T E N D Ê N C I A S   D E   M E R C A D O


Biotecnologia e ativos naturais fundamentam recorde de vendas
Rose de Moraes

A idéia de criar exclusividades começou com os perfumes. Formulados sob encomenda por renomadas casas de fragrâncias francesas, incorporam buquês únicos e aromas personalizados, desenvolvidos por perfumistas em experiências tecnológicas, comportamentais e sensoriais.

A sofisticação de poder elaborar fragrâncias personalizadas se propagou, contudo, para as criações cosméticas, agregando a essa idéia ainda mais tecnologia e conhecimento científico. Nos Estados Unidos, conforme constatado por especialistas, já se põe em prática a técnica que orienta a produção de cosméticos em função das características genéticas de cada indivíduo, e que resulta na formulação de cremes e loções especiais.

As novas criações cosméticas advêm de descobertas geradas com a decodificação do genoma humano.

A decodificação das células humanas já oferece grandes avanços para as novas criações cosméticas. “Basta aplicar um bastonete absorvente que vem embalado num pequeno tubo na mucosa oral do indivíduo para se conseguir colher seu material genético e depois enviá-lo para decodificação a um laboratório de genética aplicada para se obter pouco tempo depois um cosmético com propriedades específicas para tratar aquele indivíduo”, informou o farmacêutico Emiro Khury, diretor da EK Consulting Scientific Strategies in Cosmetics, empresa de consultoria especializada em cosméticos, com sede em São Paulo.

Atuante há 25 anos no setor, ele perdeu a conta de quantos desenvolvimentos cosméticos já fez, mas, mesmo assim, ainda se surpreende com os avanços alcançados nos últimos anos na área de cosmetologia, propiciados por inúmeras e exaustivas pesquisas. “A decodificação do genoma humano agregou muitas

Cuca Jorge

Khury: engenharia genética para auxiliar na criação das formulações

informações importantes para a indústria cosmética que, antes, só eram conhecidas de forma relativamente empírica. Hoje, todos sabemos que um produto cosmético pode perfeitamente produzir efeitos sem que para isso seja preciso penetrar na pele. Ao contrário, basta conectar uma molécula na superfície da pele para que seja enviada uma mensagem por meio de imunomoduladores até as camadas mais profundas da epiderme, produzindo-se, então, o efeito esperado. O conhecimento científico atual também permite que os ingredientes sejam rastreados sobre a pele, utilizando-se uma técnica de engenharia genética, a PCR. Assim, os extratos vegetais, por exemplo, são estudados sob o aspecto do que podem oferecer aos gens, produzindo modificações fisiológicas na pele e, a partir desse estágio, surge uma nova geração de ingredientes capazes de ativar os gens, baseados em conhecimentos adquiridos no sequenciamento e na decodificação do genoma”, informou Khury.

Além das ciências biológicas, como a medicina, que propiciou o desenvolvimento de novos métodos analíticos voltados ao estudo e ao tratamento de doenças, outras grandes responsáveis pelo desenvolvimento acelerado de ingredientes e aplicações cosméticas são as proteínas, tanto animais como vegetais e biossintéticas.

“As grandes respostas científicas para o desenvolvimento de novas formulações e os novos conceitos em cosméticos advêm das proteínas, ou seja, dos peptídeos”, considerou Khury.

No futuro próximo, de acordo com seu prognóstico, aos peptídeos deverão somar-se os carboidratos, isto é, os açúcares, que representam uma espécie de nova fronteira que já começa a ser transposta, mas que tem potencial para gerar grandes benefícios para o desenvolvimento de novas fórmulas.

“Há muitos anos elaborávamos xampus e cremes hidratantes com mucilagens de algas marinhas. Hoje, utilizamos praticamente as mesmas matérias-primas, compostas de associações de diversos açúcares como lactose, galactose, ramnose etc., e desenvolvemos novos produtos cuja principal propriedade é promover a renovação celular, estimulando os fibroblastos, e conduzindo à renovação das células”, comentou Khury.

A nova forma de compreender e aproveitar as propriedades dos ativos parece simples, mas muito tempo e investimento foram necessários para que os pesquisadores chegassem a essa conclusão: “Descobriu-se que com a associação de carboidratos é possível produzir efeitos altamente benéficos nas camadas mais profundas da epiderme, fato que enriquece ainda mais a importância da cosmetologia, que tem por missão sempre propagar a verdade”, afirmou o diretor.

Assim, com base no conhecimento mais aprofundado sobre as propriedades dos peptídeos e dos carboidratos, surgiram as mais novas tendências em formulações cosméticas, entrelaçando a neurocosmética, a comunicação celular e a inibição das metaloproteinases.

Em se tratando de peptídeos, já é possível desenvolver cosméticos com pentapeptídeos. A dificuldade, contudo, segundo Khury, não está na produção de peptídeos – em apenas quatro horas, podem ser produzidas cem mil diferentes combinações deles – e sim na descoberta de quais peptídeos realmente possuem atividade biológica, quais são totalmente seguros e quais apresentam maior interesse para o setor.

“Para encontrar as respostas para todas essas questões, muitas vezes são necessários de cinco a sete anos”, acrescentou Khury. Isso explica porque o número de lançamentos e patentes requeridas no mundo todo é alto, aproximando-se de dez mil a quinze mil novas moléculas ao ano, enquanto o número de lançamentos é bem mais reduzido, pois apenas uma parcela dessas moléculas será efetivamente incorporada às fórmulas e dará origem a novos produtos.

O tempo e o dinheiro gastos para o lançamento de cosméticos realmente inovadores também explicam porque são poucas as empresas que investem em novos desenvolvimentos. “As empresas do setor cosmético buscam racionalizar seus recursos e concentrá-los em core-business e na comercialização. Muitas delas terceirizam a competência de desenvolver novos produtos para núcleos universitários ou núcleos de fornecedores, porque sabem que precisam atender ao ritmo acelerado de lançamentos que devem ser feitos a cada temporada.”

Síntese de molécula da pele reforça desodorante

A maior eficácia de desodorantes parece também sinalizar tendência nesse segmento. Os laboratórios Garnier, do grupo L’Oréal sintetizaram a molécula acti-cuteíne, naturalmente existente na pele, e a adicionaram à fórmula do desodorante Bi-O, garantindo 48 horas de proteção. O novo desodorante conta com pidolato de zinco e seus sais minerais, ativo com ação antiinflamatória e regeneradora.

Cuca Jorge

Desodorante Bi-O, garantia de 48
horas de proteção

Crescimento é o maior do mundo - Terceiro maior mercado cosmético do mundo, o Brasil contabiliza avanços muito significativos na comercialização de cosméticos e conta com perspectivas muito promissoras para ocupar posições ainda mais destacadas nos próximos anos.

Em 2007, as vendas de cosméticos, produtos de higiene pessoal e perfumes, segundo informações divulgadas pela Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec), movimentaram US$ 22,23 bilhões, registrando 22,6% de crescimento em relação a 2006.

Com esse resultado, o Brasil alcançou o mais alto nível de crescimento entre os dez maiores países em consumo do mundo, superando o percentual da também emergente China, que cresceu 17% em relação a 2006.

Outra boa novidade: no consumo de produtos para cabelos, cosméticos masculinos e produtos para higiene oral, o país passou a ocupar a segunda posição no ranking dos maiores consumidores mundiais, e se mantém firme na segunda colocação em produtos infantis, desodorantes e perfumes.

Para se ter uma idéia um pouco mais exata da grande expansão no consumo que ocorreu em alguns segmentos do mercado brasileiro, em 2006, o país ocupava a terceira posição entre os maiores consumidores de produtos para cabelos, compreendendo nessa categoria xampus, condicionadores, produtos para tratamento capilar, fixadores, modeladores, tinturas, descolorantes, produtos para permanentes e alisantes e, nesse mesmo ano, ocupava a quarta posição no consumo de cosméticos masculinos e produtos para higiene oral.

Outro resultado bastante significativo vem do consumo de protetores solares, segmento no qual o país saltou da sexta para a terceira posição em 2007.

E o aquecimento do mercado interno poderá ficar ainda melhor. Projeções indicam que o mercado brasileiro poderá vir a ocupar a liderança mundial na comercialização de desodorantes já em 2008, segmento no qual o desempenho atual já corresponde a 15% do mercado mundial.

Até 2010, especialistas observam que o Brasil tem a chance de se tornar o vice-líder mundial em consumo de cosméticos, posição atualmente ocupada pelo Japão, que respondeu em 2007 por um faturamento de US$ 30,50 bilhões, sendo apenas superado pela tradicional liderança dos Estados Unidos que, no último ano, registrou a megacifra de US$ 51,33 bilhões na comercialização de cosméticos.

Recentemente, panorama setorial di­vul­gado pela empresa de consultoria Factor de Solução, pertencente ao grupo Kline, que atua globalmente, indicou que o mercado cosmético mundial movimentou US$ 270 bilhões em 2007, nas vendas do varejo, apresentando crescimento de 6,3% em relação a 2006. Assim, o crescimento mundial em 2007 alcançou seu ponto mais alto desde o início dessa década, apresentando, em média, taxa anual de crescimento de 5,5%, desde 2003.

A Europa continua sendo o maior mercado cosmético, mas, nos últimos anos, vem perdendo em participação para outras regiões do mundo. Em 2003, a Europa respondia por uma fatia de 39% do mercado mundial, enquanto Ásia, América do Norte e América Latina respondiam, respectivamente, por 25,5%, 22% e 10%. Em 2007, o percentual de participação da Europa diminuiu para 37,3%, enquanto a Ásia respondeu por 25,9%, a América do Norte por 20,4% e a América Latina, com 12,9%, respondeu pelo nível de crescimento mais acelerado.

Enquanto França, Alemanha, Itália, Japão, Espanha e Estados Unidos respondem por níveis de crescimento inferiores a 5%, Brasil, Argentina, China, Índia e Rússia revelam taxas de crescimento superiores a dois dígitos.

Os Estados Unidos continuam a ocupar o topo no ranking dos maiores produtores mundiais em volume de mercado, mas o Brasil subiu da quinta para a quarta posição em volume, no comparativo entre 2006 e 2007.

Os franceses apresentam o maior gasto per capita ao ano em cosméticos do mundo: US$ 245,31 por habitante, enquanto os brasileiros gastam US$ 98,05, o que revela o quanto ainda o consumo poderá crescer.

De acordo com avaliações de consumo global realizadas pela Factor de Solução, são os cosméticos para cuidados e tratamento da pele que apresentam os maiores percentuais de participação no mercado global: 28,8%. Os cosméticos para cuidados com os cabelos respondem por 21%, maquiagens (14,9%), toaletes (14,9%), fragrâncias (11,6%) e produtos para higiene bucal (8,8%).

O segmento que mais cresceu em vendas no mercado brasileiro em 2007 foi o de produtos masculinos para a pele (27,5%). Esse desempenho foi seguido pelos níveis de comercialização alcançados por batons e glosses (22,1%), maquiagens para olhos (21,4%), protetores solares (21%), maquiagens para o rosto (20,2%), anti-sépticos bucais (19,1%), produtos para coloração dos cabelos (18,2%), loções para mãos e corpo (16,3%), cosméticos para tratamentos faciais (15,6%), condicionadores (14,1%), perfumes femininos (13,1%), desodorantes e antitranspirantes (12,4%), xampus (12,3%), cosméticos para uso infantil (12,2%), perfumes masculinos (11,8%), entre outras categorias que também registraram crescimento positivo.

“O consumo nos países emergentes está crescendo em ritmo muito acelerado”, observou Sérgio Rebêlo, diretor da Factor de Solução. Especializada em estratégias de crescimento, a empresa elabora planos de desenvolvimento de produtos, orienta clientes a ingressar em novos mercados regionais e globais e promove análises de competitividade sob encomenda das empresas.

De acordo com uma das últimas avaliações da Factor de Solução, cujo conhecimento ajuda a melhor compreender porque o Brasil representa um dos mercados mais promissores em cosméticos do mundo, despontando no grupo dos países emergentes, é que, além do aumento do consumo interno, atribuído ao melhor poder aquisitivo das classes sociais C, D e E, as

Cuca Jorge

Rebêlo: países emergentes atraem as grandes corporações globais

previsões para os próximos anos apontam queda nas vendas de cosméticos em países europeus e nos Estados Unidos, motivada por retrações no consumo.

“Com isso, poderemos contar com maior interesse das grandes corporações multinacionais pelos mercados emergentes, que têm padrão de consumo inferior ao dos países desenvolvidos, mas registram demandas crescentes por cosméticos básicos como xampus, sabonetes, cremes dentais e desodorantes”, avaliou Rebêlo.

Portanto, segundo acredita o diretor, os níveis de crescimento nos mercados emergentes serão maiores e deverão impulsionar as indústrias a desenvolver cada vez mais produtos básicos a custos compatíveis com a renda per capita observada em cada um desses países.

 

 

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