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bio &
farma Michael
Nothenberg é Doutor em Química,
Mestre em Farmácia,
professor universitário
e jornalista
msnothenberg@gmail.com
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Niacina em
novas associações anticolesterol: um perde, outro ganha
Os resultados desanimadores
dos ensaios clínicos realizados com a associação sinvastatina +
ezetimiba (Vytorin), tardiamente revelados em janeiro passado (Bio&Farma,
QD-474), talvez tenham sido, na ocasião, melhor digeridos pela Merck
do que pela sócia Schering Plough, detentoras dos direitos sobre as
moléculas, respectivamente. Isso porque a Merck tinha então uma carta
na manga, outra associação anticolesterolêmica denominada Cordaptive,
com potencial para entrar, segundo analistas, no seleto clube das
especialidades que faturam US$ 1 bilhão por ano.
O otimismo acabou no dia 28 de abril, quando a FDA rejeitou o pedido
de registro do Cordaptive, com base na ausência de dados clínicos
conclusivos sobre a eficácia da nova combinação.
Em contraste, a Abbott festeja desde fevereiro passado a aprovação da
associação Simtor, combinando sua niacina Niaspan, com a agora
genérica sinvastatina. Niaspan compreende formulação de liberação
retardada, administrada em somente uma dose diária. O produto foi
comercializado pela Kos Pharmaceuticals entre 1997 e |
2006, ano em que esta indústria
de médio porte foi adquirida pela Abbott, por US$ 3,7 bilhões. A Kos não só
foi pioneira no desenvolvimento de niacina de liberação retardada, como
inovou ao obter a aprovação da primeira associação entre niacina e uma
estatina, no caso lovastatina, em 2001 (Advicor). Ao incorporar a Kos, a
Abbott beneficiou-se não apenas do know-how relativo ao Advicor como também
de P&D relativo à associação niacina+sinvastatina, já então em estágio
avançado.
Indesejável rubor - Inicialmente denominada MK-0524, o Cordaptive associa a
familiar niacina, também conhecida por ácido nicotínico, vitamina B3 e
vitamina PP, antilipêmico empregado desde 1955, com laropiprant, molécula
originalmente desenvolvida, testada e abandonada pela Merck no papel de
antiasmático no início da década, para atuar como bloqueador seletivo de
receptores de prostaglandinas do tipo D2. A lógica é simples: niacina, o
único agente terapêutico capaz de, ao mesmo tempo, rebaixar as taxas
plasmáticas de LDL e triglicérides e elevar significativamente as de HDL, o
colesterol “bom”, só funciona em doses relativamente elevadas, de 1 a 2 g
diárias. Nestas quantidades também provoca efeitos colaterais, incluindo
distúrbios gastrintestinais, cefaléia e, principalmente, intenso rubor
facial acompanhado de coceiras.
Convencidos de que o flushing, como é habitualmente chamado esse quadro
dermatológico, decorre de vasodilatação causada por estímulo de receptores
de prostaglandinas localizados na parede de capilares próximos à pele, os
pesquisadores da subsidiária canadense da Merck selecionaram o laropiprant
(Figura 1) como bloqueador destes receptores, e, portanto, capaz de atenuar
a manifestação.

Decepção - A
racionalidade da nova combinação não foi, contudo, suficiente para produzir
bons resultados. Dados extraídos de ensaios clínicos apresentados em
encontro do American College of Cardiology, realizado em Chicago em 31 de
março passado indicaram que enquanto 78% dos pacientes que tomaram niacina
não-combinada apresentaram sintomas de flushing, o número de pacientes
vítimas do efeito caiu para 53% com o emprego do Cordaptive. Aparentemente
positivos, tais números perdem importância se for considerada a quantidade
de pacientes levados a abandonar a terapia por causa do flushing: 12% para
os tratados com niacina isolada contra 7% dos medicados com a associação. O
quadro é ainda menos animador se levado em conta que o ensaio clínico
Seacoast, realizado em 640 indivíduos com o concorrente Simtor, da Abbott,
resultou no abandono da terapia por apenas 6% dos participantes, todos
dislipidêmicos. Neste caso, a associação proporcionou 12% de redução nas
taxas de LDL ao lado de 21% de acréscimo na concentração plasmática de HDL,
enquanto a estatina propiciou alterações mais discretas, de -7% e +8%,
respectivamente.
Neste ensaio, no qual os pacientes receberam combinações de 1.000 mg de
niacina associadas a 20 mg de sinvastatina ou apenas 20 mg de sinvastatina,
os resultados foram significativamente melhores nos que foram tratados com a
associação em lugar da sinvastatina isolada.
Prostaglandinas – Para a rejeição do Cordaptive pode ter pesado o
risco de aprovar o emprego de um antagonista de prostaglandinas pouco
estudado, incapaz de demonstrar ausência de efeitos colaterais de longo
prazo, tais como os efeitos cardiovasculares detectados no uso prolongado de
outros antiprostaglandínicos, a exemplo da rofecoxiba (Vioxx), retirada do
mercado pela própria Merck em 2004. Não custa lembrar que o flushing deixa
de se manifestar naturalmente em alguns pacientes após algumas semanas de
terapia. Não menos relevante à rejeição do laropiprant é a precaução adotada
por muitos médicos atualmente que recomendam a pacientes aos quais receitam
niacina que tomem um comprimido infantil de ácido acetilsalicílico, inibidor
de síntese de prostaglandina reconhecido como relativamente inofensivo,
cerca de 30 minutos antes da dose diária do antilipêmico.
Voltando à Abbott, face ao ocorrido com o Cordaptive, a empresa
provavelmente desistirá, por ora, do projeto de desenvolver associação
similar à da Merck. Em contrapartida, deverá expandir seus tentáculos no
mercado dos agentes antilipidêmicos, no qual, até a aquisição da Kos, atuava
discretamente com seu fenofibrato (Tricor), adquirido da Solvay. Para tanto,
acelera o desenvolvimento, hoje em estágio clínico III, da associação ABT-335,
combinando fenofibrato com rosuvastatina (Crestor), a estatina da britânica
AstraZeneca.
Terapia
genética na batalha do colesterol
Há duas estratégias básicas em terapia genética. Uma consiste em incorporar
aos cromossomos do paciente o DNA responsável pela codificação de alguma
proteína ausente ou defeituosa. A outra tem por objetivo modificar a
produção de determinada proteína, geralmente por interferência com RNA
mensageiro, aquele que transporta o código genético para os ribossomos,
local da síntese protéica. Ambas as estratégias têm potencial para modificar
taxas plasmáticas de lipoproteínas e colesterol e, em decorrência, reduzir o
risco de estreitamentos e oclusões vasculares.
Thomas Quertermous e equipe de pesquisadores da Escola de Medicina da
Universidade Stanford (Palo Alto, CA) estão entre os que se dedicaram à
segunda opção estratégica em virtude do isolamento de um gene responsável
pela regulação da síntese de lipoproteínas de alta densidade, o famigerado
HDL, cuja concentração, quando elevada, reduz o risco de doenças
cardiovasculares.
O gene, identificado em 2000, codifica uma lipase endotelial, produzida em
diversos tecidos. Em trabalho publicado em 2003 no Journal of Clinical
Investigation, Quertermous e equipe publicaram trabalho estabelecendo
relação inversa entre a quantidade de enzima produzida, e a quantidade de
HDL no plasma. Trabalhando com dois grupos de camundongos transgênicos – um
produzindo maiores quantidades de enzima em virtude da incorporação do gene
da lipase endotelial humana ao seu genoma; o segundo com o mesmo gene
desligado –, os pesquisadores observaram que níveis de HDL caíram 19% no
primeiro grupo e subiram 57% no segundo grupo. Os próximos passos do projeto
incluem a tentativa de correlacionar a ausência da enzima com uma redução na
prevalência de doenças cardiovasculares, primeiro em camundongos e, bem mais
à frente, em seres humanos.
Mina de ouro – Outro gene associado ao controle da concentração
plasmática de HDL-colesterol é o VNN1 (“molécula não-inflamatória vanina-1”),
responsável pela expressão da enzima panteteinase. Esta, por sua vez,
participa da síntese da cisteamina, aminotiol produzido na degradação do
aminoácido cisteína, dotado de propriedades antioxidantes por prevenir a
peroxidação de lípidios.
A pesquisa indica que elevações em concentrações intracelulares de mRNA
correspondente ao VNN1 correlacionam-se a aumentos nas concentrações de HDL
no plasma, sendo, contudo, também associadas a variações nos níveis de
triglicerídios e aos diâmetros de apolipoproteínas A1, A2 e de lipoproteínas
de baixa densidade (LDL).
A descoberta do gene VNN1, relatada em 2007 por pesquisadores da Southwest
Foundation for Biomedical Research (San Antonio, TX), é parte de amplo
projeto de pesquisa – “mina de ouro em descobertas genéticas”, segundo os
autores – objetivando a identificação de genes denominados “cis”, cuja
expressão é autocontrolada pela ocorrência de variações em seqüências de
nucleotídios, geralmente localizados em seus segmentos “promotores”. A
técnica deverá permitir varredura facilitada dos cerca de 25 mil genes
encontrados no genoma humano, estabelecendo quais se correlacionam com
doenças ainda sem curas satisfatórias. Os pesquisadores informaram ter
identificado 60 genes que afetam concentrações de HDL no sangue (cinco dos
quais a jusante do gene VNN1) e aproximadamente uma centena de genes
associados à manifestação de diabetes. Independentemente do potencial de
terapia genética das descobertas, é certo que a compreensão do papel das
proteínas expressas por esses genes em processos patológicos deverá produzir
novos alvos também para fármacos convencionais.
AntimicroRNA – Uma terceira estratégia em terapia genética também
está, em parte, voltada para o controle de lipoproteínas plasmáticas e
consiste na inibição funcional do microRNA. Descoberto em 1993, o miRNA,
como é conhecido, consiste de cadeias simples, com 21 a 23 nucleotídios, que
têm como função regular negativamente a expressão do RNA mensageiro (Figura
2). Desta forma limita a produção protéica de células. Estima-se a
existência de 50 mil miRNAs distintos no interior de uma célula de mamífero.

A injeção de cadeias antimiRNA
em células tem, portanto, função diversa à da mais conhecida terapia por
interferência de RNA, RNAi. Ao contrário desta última, projetada para
silenciar genes ao destruir seu respectivo mRNA, o antimiRNA, ao inativar
determinado miRNA, permite o estímulo à determinada expressão genética.
Com este objetivo, a Santaris Pharma A/S, Horsholm, Dinamarca, anunciou o
desenvolvimento de uma cadeia de antimiRNA especificamente projetada para
antagonizar miR-122, microRNA cuja responsabilidade inclui o controle da
expressão de nada menos que 450 genes distintos, entre os quais cerca de uma
centena envolvida no metabolismo de colesterol e lipoproteínas. A injeção do
agente em camundongos reduziu as taxas de colesterol plasmático em 35%. E,
ao contrário do que ocorre com RNAs interferentes, nos quais a travessia de
membranas e o acesso ao citoplasma celular requerem emprego de
transportadores, como lipossomos, a administração do antimiR pode ser feita
diretamente, conseqüência de sua maior estabilidade química.
A inibição do miR-122, encontrado exclusivamente em células hepáticas,
também tem aplicações antivirais. Pesquisadores relataram, embora ainda sem
explicar, a incapacidade do vírus da hepatite C de replicar em hepatócitos
que não contenham o microRNA ativo.
Esperanças na heparina oral
Os recentes episódios de alergia ou até mesmo de morte de pacientes
submetidos a tratamentos com heparina intravenosa (Bio&Farma, QD-471) poderá
determinar o declínio do emprego da heparina injetável e dar alento às
pesquisas de formas de administração oral do tradicional anticoagulante. Na
verdade, reações à heparina são tão antigas quanto a sua descoberta
acidental pelo jovem ex-mineiro e segundanista de medicina na Universidade
Johns Hopkins (Baltimore, MD), Jay McLean, em 1916. O anticoagulante, hoje
extraído de pulmão bovino ou intestino porcino, só chegou às salas
cirúrgicas no início dos anos 30 por causa da inexistência, até então, de
técnicas de purificação que tornassem possível a injeção de preparados
extraídos de animais.
Descartada a priori, por causa da impossibilidade de absorção
gastrintestinal de molécula de dimensões tão elevadas e, ainda por cima,
repleta de cargas iônicas, sem falar da probabilidade de hidrólise em
virtude da acidez gástrica, a administração oral da heparina natural
(não-fracionada, UFH) poderá se tornar realidade.
A Emisphere Technologies, Inc. (Cedar Knolls, NJ) parece otimista com
relação aos resultados de ensaios clínicos realizados com um conjugado de
heparina não-fracionada com moléculas transportadoras de baixo peso
molecular, tipicamente 200 a 400 Da, a exemplo do caprilato de N-[8-(2-hidroxibenzoil)
amino]sódico, conhecido pelo acrônimo SNAC, em inglês (Figura 3). De acordo
com a empresa, que também investe na administração oral de insulina e hGH (Bio&Farma,
QD-472), o transportador forma ligações fracas, não-covalentes, com a
heparina, formando um complexo suficientemente lipofílico para permitir a
travessia da membrana intestinal. Por causa da fraqueza das ligações, o
complexo se desfaz pela simples diluição do biofármaco, ao alcançar a
circulação. Ensaios preliminares indicam que a concentração de heparina
administrada por via oral atinge doses terapêuticas no plasma, sendo capaz
de reduzir a incidência de trombose venosa em modelos animais.

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