cosméticos   CONTROLE MICROBIOLÓGICO

Boas práticas de produção e
biocidas protegem o consumidor


Texto de Rose de Moraes e fotos de Cuca Jorge

Não faltam opções para a indústria cosmética brasileira preservar produtos finais destinados à higiene e à beleza de todas as camadas da população. Produzidos localmente ou no exterior, a oferta é vasta e traz desde desenvolvimentos mais recentes de última geração até sistemas conservantes tradicionais que comprovam eficácia durante décadas. Mas, além de um sistema conservante adequado a cada tipo de formulação, as condições de processo, as instalações, os equipamentos e até a higiene pessoal dos profissionais que atuam nas áreas produtivas são fundamentais para garantir a qualidade e a preservação dos cosméticos durante todo o período de sua vida útil.

A adoção de boas práticas de fabricação e de tecnologias mais modernas em equipamentos, conservantes e sanitizantes é conduta obrigatória e o mínimo que se pode fazer para afastar da contaminação microbiana o ambiente, as células de trabalho e toda a sorte de cosméticos produzidos pelas indústrias.

Consultores experientes não cansam de recomendar que todos os materiais construtivos dos equipamentos utilizados para a produção e que entram em contato direto com os ingredientes e os produtos acabados têm de ser sanitizáveis e isentos de porosidades. Usualmente, as indústrias cosméticas já utilizam equipamentos confeccionados de aço inoxidável (AINSI 316L), mas todas as soldas também devem ser do tipo orbital, não deixando marcas, saliências ou reentrâncias, que possam reter os materiais ao longo das tubulações e dos próprios equipamentos.

Manuais ou automáticas, todas as operações de limpeza de maquinários e equipamentos devem ser validadas, recorrendo-se ao uso de sistemas CIP (clean in place) ou SIP (steam in place). Devem ser adotados procedimentos rígidos, detalhados e documentados para garantir a repetibilidade.

A utilização de sanitizantes apropriados e o estudo de sua efetividade também devem ser freqüentes. É recomendável adotar ciclos alternados de sanitizantes para evitar a “adaptação” dos microrganismos. Nunca é demais lembrar que todos os cantos de paredes e rodapés devem ter forma arredondada para impedir a aderência de sujidades. As bombas e conexões utilizadas para transferência ou recirculação de processos também devem ser adquiridas com indicações de sanitariedade e rastreabilidade dos materiais construtivos.

O controle de pragas deve ser constante e eficiente. O controle microbiológico do ar também deve estar presente na fábrica. Em muitos casos, a utilização de ar filtrado e sob pressão positiva terá grande valia.

Tampouco as matérias-primas devem estar isentas de controle, pois todas, sem exceção, devem ser acompanhadas de estudos microbiológicos. A prática de submeter algumas matérias-primas à irradiação exige muito critério, pois pode gerar substâncias desconhecidas e com potencial tóxico e/ou alergênico.

As embalagens também não escapam de controle. Devem estar limpas e isentas de poeiras, e comprovar compatibilidade com as matérias-primas e ingredientes, visando evitar possíveis interações químicas e interferências nos ativos.

Como não poderia deixar de ser, os profissionais devem estar capacitados para adotar condutas de boas práticas de fabricação, utilizando uniformes limpos, sem bolsos, proteções para os cabelos, máscaras e luvas, exigências mínimas para a sua presença nas áreas de contato com os produtos. A lavagem das mãos deve ser adequada e reforçada com produtos especiais, e as condições de saúde do grupo operacional devem ser periodicamente avaliadas.

Para realizar avaliações microbiológicas e testes de desafio (Challenge Tests), as indústrias devem dispor de laboratório especializado, mão-de-obra capacitada, meios de cultura e cepas. Caso não atendam a esses requerimentos, devem recorrer a terceirizações junto a laboratórios licenciados e validados pela rede brasileira de laboratórios (Reblas).

Água é a grande vilã – Todas essas ações deveriam fazer da contaminação microbiana uma ocorrência remota e distante das bancadas de produção, a despeito de não comprometer a segurança, a qualidade e a eficácia dos ativos e demais ingredientes.

A situação ideal realmente seria essa, mas não é o que ocorre com a totalidade das análises microbiológicas realizadas para registro e liberação de cosméticos ao mercado de consumo, a julgar pela experiência de laboratórios cre­denciados e que desfrutam de alta credibilidade no setor. A bem da verdade, 80% dos produtos submetidos a testes microbianos apresentam resultados compatíveis com os padrões de conformidade e enquadram-se nos limites de qualidade sanitária exigidos pelas resoluções em vigor. Entretanto, uma significativa parcela de amostras e lotes, estimada em 20%, é ainda reprovada por apresentar contaminação por bactérias que deveriam estar banidas dos processos e das instalações produtivas como é o caso de Pseudomonas aeruginosa, coliformes fecais e totais e Stafilococcus aureus.

A observação parte dos resultados encontrados nas análises feitas pelo Labservice, o laboratório de análises microbiológicas da Faculdade Oswaldo Cruz, um dos mais conceituados do país, com doze anos de experiência na realização de análises microbiológicas.

“Embora seja submetida à purificação, a água de processo é a maior fonte de contaminação de cosméticos, sendo a bactéria Pseudomonas aeruginosa a mais freqüente, e cuja ocorrência e proliferação está ligada à formação de biofilmes nos dutos, tubulações e nos reservatórios feitos de materiais porosos como o polietileno, que não contem com um efetivo sistema de circulação”, alerta a especialista em microbiologia Cristina M.T.S.Miguel, gerente técnica da área farmacêutica do LabService.

“Água parada, como todos sabem, é sinônimo de contaminação e nem sempre basta limpar as tubulações com ácido peracético ou


Cristina: maior fonte de contaminação está na água

remover o limo, visto que, em muitos casos, será preciso substituir completamente as tubulações. No caso dos reservatórios, sequer os tanques confeccionados de aço inoxidável estão a salvo de microrganismos patogênicos e podem assegurar o necessário padrão sanitizante, caso não sejam feitas limpezas periódicas e conte-se com um adequado sistema de circulação da água.

Embora ocorra em menor número, a contaminação das amostras e lotes é preocupante, mas pode ser coibida e banida pelo cumprimento de todas as medidas de boas práticas de fabricação, tecnologias mais modernas e instalações apropriadas, incluindo sistemas conservantes adequados com comprovada ação bacteriostática, e prontos para atuar sobre a mais ampla faixa possível de microrganismos.

Em caso de reprovação de amostras e/ou lotes de produtos, a conduta dos técnicos do LabService é investigar e rastrear as causas, checando possíveis focos de contaminação existentes nas tubulações, nos reservatórios de água, em embalagens como bombonas nas quais costumam ser acondicionados os ingredientes, bem como analisar as próprias matérias-primas e equipamentos de segurança.

Além de todas essas verificações, é de praxe recomendar a instalação de sistema de emissão de luz ultravioleta e filtros de retenção microbiológica para reduzir as cargas microbianas. Após a deionização, por troca iônica, a água fica mais suscetível às contaminações, exigindo essas medidas profiláticas. “Um xampu contaminado com Pseudomonas aeruginosa em contato com os olhos pode provocar até uma ulceração de córnea”, exemplificou Roberta Fancicani, gerente de qualidade do LabService.

Habilitado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o LabService atua de acordo com os padrões de controle microbiológico estabelecidos pela resolução 481, de 23 de setembro de 1999, e adota metodologia americana de análise proposta desde 2005 pela Cosmetic Toiletry and Fragrance Association.

Para assegurar a qualidade sanitária de cosméticos para o uso do público adulto, a resolução da Anvisa estabelece a obediência ao limite máximo de 5 mil u.f.c.(unidade formadora de colônia) por ml ou grama de produto analisado. Quando se tratar de cosmético para uso infantil ou mesmo para uso adulto prevendo-se aplicações nas mucosas, como é o caso de batons, e nas áreas de contorno dos olhos, as exigências são mais rígidas, permitindo-se, no máximo, 500 u.f.c. por ml ou grama de produto. A análise de fitoterápicos também atende aos padrões mais rígidos, ao estabelecer o limite máximo de 100 u.f.c. por ml ou grama de produto, de acordo com as diretrizes da British Herbal Pharmacopea, adotadas pelo LabService. Nesses casos, as técnicas do laboratório costumam recomendar que os ingredientes e ativos vegetais utilizados nas formulações sejam submetidos à esterilização por radiações gama, visando evitar contaminações e conseqüentes reprovações.

“Na realidade, todos os elos envolvidos na produção de cosméticos deveriam se adequar a limites mais rigorosos do que aqueles estabelecidos pela própria Anvisa, com vistas a oferecer maior margem de segurança aos produtos”, considerou Roberta.

De acordo com as normas vigentes no país, todos os cosméticos devem ser submetidos a testes de limite microbiano nos quais são feitas a contagem de bactérias e fungos e a pesquisa de microrganismos específicos como E. coli, S. aureus e P. aeruginosa, incluindo avaliações de atividade bactericida (halo inibitório), caso o objetivo seja verificar a ação desodorante de um sabonete antisséptico, por exemplo, quando se terá a oportunidade de verificar a efetividade bactericida do ativo presente no produto.

Na opinião de Roberta, porém, outros tipos de teste assumem grande importância para se assegurar maior controle sobre a qualidade sanitária dos cosméticos. Nesses casos, destacam-se as análises microbiológicas da água com suas respectivas contagens de bactérias e fungos, pesquisas de microrganismos específicos e os testes de Challenge (desafio) que prevêem a contaminação proposital

dos produtos com a inoculação dos microrganismos S. aureus, E. coli, P. aeruginosa, C. albicans e A. niger.

“Os testes de Challenge são muito utilizados no caso de novos desenvolvimentos implementados pelas indústrias, mas deveriam ser obrigatórios para efeito de registro de cosméticos porque podem antecipar a eficácia dos sistemas conservantes, oferecendo ao formulador a oportunidade de realizar a escolha do preservante mais adequado à sua fórmula e a cada tipo de produto”, considerou Roberta.


Roberta: registro deveria exigir testes de desafio

Não é demais lembrar, segundo ela, que muitos conservantes atuam apenas sobre as bactérias como P. aeruginosa, mas não produzem efeito sobre bolores como A. niger, deixando, portanto, completamente livre a sua proliferação.

Nos estudos de Challenge – que verificam a eficácia dos sistemas conservantes – três tipos de microorganismo são inoculados sobre as amostras: a bactéria E. coli, o fungo C. albicans e o bolor A. niger. O comportamento de cada um deles será observado no decorrer de 28 dias, a cada intervalo de 24 horas, 48 horas, 7 dias, 14 dias, 21 dias e 28 dias, quando deverá ocorrer o decaimento dos microrganismos, comprovando-se, dessa forma, a eficiência do sistema conservante.

 

 

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