Entre os motivos de atrito entre indústria e comunidade, o odor tem papel de destaque. Afinal de contas, sua natureza volátil pode invadir qualquer quintal da vizinhança e manter-se presente até o despertar da náusea e da ira das pessoas, que tendem a se rebelar contra a indústria mais próxima. Além disso, a lembrança olfativa constante suscita também o imaginário da população a respeito dos riscos da poluição, mesmo sabendo que parte considerável dos odores não tem relação direta com possíveis danos à saúde causados por emissões industriais atmosféricas. E é justamente por causa dos erros de interpretação dos reclamantes que se torna temerário depender apenas deles para embasar a política de atuação dos órgãos ambientais em questões por vezes tão subjetivas como a do odor. Lentamente, as agências mais adiantadas do Brasil, seguindo práticas comuns nos países desenvolvidos, adotam postura proativa para o controle. É o caso, por exemplo, da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental de São Paulo (Cetesb).
da Cetesb, Eduardo Serpa. Normalmente, não há tolerância: ou o sistema de controle está em operação ou a licença não sai. Apenas em casos excepcionais, quando a implantação de combate ao odor (ou a outros tipos de poluição) tenha demandado um prazo de instalação um pouco maior, por motivos “explicáveis”, há a expedição de uma licença de operação a título precário, de apenas seis meses e condicionada ao cumprimento de acordo formal.
a ter para evitar a emissão de odores dessa indústria que utiliza como matéria-prima principal resíduos animais, por si só uma grande fonte de mau cheiro. Para começar, elas adotaram sistema de coleta rápida das carcaças animais, feitas normalmente em açougues, mesmo princípio empregado na manipulação ocorrida durante o processo. E investiram em câmaras frias para evitar a exposição dos resíduos, que sem essa providência entram em putrefação rapidamente, exalando o mau cheiro característico. “Há também a preocupação de manter, por exemplo, um digestor de cozimento substituto. Caso haja problema com o primeiro, não há risco de se expor a vizinhança ao péssimo odor proveniente dessa etapa do processo interrompida para manutenção”, complementou Laércio Vechini. O outro exemplo para confirmar a tese de Serpa, no tratamento de esgotos, também é especialmente feliz por ser uma das operações mais visadas, tanto por comunidades vizinhas que reclamam do odor proveniente principalmente das reações biológicas anaeróbicas (as bactérias sulfatorredutoras geram gás sulfídrico) como por empresas que tentam vender sistemas para neutralizar ou combater o odor de forma geral. Na sua opinião, dificilmente uma estação de tratamento de esgotos não consegue resolver seus problemas de odor consertando falhas na operação, sem precisar recorrer a tecnologias para mascarar. “Minha experiência em várias situações de fiscalização confirma essa tese”, revelou Serpa. Segundo ele, as ocorrências mais comuns para acabar com os problemas de ETEs contemplam a limpeza de grades, o desassoreamento de lagoas, a distribuição correta do esgoto pela estação e o controle do tempo de permanência do processo. “O que para muitos é um efeito natural da manipulação do esgoto, na verdade é um problema de operação e manutenção da estação”, disse. “Já vi muitas estações acabarem com os odores apenas fazendo esse tipo de melhoria”, completou.
Além da sua experiência nas ETEs paulistas, a convicção de Eduardo Serpa com relação a melhorias no processo como forma de eliminação de odor se baseia também em visita internacional realizada em uma estação de tratamento de Los Angeles, na Califórnia-EUA. Situada em região de alta densidade populacional, e reagindo a reclamações, a companhia local organizou painéis com moradores para identificar as fontes de odores da estação que mais incomodavam. Depois de identificada a geração responsável, a solução foi cobrir a fonte e criar um sistema de dutos de sucção para levar o ar com o odor para servir de alimentação da aeração do sistema biológico. “Este é um exemplo barato e eficiente que pode servir de modelo para várias estações”, explicou. |
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