|
|
|
P I G M E N T O S |
|
 |
Insumos
caros
e escassos
ameaçam a
produção local
Texto de Domingos
Zaparolli
e fotos de Cuca Jorge |
Quem
conversa com os players do mercado brasileiro de pigmentos coloridos e de
efeitos chega a um cenário pouco animador, apesar do crescimento das vendas
decorrente do aquecimento da construção civil e do consumo de tintas no
país. O que eles dizem, preocupa. Os custos de produção dos pigmentos
subiram muito e vão continuar a subir. Repassar essa alta aos usuários de
pigmentos é inevitável. O déficit da balança comercial brasileira neste
segmento de negócios é grande e vai piorar. As poucas indústrias que ainda
mantêm operação no país perdem competitividade em decorrência da valorização
do real.
|
O aumento
dos custos das matérias-primas dos pigmentos coloridos é gerado por
dois fatores. O primeiro é a alta dos preços internacionais do
petróleo e dos metais, base de vários desses insumos. O segundo fator
é a escassez de matéria-prima no mercado. “Ao comprar insumos, não
perguntamos mais os preços. Perguntamos se o fornecedor pode nos
atender. E quando conseguimos concretizar a compra, recebemos 70% da
encomenda”, diz um player do mercado. Os fornecedores de pigmentos
relatam elevação de custos das matérias-primas superiores a 30% nos
últimos meses. Segundo Eide Paulo de Oliveira, vice-coordenador da
comissão de corantes e pigmentos da Abiquim e diretor da divisão de
pigmentos e aditivos da Clariant para a América Latina, alguns
insumos, porém, chegaram a aumentar até 70% em 2008. Entre os campeões
da carestia estão o DCB, o betanaphtol, os ácidos 2B e CLT e os
naftóis. |

Oliveira: há casos de aumentos de matéria-prima de até 70% |
A origem da
escassez de matéria-prima não está no aumento da demanda, mas na redução da
oferta. O problema é que muitos dos insumos dos pigmentos, dependendo do
modo como eles são processados, tornam-se elementos altamente poluentes. Nos
últimos anos, a cadeia produtiva dos pigmentos concentrou-se
majoritariamente na China, onde as exigências públicas em relação à gestão
ambiental são baixas, quase nulas e as condições de trabalho, muitas vezes,
são precárias. Com a ocorrência das Olimpíadas de Pequim, o governo chinês
sentiu a necessidade de reduzir a poluição atmosférica e de seus cursos
d’água para não evidenciar ao mundo seu desleixo ambiental e trabalhista.
Para isso, determinou a interrupção das atividades em fábricas com processos
produtivos ambientalmente inadequados até fins de setembro, após o
encerramento dos Jogos Paraolímpicos. A cadeia produtiva dos pigmentos foi
fortemente afetada pela atitude.
Há indícios, porém, de que esta decisão pode não ser apenas pontual.
Fornecedores de insumos e também de pigmentos chineses informam aos seus
clientes que muitas das fábricas fechadas poderão não voltar à ativa após os
jogos. O governo da China, segundo esta versão, aproveitaria para enquadrar
os fabricantes paralisados, exigindo que sejam tomadas medidas de controle
ambiental antes da volta às atividades e algumas fábricas poderiam até mesmo
receber a determinação de encerrar suas operações em definitivo. É uma
atitude benéfica que, se confirmada, reduzirá globalmente o impacto
ambiental da cadeia produtiva dos pigmentos e também inibirá a concorrência
desleal. Hoje, empresas chinesas e ocidentais ambientalmente responsáveis
competem em desvantagem em relação às poluidoras. No curto prazo, porém, a
adequação ambiental significará que a escassez de matéria-prima continuará
pressionando os custos internacionais.
|
A parada na
produção chinesa também revelou uma fragilidade da cadeia produtiva da
indústria de pigmentos: a extrema dependência de fornecedores
concentrados em um único país. Para piorar a situação, um país pouco
transparente em relação às suas decisões. Como diz Mohamed Nabil
Mouallem, da Chemipol, os fornecedores chineses ganharam o mundo com
muita produção e preços baixos. Foi a fase da deflação chinesa. Mas
agora descobriram que podem obter uma maior rentabilidade, controlando a
oferta de sua produção. Entramos na era da inflação chinesa. Em sua
opinião, a indústria internacional de pigmentos terá que incentivar o
surgimento de novos pólos produtores. A Índia seria, para o executivo, o
país mais propenso a receber novas unidades produtivas de |

Nabil: estamos na era da
inflação chinesa |
insumos e de
pigmentos. O Brasil não seria um destino para investimentos do setor. Na
avaliação dos players entrevistados, o país não tem escala em seu mercado
interno e não é interessante quando se pensa em criar uma plataforma de
exportação. Primeiro, pela baixa qualidade e os altos custos da
infra-estrutura do país. Segundo, porque o real valorizado tira a
competitividade dos produtores nacionais.
Na verdade, a indústria brasileira de pigmentos está perdendo fôlego. Muitas
fábricas migraram ou encerraram suas atividades nos últimos anos. As que
continuam a produzir aqui relatam desânimo em decorrência do real
valorizado. Os dados da balança comercial do setor são um indício do
ambiente dos negócios no país. Em 2007, o Brasil importou US$ 515 milhões em
corantes e pigmentos, um total 19,21% superior ao do ano anterior, quando
foram importados US$ 432 milhões, e 82% maior que o registrado em 2002,
quando as importações totalizaram US$ 283 milhões. Na percepção de Mohamed,
nos últimos anos, a participação da produção local no mercado brasileiro de
pigmentos caiu de 30% para algo como 22% da demanda. “Com o câmbio neste
patamar, a participação dos importados vai crescer ainda mais e
rapidamente”, acredita o executivo.
Situação crítica – Já as exportações brasileiras do setor
encontram-se estagnadas, com tendência de queda. Em 2007, foram exportados
US$ 144 milhões em corantes e pigmentos, um milhão a menos do que o
registrado no ano anterior. E, segundo informam os poucos fabricantes
locais, não está fácil manter a atividade exportadora. Na Clariant, que
tradicionalmente exporta de 25% a 30% da linha de azo pigmentos produzida na
sua fábrica em Suzano-SP, Eide de Oliveira relata que as vendas
internacionais ocorrem no momento “a duras penas”. “Exportar com a cotação
da moeda brasileira no patamar atual é uma operação que está se tornando
inviável”, diz o diretor.
|
Adriano Pádua
Pinheiro, executivo responsável pela área de negócios para América do
Sul da unidade de químicos para tintas e plásticos da Basf, relata
situação semelhante. As exportações para a América do Sul, América do
Norte, Europa e Ásia sempre foram parte importante da estratégia de
negócios da fábrica de pigmentos ftalocianinas que a Basf mantém em
Guaratinguetá, no interior paulista. “Mas, no momento, graças ao câmbio,
a rentabilidade das exportações se encontra em situação bastante
crítica”, afirma o executivo, que prefere não revelar os números
referentes à operação.
Já na Lanxess, que produz pigmentos de óxido de ferro em Porto Feliz-SP,
as exportações cresceram no último ano, passaram de 15 mil toneladas em
2006 para 19 mil toneladas em 2007. Os principais destinos das
exportações de Porto Feliz são clientes na América Latina e negócios
intercompanhia com unidades da Lanxess nos Estados Unidos e Europa. O
aumento das exportações em 2007 foi fortemente influenciado pela
desativação de uma unidade da Lanxess produtora de óxido de ferro nos
Estados Unidos. |

Pinheiro: exportação com
rentabilidade muito baixa |
Para atender à
nova demanda gerada por essa desativação, a capacidade de produção da
unidade de Porto Feliz está sendo ampliada, passará de 31,5 mil toneladas
anuais para 36 mil toneladas até o final de 2008. A Lanxess também decidiu
apostar na China, adquirindo neste ano duas unidades de produção da Jinzhuo
Chemicals Company Ltd, sendo que uma já estava arrendada para a companhia
desde 2007. Segundo comunicado da Lanxess, as fábricas adquiridas da Jinzhuo,
situadas na província de Jinshan, possuem as instalações mais modernas de
pigmentos de óxido de ferro na China e “utilizam métodos de produção de
última geração e ecologicamente compatíveis”. A capacidade total adquirida
foi de 30 mil toneladas métricas por ano. Com o negócio, a Lanxess passará a
somar uma capacidade mundial de 350 mil toneladas por ano de pigmentos de
óxido de ferro e óxido de cromo. Ainda segundo o comunicado, a aquisição
também garantirá à Lanxess o fornecimento de matéria-prima para sua unidade
de mistura de pigmentos em Xangai, tornando-se assim totalmente independente
de fornecedores locais.
|
Giselle
Martins, coordenadora de assistência técnica da divisão de pigmentos
inorgânicos da Lanxess no Brasil, relata que a estratégia da companhia é
utilizar a nova capacidade chinesa principalmente para atender à demanda
asiática. “Há uma determinação de evitar uma canibalização entre as
unidades da Lanxess. Os produtos da unidade chinesa não serão trazidos
para a América Latina. O Brasil continuará atendendo os mercados que já
atende”, informa. No momento, o que preocupa a unidade de Porto Feliz é
a concorrência de outros fabricantes chineses de óxido de ferro (são
quase cem) em países latinos. Giselle reconhece que a competição nesse
mercado está acirrada. Os chineses chegam com produtos entre 15% e 20%
mais baratos. A qualidade dos produtos asiáticos, apesar de irregular,
vem crescendo e já |

Giselle: Lanxess não vai
importar da unidade chinesa |
pode ser
considerada boa. “A qualidade da produção brasileira é superior. Mas nossos
preços são mais elevados, graças ao câmbio e à nossa preocupação em realizar
processos ecologicamente corretos. Em mercados menos exigentes, como o de
muitos países latinos, a presença chinesa já é significativa”, afirma a
executiva.
|
|