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TÊXTIL
Italiana desenvolve fibra à base
de cortiça
Quase
sempre, quando o assunto é a inovação tecnológica na indústria têxtil, fica
impossível não pensar nos sofisticados centros de pesquisa científica, em
conceituados pólos de tecnologia ou em enormes investimentos. Tais regras,
no entanto, foram desafiadas por uma micro empresa italiana, a Grindi srl,
premiada internacionalmente por ter desenvolvido uma fibra revolucionária
produzida a partir da cortiça.
Denominado suberis, palavra derivada do italiano “sughero” (cortiça), o
produto foi patenteado em todo mundo pela pioneira Anna Grindi, estilista
responsável pela descoberta das propriedades até então desconhecidas desse
material.
Em uma pequena cidade da Sardenha, ilha italiana onde o empreendorismo
feminino ainda se encontra em fase embrionária, Ana conseguiu transformar
matéria-prima pobre em fibra disputada por requintados ateliês de alta moda.
Tudo graças a sua aguçada inteligência, aliada à intuição feminina e à
apurada visão para os negócios.
Aos dezoito anos Anna fundou o seu primeiro ateliê, especializado em
vestidos de noiva. Mais tarde, ao lado da família de seu marido, produtor de
rolhas, decidiu que era hora de estudar uma nova aplicação para o material
que, há mais de mil anos, é empregado na tradicional indústria vinícola.
“Enfrentei diversas noites de insônia e o ceticismo de quem não apostava no
meu desafio”, revela. “No entanto, converti a minha própria cozinha em um
laboratório e consegui transformar uma rígida folha de cortiça prensada em
uma fibra de maciez inimitável”, completa.
A cortiça é cultivada sobretudo em países como Portugal, França, Itália,
Espanha, Marrocos, Tunísia e Algéria. Na Europa, a produção anual de cortiça
está estimada em 340 mil toneladas, movimenta um mercado de 1,5 bilhão de
euros e utiliza mão-de-obra de quase 30 mil pessoas. A região portuguesa do
Alentejo é responsável pela produção de aproximadamente 180 mil toneladas ao
ano e, até a descoberta da fibra Suberis, a cortiça era empregada em
restritos setores de mercado.
A matéria-prima de primeira qualidade - mais homogênia e com pouca
porosidade – passa por fases de lavagem, esterilização, secagem e
revestimento em parafina, até transformar-se em rolhas para 20 bilhões de
garrafas de vinho, espumante e champagne do mundo todo.
Já a cortiça de qualidade inferior é reservada à produção de tapeçaria,
enquanto os subprodutos da cortiça são destinados à indústria granuladora
para a produção de compensados e de material isolante ou ainda prensado para
o setor de calçados.
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A descoberta
de Anna Grindi, no entanto, garantiu maior prestígio a um material
considerado pobre. O resultado obtido por seus estudos é um tecido
ecológico, natural e antialérgico criado a partir da combinação da
cortiça com o algodão rigorosamente orgânico. “Trata-se de uma fibra
que pode substituir o couro, mas não requer um processo de fabricação
poluente porque é realizado exclusivamente com elementos naturais e
não comporta descartes de produção”, sublinha Anna. Além disso,
obviamente, não requer a morte de animais e, tratando-se de fibra
vegetal, seus custos são inferiores.
A inovação proposta pela Grindi srl foi aplaudida não só em território
italiano, mas |
Divulgação

O material pode produzir tecidos
substitutos do couro |
também em diversos eventos
internacionais. A fibra Suberis recebeu a medalha de ouro no International
Convention Hall de Genebra, foi premiada na Mipel, feira de moda e
acessórios em Milão, e publicada pela WIPO (World Intellectual Property
Organization), uma organização internacional dedicada à promoção dos
trabalhos de propriedade intelectual.
Para entender melhor as características do produto, basta dizer que Suberis
une as propriedades de inúmeras espécies de tecido. É leve como a seda e
macio como o veludo, além de lavável a 30°C, compatível com o ferro de
passar, resistente ao fogo e imune a manchas. “Outras qualidades do produto
são aquelas intrínsecas à cortiça, ou seja, é termoisolante, antiacaro, não
se mancha, não se risca e é totalmente impermeável”, acrescenta a fundadora
da Grindi srl.
O produto, disponível sob a forma de tecido e em fio, foi apresentado em
locais tradicionais como o teatro Scala, em Milão, e no Palazzo Pitti, um
dos símbolos da cidade de Firenze.
A criação da Suberis é um exemplo significativo de como uma empresa de
pequeno porte pode competir com a agressiva concorrência asiática no setor
têxtil. Apostando na inovação e em seu enorme potencial intelectual, a
Grindi srl provocou, principalmente no setor de vestuário, uma revolução
comparável aquela provocada com o lançamento da Lycra ou do Normex, tecido
resistente às chamas.
Inicialmente a empresa contava apenas com sete funcionários, mas hoje é
capaz de produzir mais de 200 mil metros de tecido e promete dinamizar a
economia de Tempio Pausania, na Sardenha. Atualmente, a ilha italiana é
responsável por 80% da produção italiana de cortiça em um territótio de mais
de 88 mil hectares.
Outra novidade antecipada por Anna Grindi é a parceria de sua empresa com a
Universidade de Cagliari. “Com o departamento de engenharia mecânica dessa
instituição acadêmica estamos desenvolvendo um carpete a base de cortiça; um
produto macio e ao mesmo tempo muito resistente”, revela.
Aliando competência técnica e muita criatividade, a Grindi srl conquistou o
status de fornecedor de tradicionais empresas internacionais dos mais
diverso setores.
Além de ter fornecido o tecido Suberis para a decoração de um luxuoso hotel
parisiense, a Grindi srl também trabalha com estabelecimentos
automobilítiscos, empresas de móveis, produtores de calçados, luvas e
acessórios e, recentemente, assinou acordos com produtores de navios,
lanchas, yatchs e helicópteros. “O nosso é um produto versátil e a sua
consistência adapta-se às exigências de qualquer setor”, comenta.
O tecido também conquistou o mundo da moda. Além de ter inaugurado uma
boutique na Costa Esmeralda, uma das praias mais badaladas da Sardenha, no
próximo mês de julho Anna Grindi também apresentará as suas criações em
Portugal.
Por enquanto a empresa possui um único distribuidor internacional ainda sem
contatos na América Latina, localidade na qual Anna Grindi não exclui
futuros negócios.
Anelise Sanchez
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