade no processo e melhor emprego dos equipamentos.

Para alcançar essa meta, o treinamento atingiu os funcionários dos frigoríficos fornecedores como forma de garantir a chegada do couro no curtume em condições máximas de aproveitamento.

A partir de tais medidas, a Pampa economiza cerca de 35% no valor pago pelo couro, o qual corresponde aos restos, e que não são aproveitados pela indústria de

Fernando C. Castro

Zimmermann: captação de água de chuva para subsistência

curtimento e se torna passivo ambiental no curtume. “Não adianta falar da concorrência chinesa e da falta de apoio dos governos. A solução de nossos problemas de competitividade está dentro da nossa própria empresa”, considera Zimmermann.

Nos processos de caleiro e curtimento, cuidados para balancear a salinidade, evitar álcalis muito agressivas e trabalhar com banhos reciclados trazem como conseqüência um couro mais aberto, apresentando maior rendimento, menor quantidade de água e diminuição da carga poluidora. O palestrante informou que a Pampa com esses cuidados economiza 100 metros cúbicos de água por dia.

A troca do fulão charuto pelo de remolho foi fundamental, associado ao uso de fungicida e processos para rebaixar o pH da água de tal forma a tornar o processo mais eficiente, com a melhora da fase de secagem para facilitar a divisão do couro, de maneira a diminuir a geração de pó de couro nessa etapa.

Ao longo do recurtimento, sublinhou Zimmermann, o gerenciamento das reações a partir da metodologia aplicada sistematicamente resulta na ocorrência de teores de nitrogênio insignificantes, com carga poluidora de baixo impacto quando direcionada às estações de tratamento de efluentes (ETEs). Esse procedimento melhora ainda o aproveitamento dos equipamentos, apresentando menor consumo de energia e gastos com manutenção e substituição.

Na fase de pré-acabamento, a busca pela excelência nos processos de enxágüe, grampeamento refilo e lixa proporcionam couros com ganhos de rendimento e também com menor carga poluidora para as ETEs e diminuição de resíduos sólidos. O acabamento pode ser menos oneroso se houver controle na geração de água, o não desperdício de água e produtos químicos.

As tintas, por exemplo, podem ser recuperadas. Zimermann explicou que 50% das sobras saem da mão-de-obra e não das máquinas de tingimento. “Pequenos descuidos e falta de treinamento oneram os processos e geram perdas desnecessárias”, ressaltou.

Gilberto Maldonado, do curtume Wyny do Brasil, revelou que a empresa realiza suas ações em prol do meio ambiente com base na ISO 14001, com estabelecimento de metas anuais, as quais são comparadas por meio de críticas periódicas e englobam os procedimentos de processos com potencial na geração de resíduos nocivos à natureza.

Os impactos ambientais ocorridos antes, durante e depois da realização desses processos são estudados e servem de subsídios na busca de novas tecnologias e alternativas que promovam resultados mais eficazes do que o simples cumprimento da legislação ambiental. Os funcionários têm claramente definido quais são as suas responsabilidades na execução do trabalho e recebem treinamento para atenderem às expectativas do ponto de vista da produção sustentável.

A construção de canaletas direcionadas à retenção de resíduos no entorno dos setores que podem causar algum tipo de impacto ambiental é uma medida preventiva extra. Outra fica por conta da pressão sobre os fornecedores, no sentido de produzir e desenvolver novas formulações com menor impacto ambiental.

De acordo com Maldonado, toda a matéria-prima consumida no Wyny passa por uma avaliação. Se for verificada que a mesma está em desconformidade com a política da empresa, essa é devolvida. O monitoramento do lençol freático no entorno da planta industrial foi adotado como rotina e funciona como um indicador importante acerca das técnicas empregadas na execução das políticas de produção mais limpa do curtume.

Para tanto, o curtume desenvolve ações preventivas, sempre tendo como norte as avaliações periódicas realizadas no início e no meio de cada ano, conforme previsto nos critérios de avaliação da certificação ISO. Diante de anomalias, existem estratégias previamente traçadas em readequação de processos e, com isso, os resultados expostos por Maldonado são nitidamente mensuráveis. Em um comparativo dos últimos quatro anos, a empresa revela que em 2002 cerca de 99% dos seus resíduos iam diretamente para o aterro.

Em 2006, com todas as medidas de gerenciamento dos processos produtivos, apenas 6,67% dos resíduos foram depositados no aterro. O resto passou pelo reciclo.

Por ocasião da XI Jornada de Estudos Ambientais, a cordenadora do Núcleo Tecnológico do Centro Nacional de Tecnologias Limpas (CNTL), Rosele Witée Neetzow, advertiu que a geração de resíduos não pode mais ser considerada como inerente ao processo produtivo. Para ela, rejeito e desperdício são absolutamente sinônimos entre si.

Rosele recordou que as primeiras legislações a incorporar a preservação ambiental datam da década de 1970, mas eram ineficientes. Até a década de 1950, a exploração do ambiente era praticamente livre. Naquela época, a ninguém eram atribuídas responsabilidades aos efeitos deletérios causados à natureza.

Contudo, a partir dos anos 1970 e 1980, começaram a ser estabelecidas as normas para o controle de emissão de poluentes nas indústrias, onde a medição dos índices da carga poluente era feita no final de tubo.

Fernando C. Castro

Rosele: rejeito e desperdício são a mesma coisa

Inicia-se nesse período a implantação de sistemas de gerenciamento de efluentes tratados. As empresas e os técnicos passaram a ser responsabilizados pelos danos que as suas atividades causam ao ambiente natural. A década de 1990 foi mais dura para as empresas poluidoras.

A adoção de medidas que impeçam a geração de poluição passa a se constituir em tarefa de cada funcionário, pois todos são considerados responsáveis pela emissão dos resíduos. Conforme Rosele, o gerenciamento de resíduos deve incorporar todo o passivo ambiental inerente ao processo e levar em conta a vida útil do produto acabado e o seu descarte.

Como tal procedimento resulta em custo produtivo, a alternativa na visão da coordenadora do CNTL é desenvolver novas tecnologias capazes de limpar a produção antes de gerar passivo ambiental como quesito à diminuição da carga poluidora. Rosele propõe a constante avaliação técnica, econômica e ambiental do processo para questões como a metodologia para obter respostas sobre como o resíduo foi gerado, em qual etapa da produção e como ocorreu.

Somente após ter esse conhecimento é que se pode ser mais eficiente. “Resíduo não é inerente ao processo. É ineficiência”, criticou Rosele. Na sua óptica, a empresa tem a obrigação de procurar tecnologias voltadas à eliminação de carga orgânica poluidora dentro da estação de tratamento e elogiou a Companhia Vale do Rio Doce – liderança global em mineração – presente em 13 Estados brasileiros e em 32 países, nos cinco continentes.

“É um exemplo de empresa sustentável. Além de gerenciar os resíduos que produz, a Vale inverteu a lógica de que cabe ao comprador escolher a matéria-prima de fornecedores que não poluem”, observou. “A Vale seleciona os seus fornecedores e também se nega a vender seus produtos para aqueles que não respeitam a natureza, pois entende que a sua responsabilidade ambiental ultrapassa os limites das suas empresas”, enfatizou Rosele.

A palestrante apontou ainda um trabalho realizado em uma indústria do setor calçadista onde foi registrado a ocorrência de 346 kg de resíduos de capa de salto em um ano. Esse desperdício, segundo ela, poderia ser utilizado na fabricação de 58 mil pares de capas de salto e 21 mil e 500 pares de capas de couro reconstituído, mas foi direto para o aterro sanitário.

“É preciso mudar a forma de se relacionar com os resíduos. Não se pode simplesmente aceitar que uma matriz gere sobras de matéria-prima que não terá mais utilidade”, assinalou Rosele. De acordo com ela, todo o desperdício industrial se transforma em custo repassado ao preço final cobrado do consumidor.

F. C. C.

 
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