R e m e d i a ç ã o    d e    S o l o s


Ilustração Sueli Rojas

Indústria do diagnóstico e
consultorias nanicas afetam
a qualidade do serviço
Marcelo Furtado

Ao mesmo tempo em que evolui comercialmente, o mercado de empresas de diagnóstico e remediação de áreas contaminadas também vê seus problemas crescerem de forma proporcional. A grande aceleração dos negócios iniciada com as recentes preocupações ambientais da sociedade, notoriamente a partir de meados da década de 90, acabou por atrair em demasia um sem-fim de interessados em ganhar dinheiro com a nova demanda, provocando uma espécie de corrida do ouro que, no final das contas, diminuiu a qualidade dos serviços ofertados. A seriedade na aplicação de tecnologias para descontaminação e para elaborar relatórios de passivos ambientais foi lentamente substituída, em vários casos, por um jogo de faz-de-conta em que técnicas de prateleira são aplicadas sem muito critério e controle, apenas para dar uma resposta às autoridades e clientes sem muito preparo para checar e fiscalizar o andamento dos projetos, e por uma verdadeira indústria do diagnóstico ambiental, documento necessário para celebrar contratos de compra e venda ou para oficializar termos de mudança de uso da área.

O fenômeno de “degeneração” do mercado tem a ver, em primeiro lugar, com o inchaço de oferta de empresas na área. Formado inicialmente por cerca de 15 empresas especializadas, o segmento sofreu um boom a partir de 2000, talvez por influência da publicação da resolução 273 do Conama, que disciplinou os procedimentos de fiscalização, controle e licenciamento de postos de combustíveis, incentivando negócios com esses clientes. “Vários ex-funcionários dos grupos mais fortes do mercado, e até mesmo alguns aventureiros com formação técnica duvidosa, passaram a criar consultorias para aproveitar o novo filão do mercado”, explicou Giovanna Galante, gerente da Essencis Remediação, joint-venture entre o grupo francês Solvi e a construtora brasileira Camargo Corrêa. Uma estimativa é a de que atualmente cerca de 140 consultorias se engalfinhem para dividir os fornecimentos da área. “O mercado está prostituído”, completou Giovanna.

Embora boa parte dessas novas empresas hoje se concentre nos serviços para postos de combustíveis, o que fez os grupos tradicionais saírem quase totalmente desse nicho de mercado, a preocupação atual é a “invasão” dos novatos em clientes industriais. Com contaminações mais complexas, o risco de uma remediação mal feita em um sítio industrial passa a ser bem maior. E trata-se aí de algo muito possível de ocorrer. Não só por causa da má qualidade do serviço ofertado, mas porque poucos órgãos ambientais no Brasil estão devidamente empenhados e preparados para avaliar e controlar as remediações. Só para se ter uma idéia, a grande maioria das agências ambientais do país nem mesmo conta com levantamento das áreas contaminadas de seus estados. Na verdade, apenas São Paulo, por meio de trabalho iniciado pela Cetesb em 2002, renova constantemente um inventário dos sítios contaminados, cuja última publicação, em novembro de 2007, demonstrou haver 2.272 casos confirmados, sendo 70% deles postos de combustíveis. Ocorre que mesmo no estado paulista a estimativa é a de que o número real seja muito maior do que o de conhecimento do órgão ambiental (só em São Paulo, há 120 mil indústrias).

Mercado adolescente – Os temores com os caminhos tomados pelo mercado brasileiro de remediação de solos e águas subterrâneas são maiores ainda quando se compreende que o estágio geral de desenvolvimento tecnológico do setor, mesmo excluindo-se a maioria das consultorias mais novas, ainda é muito imaturo. Essa espécie de perfil “adolescente” do segmento, não raro, dá curso a erros de interpretação que prejudicam a elaboração de projetos. É comum os mentores não avaliarem direito as condicionantes do solo, tornando muitas tecnologias quase inócuas. E o pior: as falhas são difíceis de ser rastreadas pela fiscalização ambiental ou simplesmente checadas pelos clientes, por ambos não estarem suficientemente instrumentalizados para a tarefa.

Os “erros”, involuntários ou não, ocorrem, como exemplo, na implantação de sistemas de bombeamento e tratamento denominados MPE, de extração multifásica para contaminantes, que permitem a extração simultânea de fase livre, dissolvida e de vapor do solo. Muito empregados em contaminações por hidrocarbonetos, mas também em sítios com solventes clorados e outros componentes voláteis, a sua implantação por poços não raramente deixa escapar plumas de contaminantes para além da área contaminada.

Isso ocorre por causa de um problema aparentemente óbvio, mas que costuma ocorrer: a colocação de vários poços para cercar a pluma. Quando não bem projetados, torna-se insuficiente para extrair o lençol freático e os vapores contaminados. Sítios onde há elevado grau de heterogeneidade geológica demandam pequenos espaçamentos entre poços verticais para a garantia da captura necessária, implicando em uma quantidade exagerada de poços de extração. Na maioria das vezes, o espaçamento ideal não é determinado e não se obtêm raios de influência apropriados. Com isso, as plumas migram para fora das áreas com fases livres retidas pelo solo (fontes secundárias). As incertezas existentes

associadas a uma geologia de elevado grau de heterogeneidade, nestes casos, deveriam demandar soluções mais adequadas, o que dificilmente ocorre no Brasil.

Problemas desse tipo, na opinião do especialista Manoel Maia Nobre, responsável por vários projetos avançados de remediação no Brasil, sobretudo para a petroquímica Braskem, para quem presta serviço como consultor corporativo, ocorrem muito por causa da visão do mercado brasileiro de remediação ainda bastante atrelada às tecnologias padrões. “A remediação, principalmente na indústria, precisa ser vista de maneira particular, engenheirada. Um solo heterogêneo e uma fonte de contaminação cuja complexidade foge do conhecimento daquele a que se propõe a remediá-la já são motivos para pensar o projeto dessa forma. Caso contrário, o trabalho corre o risco de ser mais decorativo do que de fato”, critica Maia Nobre.

Cuca Jorge

Maia Nobre: trincheira para combater desleixo técnico

Trincheiras – Para evitar a falha de concepção do MPE, uma solução pensada e já executada em trabalhos da Maia Nobre Engenharia (escritórios em Maceió-AL e Salvador-BA) seria a construção das chamadas trincheiras interceptantes (ver esquema). Trata-se de paredes construídas no solo, ao redor da área com contaminantes, com materiais permeáveis, brita ou cascalho, conjugadas com poços de extração, por bomba ou gravidade, que removem segregadamente as fases de contaminantes (livre, gasosa e dissolvida).

A técnica, explica Maia Nobre, é empregada nos Estados Unidos há quase duas décadas como alternativa ao MPE em sítios com contaminações por LNAPLs (fluidos orgânicos imiscíveis e mais leves do que a água, como os hidrocarbonetos do petróleo), onde pode ser realizado o controle da migração de fases livre e dissolvida, além da remoção de massa. Adequadas para sítios com grandes heterogeneidades geológicas, onde o fluxo de águas subterrâneas ocorre aleatoriamente em zonas de maior permeabilidade e em material arenoso, as trincheiras funcionam como camada infinita de poços de extração ao longo de sua extensão. São relativamente fáceis e baratas de construir, com custo de operação também baixo em virtude da operação por fluxo gravitacional para o interior da trincheira, possível pelo rebaixamento do nível freático.

Por causa das características do material de preenchimento, as trincheiras interceptantes criam uma região de elevada permeabilidade (e transmissividade) no aqüífero freático, com uma zona de influência abrangente, e garantindo extensa área de cobertura pelo bombeamento. Em geral, a tecnologia é instalada transversalmente ao sentido de fluxo de águas subterrâneas, a jusante das fontes primárias/secundárias de LNAPLs. O controle da migração de plumas de contaminantes se dá pela alteração da piezometria (captura) com o bombeamento da água subterrânea, por meio de um sistema de extração/drenagem mais profundo, sem gerar turbulência (e emulsão) onde existir fase livre de LNAPLs.

 

 

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