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O G Í S T I C A |
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Cuca Jorge |
FERROVIAS E NAVEGAÇÃO
DE CABOTAGEM OFERECEM
ALTERNATIVAS AO CAÓTICO
SISTEMA DE TRANSPORTE
RODOVIÁRIO NACIONAL
Domingos Zaparolli |
O
diagnóstico é conhecido. Na segunda metade do século XX, o Brasil priorizou
o transporte rodoviário, deixando em segundo plano as alternativas
ferroviária e aquaviária. Mas a própria implementação da infra-estrutura
rodoviária ficou aquém do necessário. A densidade rodoviária é baixa para as
dimensões do país e, pior, a qualidade fica muito a desejar. Em 2007, a
Pesquisa Rodoviária da Confederação Nacional dos Transportes (CNT)
demonstrou que aproximadamente 74% da malha rodoviária do país está em
condições precárias e a frota de caminhões também é antiga, com média de
atividade de dezoito anos, comprometendo ainda mais a eficiência do sistema.
A boa notícia para quem trafega com carga pelo país é o fato de, embora
timidamente, o transporte ferroviário e o de cabotagem, aquele feito pela
costa do país, serem objetos de investimentos, principalmente privados. Com
isso, eles começam a se apresentar como alternativas logísticas para as
empresas.
A virada positiva na história do transporte ferroviário teve início em 1996
com a decisão do governo federal de conceder à iniciativa privada, por meio
de leilões, parte da rede nacional. Segundo a Associação Nacional dos
Transportadores Ferroviários (ANTF), entre 1997 e 2007, as concessionárias
privadas investiram R$ 14,4 bilhões em melhorias da malha ferroviária; a
União disponibilizou outros R$ 789 milhões. Para 2008, a previsão de
recursos privados é de R$ 2,5 bilhões. Estes investimentos permitiram uma
significativa redução no número de acidentes. Em 2007, o registro foi de
14,4 acidentes por milhão de quilômetros rodados. É um índice superior às
referências internacionais, que variam entre 8 e 13 acidentes. Mas é 80,9%
menor que o total de 75,5 acidentes por milhão de quilômetros rodados
registrados em 1997.
A ANTF avalia que este número de acidentes, assim como a fluidez das
ferrovias, poderia ser melhorado com a eliminação de gargalos físicos
existentes na rede. Entre os problemas, a invasão da faixa de domínio das
ferrovias em áreas urbanas, principalmente por favelas; áreas de conflito
entre tráfego ferroviário, rodoviário e de pedestres, e o acesso aos portos,
muitas vezes feito de forma inadequada. Para resolver esses gargalos, seriam
necessários investimentos públicos de aproximadamente R$ 4,2 bilhões. A
associação também indica a necessidade de investimentos de R$ 9,4 bilhões na
expansão da malha ferroviária, com a construção de 2.763 km de ferrovia.
Atualmente, o Brasil conta com 28.556 km de ferrovias, o que dá uma
densidade ferroviária de 3,4% da área territorial. Nos Estados Unidos, a
densidade é de 21,3%, índice praticamente idêntico ao da Índia. Já na
Alemanha, o índice é de 130,3%. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)
prevê investimentos públicos e privados de R$ 7,8 bilhões no sistema
ferroviário até 2010. Se for efetivamente concretizado, o investimento
permitirá uma ampliação da oferta de transporte ferroviário de carga de 57%.
A história de uma década de privatização demonstra que, quando há
investimento, a opção ferrovia atrai clientes. Em 2007, por exemplo, as
concessionárias ferroviárias transportaram 445,2 milhões de toneladas úteis.
A previsão para 2008 é de um crescimento de 11%, chegando a um total de
494,2 milhões de toneladas, quase o dobro do total transportado em 1997,
primeiro ano da operação privada, quando foram transportados 253,3 milhões
de toneladas úteis. Boa parte deste transporte ainda é concentrada em
produtos siderúrgicos, minérios e grãos. Mas quando se olha para o movimento
de contêineres, modo mais usual entre as outras indústrias, a química por
exemplo, o crescimento da opção ferroviária fica ainda mais evidente. Em
1997 foram transportados apenas 3.459 contêineres em ferrovias. Já em 2007 o
total alcançou 220.050. Para 2008, a previsão é de um crescimento de 7%,
alcançando 235.453 contêineres. Mas a solução ferroviária ainda é muito
concentrada no tráfego de ligação entre empresas e portos.
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Para Daniel Salcedo, gerente de contas comerciais da operadora ferroviária
MRS Logística, a opção pelo trem tem ganhado adeptos na indústria química
por apresentar uma série de vantagens. A primeira, ele diz, é a questão da
segurança. “O transporte rodoviário de produtos químicos, principalmente
cargas perigosas, é uma preocupação constante de acidentes com danos
ambientais e humanos. Já o risco de roubos e avarias no transporte
ferroviário é praticamente nulo”, diz o executivo.
Outra vantagem é a redução de custo. “Em média, a solução ferroviária
apresenta uma |
Cuca Jorge

Salcedo: trens
levam produtos químicos com mais segurança |
redução de 5% a 20% no custo do transporte”, diz Salcedo,
fazendo questão de frisar, é claro, que cada caso é um caso. Portanto, o
custo depende muito da distância percorrida, da localização da empresa em
relação à ferrovia e da quantidade de produto transportado. Numa estratégia
de logística que envolve o transporte de vários contêineres, por exemplo, é
possível eliminar ou reduzir o custo de armazenagem portuária. Em caminhões,
a carga chega fracionada, um contêiner por veículo, e é preciso reunir todos
os contêineres em um armazém. Com o trem, toda a carga pode ser reunida em
um único comboio ferroviário e embarcada diretamente no navio.
A MRS foi criada em 1996 e opera a concessão da malha regional do sudeste,
correspondente a 1.643 km de ferrovias, que fazem a conexão entre São Paulo,
Minas e Rio de Janeiro e os portos de Santos, Rio e Itaguaí, também no
estado fluminense. Salcedo relata que a estratégia da empresa, cujo
portfólio inicial era muito concentrado em aço, minério e grãos, tem sido
diversificar seus segmentos de mercado. Atualmente, a chamada “carga geral”,
tudo o que não se enquadra nas três categorias anteriores, representa 25% do
movimento da operadora e a tendência é de crescimento. Na indústria química
e petroquímica, a empresa atende Basf, Monsanto, Nitro Química, Elekeiroz e
Solvay. Em 2007, a MRS transportou 121 mil contêineres. “Nossa meta é
aumentar significativamente nossa presença no mercado de carga geral”, diz
Salcedo.
Cabotagem – A viabilidade do transporte ferroviário como alternativa
logística para o transporte de cargas destinadas ao mercado interno está
diretamente relacionada com sua capacidade de conectar-se com outros
sistemas de transporte. Nesse sentido, movimento fundamental é a
revitalização da cabotagem como alternativa de transporte. Investimentos já
estão sendo anunciados. A Log-In Logística, antiga Docenave, foi
desvinculada da Vale em 2007 e se tornou especialista na movimentação
integrada de contêineres por via marítima, ferroviária e rodoviária. A
empresa conta com sete navios para transporte de cabotagem, incluindo uma
rota até Manaus, e navegação costeira até Buenos Aires, na Argentina, e
Montevidéu, no Uruguai.
Em janeiro deste ano, a empresa fechou um contrato com o estaleiro Eisa, do
Rio de Janeiro, para a construção de cinco navios porta-contêineres, cada um
com capacidade nominal para o transporte de 2.700 TEUs (contêineres de 20
pés). O investimento, o maior nos últimos vinte anos na cabotagem
brasileira, é estimado em R$ 700 milhões e irá triplicar a capacidade de
movimentação de contêineres da Log-In. O primeiro navio será entregue em
2010 e o último em 2013.
Já a CMA CGM, a terceira maior armadora de contêineres do mundo, com uma
frota de 390 navios, e segunda em atividade no Brasil com o transporte de
300 mil contêineres em 2007 em rotas internacionais, estuda entrar no
mercado brasileiro de cabotagem. Segundo o diretor-geral da empresa no país,
Nelson Luiz Carlini, a operação deve começar ainda em 2008, com dois navios.
“Atualmente, são transportados por cabotagem 600 mil contêineres no Brasil.
Este número facilmente chegará a 2 milhões nos próximos anos”, diz o
executivo.
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