Cuca Jorge

Linhas base d’água chegam ao
setor de repintura automotiva
e ganham destaque na feira

Domingos Zaparolli

Demorou, mas finalmente os sistemas de repintura automotiva com base em água começam a chegar ao Brasil. Os 26 mil visitantes que percorreram os corredores do pavilhão do Centro de Exposições Imigrantes, em São Paulo, entre 17 e 20 de setembro, durante a VI Feira da Indústria de Tintas e Vernizes & Produtos Correlatos (Feitintas), puderam constatar que as principais empresas desse segmento se apressam em disponibilizar produtos e estratégias comerciais para preencher essa lacuna do mercado nacional. PPG, Dupont e Starquímica aproveitaram o

evento para apresentar seus sistemas de repintura base d’água, enquanto a Sherwin-Williams, que lançou o seu em dezembro de 2007, esforçava-se para demonstrar a solução em workshops destinados a gestores de oficinas de pintura. A pioneira Glasurit não está mais sozinha no mercado brasileiro.

Como relatam representantes dos fabricantes de tintas automotivas, os lançamentos ocorrem para atender a uma demanda por produtos de menor impacto ambiental, solicitação já sentida entre os consumidores brasileiros. Mas os principais incentivadores da tecnologia são as seguradoras, dispostas a apresentar aos seus clientes uma alternativa de pintura ambientalmente correta, e algumas montadoras, já usuárias de tintas originais base d’água, que estão impelindo suas redes de concessionárias autorizadas a seguir o mesmo caminho. Toyota, Honda e Renault são exemplos nesse sentido. O marketing da sustentabilidade, definitivamente, está em alta. “Hoje, a responsabilidade ambiental já é um importante diferencial de mercado para seguradoras, montadoras e oficinas de pintura”, diz Cezar Rizzo, gerente de produtos da Starquímica.

Cuca Jorge

Rizzo: seguradoras e oficinas valorizam a proteção ambiental

Os sistemas base d’água não são novos. Na Europa, no Japão, no Canadá e nos Estados Unidos já se usa a tecnologia há mais de uma década em substituição aos tradicionais sistemas com solventes, atendendo a exigentes legislações ambientais que limitam a emissão de voláteis livres para a atmosfera. No Brasil, como não há o incentivo legal, os fabricantes de tintas não se sentiam, até recentemente, estimulados a importar a tecnologia. Os sistemas

para repintura automotiva base d’água apresentam uma série de vantagens. O primeiro, é claro, é uma redução de até 90% na emissão de solventes. O sistema também reduz riscos à saúde do pintor, diminuindo problemas trabalhistas para as oficinas. Permite realizar a limpeza dos equipamentos de pintura com água comum, que pode ser tratada e reutilizada. O poder de cobertura é superior aos sistemas com base em solventes, o que gera um menor consumo de material. Por fim, o acabamento final é superior.

Por outro lado, os sistemas base d’água apresentam um preço inicial entre 25% e 40% mais caro, dependendo do fornecedor. “O custo aplicado, porém, é equivalente, uma vez que o sistema base d’água rende de 30% a 40% mais”, diz Fabrício Vieira, gerente de marketing e produto repintura automotiva da PPG. Outro problema é o fato de as oficinas precisarem adaptar suas cabines de pintura, instalando sistemas de ventilação (sopradores) com maior potência; a manutenção e a limpeza dos filtros de ar devem ser mais rigorosas e é necessário instalar adaptadores de fluxo de ar; e também são exigidas pistolas de pintura exclusivas. Um ponto importante: as repinturas base d’água podem cobrir pinturas originais à base de solvente e vice-versa.

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Vieira: sistema base d'água rende de 30% a 40% a mais

Base coat - A norte-americana PPG aproveitou a Feitintas para apresentar ao público brasileiro suas duas linhas de tintas automotivas base d’água, a Envirobase High Performance, que adota a marca PPG, e a Aquabase Plus, com a marca Nexa Autocolor. As duas são base coats compatíveis com as linhas de primers e vernizes com baixos teores de VOC (Compostos Orgânicos Voláteis) da empresa, que seguem as normas européias de emissão de solventes. Segundo Vieira, a expectativa na PPG é de lançar primers e vernizes automotivos base d’água em dois anos.

A empresa informa que a Envirobase High Performance e a Aquabase Plus dispensam o uso de sistemas tintométricos, graças a uma tecnologia anti-sedimentação, resultando em ganho de tempo de preparação, maior produtividade, economia de energia e redução do espaço físico necessário. Outro ponto destacado pela empresa é uma nova tampa dosadora, que facilita a pesagem da cor e evita desperdícios, vedando melhor a entrada de ar. Já estão disponíveis mais de 20 mil fórmulas de cor.

Vieira relata que os sistemas já estão em uso em mais de 24 mil máquinas de pintura na Europa. No Brasil, os sistemas começam a ser comercializados em novembro e, em janeiro, deverão estar instalados em 20 concessionárias, primeiramente das marcas Honda, Toyota e Renault, empresas já usuárias de pinturas originais base d’água PPG. “Nossa expectativa é de que, em cinco anos, 30% das concessionárias e oficinas de grande porte atendidas pela PPG já tenham migrado para os sistemas base d’água”, diz o executivo. Ele relata que a PPG oferece garantia de 36 meses da tinta e um programa de consultoria para as oficinas que migrarem para o sistema.

A DuPont também lançou recentemente no Brasil o seu sistema de repintura automotiva base d’água, o Standohyd Basecoat, que compõe sua linha Premium

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Apresentação da linha Standox

Standox. A primeira geração da Standohyd, informa a empresa, foi lançada na Alemanha em 1994 e hoje tem grande participação nos mercados europeus e em alguns estados norte-americanos, como a Califórnia, onde a legislação ambiental é rigorosa. Para Manoel Torres Rodrigues, gerente do segmento de repintura da DuPont no Brasil, a falta de um limite legal no país para a emissão de solventes em processos de pintura faz com que a demanda pelos sistemas base d’água seja pequena. “Por enquanto, é um produto de nicho de mercado. Para oficinas que querem oferecer um serviço diferenciado para clientes preocupados com questões ambientais”, diz o executivo.

No Brasil, a DuPont trabalha também com tintas automotivas originais base d’água desde 2000 – atende a Ford Camaçari. Rodrigues informa que a linha de repintura Standohyd começou a ser comercializada há três meses e a previsão, por enquanto, é de instalar o sistema em três oficinas e em um centro de treinamento em uma montadora. A empresa oferece suporte e consultoria às oficinas interessadas no sistema, por meio do Programa Oficina Ecológica.

Junto com sua linha de base coat, a DuPont também oferece primers e vernizes com baixos índices de emissão de VOC. Segundo Rodrigues, a tecnologia base d’água é necessária justamente no base coat, por este ser o grande emissor de solventes nos processos de repintura. Mesmo assim, a DuPont já desenvolve primers e vernizes base d’água, mas ainda não há previsão de lançamento comercial destas linhas.

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Carro repintado com a linha completa lançada pela DuPont

Linha completa - A proposta mais ousada de sistemas de repintura base d’água apresentada na Feitintas foi da brasileira Starquímica, que lançou na feira a linha Acquastar, composta por primer, base coat e verniz solúveis em

água. “A tecnologia Acquastar foi totalmente desenvolvida na Starquímica e hoje somos a única empresa no mundo com uma linha completa de repintura base d’água”, diz o gerente de produtos Cezar Rizzo.

Segundo o executivo, uma vantagem para as oficinas em adotar um sistema completo de repintura base d’água é o fato de os investimentos em adequação das cabines se tornarem desnecessários. “A aplicação de um base coat base d’água emite umidade dentro das cabines. É preciso eliminar essa umidade, por meio de sopradores, antes da aplicação do verniz base solvente para evitar a formação de microcristais no acabamento. Mas quando se aplica o base coat e o verniz com base d’água isso não ocorre, bastando manter a temperatura da cabine em 30º para que a água se evapore”, afirma Rizzo.

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Carro pintado, do primer ao verniz, com produtos Acquastar

O executivo relata que a primeira oficina a adotar o sistema Acquastar, ainda em outubro, será a Auto Palace, de São Paulo, uma oficina modelo do programa de ecoeficiência do Sebrae. A expectativa na Starquímica em relação ao desempenho comercial da nova linha é bastante positiva. Rizzo informa que a empresa está fechando acordo de parceria com duas seguradoras, a AIG e a Allianz AGF, que pretendem estimular suas oficinas credenciadas a adotar o sistema. A estratégia da Starquímica é buscar mais parcerias com esse objetivo. “Acreditamos que no prazo de um ano teremos 110 oficinas convertidas para nosso sistema de repintura base d’água”, afirma Rizzo.

Palestras - Já a Sherwin-Williams lançou sua linha base coat base d’água, a Advanced Waterborne System (AWX), em 2006 na Europa e em dezembro de 2007 no Brasil. O sistema de repintura da companhia também é complementado por primers e vernizes com baixos VOCs. Segundo André Luiz da Cruz, gerente de desenvolvimento do laboratório Sherwin-Williams, a empresa já desenvolve, em laboratório, suas linhas de primers e vernizes base d’água, mas ainda não há previsão de lançamento comercial.

Há nove meses no Brasil, informa Cruz, a linha AWX, que conta com um leque de 18 mil cores desenvolvidas, já foi adotada em 15 oficinas, sendo na maioria concessionárias, principalmente da Fiat e da Mitsubishi. Por enquanto, as tintas AWX são importadas dos Estados Unidos, mas a Sherwin-Williams, relata Cruz, estuda a produção local, como forma de melhorar a competitividade do produto. Outra ação é um trabalho de divulgação e informação sobre as características e vantagens do sistema em oficinas de pintura, por meio de palestras, como as realizadas durante a Feitintas.

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Cruz: linha AWX conta com 18 mil cores de base coats

A pioneira no Brasil da tecnologia de repintura automotiva à base de água foi a Glasurit, da alemã Basf, com o lançamento em 2005 da Linha 90. A concessionária BMW Agulhas Negras, em São Bernardo do Campo, foi a primeira a usar o sistema no país. A Basf informa que, em dois anos, já foram realizados mais de 15 mil reparos sem nenhum retorno em oficinas BMW, Mercedes-Benz, Fiat, Honda, Mitsubishi, Audi, Peugeot, Citroën, Kia e Volks, além de oficinas multimarcas. A conversão do mercado brasileiro de repintura para os sistemas base d’água só está começando. Mas agora há vários players se apresentando, o que promete uma boa disputa mercadológica pela frente.

 

 

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