Cuca Jorge

 

Mesmo com vendas em
alta, indústria nacional
teme o peso dos custos
e dos impostos contra
concorrentes externos

Márcio Azevedo

Depois de emitir sinais de aquecimento nos últimos dois ou três anos, o mercado brasileiro de bombas e motobombas esquentou de vez em 2007. A elevação do faturamento dos produtores nacionais para R$ 1,2 bilhão em 2007 (alta de 15,3% sobre 2006), nas contas da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), com­prova o bom momento dessa indústria, forjado principalmente por grandes investimentos da Petrobras em petroquímica, petróleo e gás, pela manutenção dos investimentos dos produtores sucroalcooleiros, por obras de irrigação e da transposição do rio São Francisco e pelas inversões em siderurgia e mineração.

No entanto, a bela foto de 2007, mostrando o crescimento dos fabricantes de bombas locais, não diminui a preocupação com as perspectivas de médio e longo prazos. As exportações brasileiras, de R$ 489 milhões em 2006, caíram para R$ 460 milhões em 2007 e, no mesmo período, as importações passaram de R$ 455 milhões para R$ 460 milhões. Além da perda de força nas vendas ao exterior, preocupa o nível de importação no mercado interno, próximo a 40% do faturamento da indústria local.

“O mercado interno ainda está aquecido”, diz Wagner Vilela Cipola, presidente da Câmara Setorial de Bombas e Motobombas (CSBM) da Abimaq, com ênfase no ainda. “Mas é algo momentâneo. As vendas ao exterior tendem a diminuir, principalmente em virtude da valorização do real perante o dólar, e se a indústria brasileira depender apenas do mercado interno, não obterá grandes resultados”, avisa.

O Brasil nunca foi um grande exportador de bombas, pois, para Cipola, o empresário nacional não sente confiança para investir. Quem tem suas vendas atreladas a setores como o sucroalcooleiro, ou à Petrobras, pode acreditar que tem mercado para mais dez anos, mas muitos setores consumidores potenciais de bombas, como o de saneamento básico, se revelam eternas promessas sem data certa para vingar. Como garantir que os incentivos que impulsionaram segmentos como a construção civil, beneficiada pela liberação de verbas no âmbito do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), não se

Cuca Jorge

Cipola: real forte leva à redução de exportações

encerrarão repentinamente, como acontece com a indústria automobilística? “Esses altos e baixos deixam o produtor nacional confuso”, avalia Cipola.

Além da falta de perspectivas de longo prazo, diversos fatores têm contribuído para reduzir a capacidade de investimento dos produtores de bombas brasileiros e sua competitividade. Puxando a fila com posição de amplo destaque está o câmbio, mas a lista é longa e bem conhecida de toda a indústria de bens de capital: os juros altos, dificultando o acesso ao crédito; a legislação trabalhista nacional, que torna o empregado brasileiro caro aos seus patrões; o imbróglio tributário; a deficiência estrutural em portos, aeroportos e estradas; e um grande arrocho nos preços de matérias-primas das quais o país é um grande produtor mundial.

Nesse ponto, aliás, a situação chega a ser curiosa. Mesmo sendo o Brasil um dos principais produtores mundiais de aço, as avaliações da Abimaq revelam que os insumos básicos para a indústria de bens de capital – aços fundidos – custam 80% mais caro para os produtores brasileiros que para os europeus, e o dobro do preço pago por produtores chineses. Entre 2001 e 2006, a evolução de preços no atacado revela um aumento de 136% nas cotações do ferro, aço e seus derivados, enquanto as máquinas e equipamentos tiveram seus preços reajustados em apenas 51%. E, lembremos, a inflação no período foi de 55%. Somadas a fatores como fraco crescimento do PIB, queda acentuada na formação bruta de capital e expressivo aumento de insumos e máquinas importadas, as deficiências competitivas nacionais levaram a indústria de bens de capital brasileira da 5ª posição mundial, em meados da década de 80, para a 14ª, hoje. “É um absurdo que tenhamos perdido posições para países como a Coréia e a Índia”, indigna-se Corrado Vallo, 1º vice-presidente da CSBM.

Para tentar reverter essa situação, a Abimaq criou um plano denominado Abimaq 2022, cuja meta é resgatar, até o aniversário de 200 anos da independência do país, a 7ª posição mundial entre as maiores indústrias de bens de capital. O plano já foi apresentado ao presidente do BNDES, Luciano Coutinho, ao Ministério da Indústria e do Comércio e à ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, tendo sido muito bem-aceito, segundo Vallo. O Abimaq 2022 se baseia em quatro pilares considerados fundamentais para a reversão da atual situação: desoneração tributária sobre investimentos produtivos, revisão das políticas de financiamento de máquinas e equipamentos, reforço das compras governamentais de bens de capital mecânicos nacionais e o combate à concorrência desleal.

Mais especificamente no segmento de bombas e motobombas, a CSBM está realizando uma reclassificação dos tipos de bombas produzidas no Brasil para a cobrança do Imposto sobre Produtos Industrializados, com o objetivo de pleitear, em Brasília, a isenção do tributo. Já foi realizada uma reclassificação, no âmbito do Mercosul, que tem gerado grandes confusões no momento de classificação das bombas, e há muita facilidade para inserção na categoria “outros”. Mas essa categoria tem incentivos, ex-tarifários, que têm beneficiado equipamentos importados. A situação ainda é agravada pela dificuldade dos fiscais em reconhecer e classificar corretamente os equipamentos. O governo até tentou colaborar, dando isenção a um determinado produto, que, no entanto, não tem efeito prático para os fabricantes de bombas industriais brasileiros.

Isonomia já – Como maior cliente da indústria de máquinas e equipamentos nacional, a Petrobras é o grande motor a mover a indústria de bombas para produtos químicos. Porém, há uma insatisfação crescente entre seus fornecedores brasileiros com processos de inspeção que dizem, sem se identificarem, são muito mais extensos que os praticados no mercado internacional. Para equipamentos com prazo de entrega de 12 meses, a estatal consome cerca de 400 horas em inspeção, enquanto outras empresas de petróleo e gás necessitam de cerca de 60 horas.

Porém, não são exatamente as exigências da empresa que causam desconforto, mas um tratamento que os produtores brasileiros dizem não ser o mesmo para fornecedores estrangeiros.

Como, para atender a essas exigências de inspeção, o fornecedor precisa dispor de mais mão-de-obra, e os prazos acabam se dilatando, há um custo extra, avaliado em até 3% do preço de venda do equipamento, em alguns casos. Somado à desvantagem cambial dos fabricantes brasileiros de bombas, o quadro pode agravar a perda de competitividade que ocorre na indústria nacional. Um executivo brasileiro diz: “A Petrobras só está comprando tanto dos brasileiros porque o mercado externo está passando por uma demanda terrível, e em um período de dois ou três anos os fornecedores externos estão impossibilitados de fornecer equipamentos em tempo razoável. Então a Petrobras compra localmente para resolver um problema de cronograma.”

 

 

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