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AMBIENTE - Miniusinas prometem produzir sem poluir
(foto de Fernando C. de Castro)

Por ocasião da Feira Internacional de Tecnologia para o Meio Ambiente (Fiema 2008), a empresa Biotechnos, de Santa Rosa, Rio Grande do Sul, apresentou o Bioclean. Trata-se de um sistema de reatores para processamento de biocombustível em pequenos volumes também denominado de miniusina de biodiesel.

O equipamento pode se transformar futuramente em uma alternativa simples e ambientalmente amigável para a produção do biodiesel sem os transtornos ocasionados pelo confuso, complexo e, às vezes, pouco lucrativo modelo de comercialização fixado pela Agência Nacional do Petróleo, que ocorre por meio de leilões, nos quais as regras do jogo são fixadas arbitrariamente pela Petrobras.

De acordo com a legislação vigente sobre biodiesel, até dez mil litros por dia são considerados produção para consumo próprio e o fabricante tem condições de repassá-lo como mercadoria sem maior burocracia, em condições mais interessantes. A idéia com a miniusina é estimular a produção de pequena escala em propriedades rurais, em cooperativas, a fim de evitar as negociações complicadas para as quais é necessário um grande aporte de capital.

O Bioclean permite processar entre mil e cinco mil litros por dia de biodiesel. A diferença de volume de produção depende do tamanho dos reatores oferecidos pela Biotechnos. Um dos modelos pode produzir mil litros por dia. O equipamento de maior capacidade foi concebido para fabricar cinco mil litros.

O processo de obtenção é a transesterificação, método tradicional de obtenção do biodiesel por meio do qual os óleos vegetais, ou graxas animais, tais como soja, mamona, amendoim, caroço de algodão, nabo forrageiro, babaçu, dendê, girassol, canola, pinhão manso, óleo residual de frituras, sebo de boi entre outros são convertidos em biocombustível.
No entanto, o Bioclean dispensa a utilização de ácidos para a neutralização do biodiesel bruto e não produz efluente. A purificação é realizada em colunas por meio de polímeros específicos, que captam impurezas como sódio, sabões, glicerina, água, entre outros, após essa etapa o biodiesel está pronto para ser utilizado.

O óleo é aquecido a 60ºC e vai para o reator, onde ocorre a mistura de um óleo (de origem vegetal e ou animal) com metanol e onde a soda cáustica funciona como catalisador, em seguida vai para um processo de decantação, separando o biodiesel da glicerina. No entanto, o Bioclean apresenta duas inovações importantes.

Segundo Márcia Werle Musskopf, diretora-executiva da Biotechnos, o custo operacional é menor em comparação com os processos convencionais em virtude do baixo consumo de energia elétrica, maior facilidade operacional, custo zero para tratamento de efluente líquido, e redução de riscos ambientais e operacionais, graças à não utilização de ácidos. Como o processo não exige água e ácido para neutralização, também não se faz necessária a instalação de aquecedor e secador a vácuo.

Márcia: custos operacionais são muito menores

Márcia explicou que a característica física das instalações e seu dimensionamento, assim como as condições ambientais de trabalho, são fatores importantes de definição da qualidade final do produto. Para a produção de biodiesel, dentro das especificações da Agência Nacional de Petróleo, é necessária, por exemplo, para uma unidade de mil litros por dia, uma área coberta de 5 metros de largura por 10 metros de comprimento, com pé-direito mínimo de 5,5 metros. Por ser um sistema bastante simples e flexível, a instalação poderá ocorrer em prédios já existentes sem muitas adaptações.

Além deste espaço para a instalação do processo, a empresária recomenda uma sala para comportar o laboratório de análises, sanitários e setor de recebimento e distribuição do biodiesel a ser produzido, além de observar recomendações dos órgãos ambientais locais. “Um dos fatores mais importantes que interferem de forma significativa na qualidade do biodiesel são as condições dos óleos vegetais utilizados no processo”, alertou Márcia.
Por conta do controle de processo, o primeiro passo é identificar o teor de umidade do óleo e adequá-lo ao ideal, que seria abaixo de 0,20%, pois a água prejudica a reação. As impurezas, notadamente os materiais em suspensão, sólidos insolúveis no óleo, resíduos orgânicos, farelo, entre outros, devem apresentar teor máximo de 0,10%.

A especificação da matéria-prima deve apresentar aspecto límpido a 25ºC, ou ligeiramente turvo, a cor não pode ultrapassar as 50 unidades amarelas e 5,0 unidades vermelhas. As médias ocorrem na escala Lovibond numa célula de 1% de umidade de voláteis e máximo de 0,30%, impurezas insolúveis em éter de petróleo a 60ºC, máximo de 0,1%, acidez livre máxima de 1,0% e lecitina (expressa em fósforo) em volume máximo de 0,030%.

O ponto de fulgor (flash point) mínimo é de 121°C. A matéria insaponificável máxima é de 1,50%. Tais especificações são desejadas para que seja alcançado um melhor rendimento no processo.  Se a qualidade, principalmente  em relação à acidez e impurezas, for inferior, o rendimento também será menor. Conforme Márcia, o biodiesel produzido nas miniusinas da Biotechnos tem sido testado em laboratórios, que atestaram a sua qualidade em conformidade com os padrões da Agência Nacional do Petróleo.

Nos testes em motores, foram empregadas as misturas B10 (10% de biodiesel para 80% de diesel de petróleo), B 30 e B 100 (100% de biodiesel). A única recomendação quanto à utilização do biocombustível puro é promover uma limpeza completa do sistema do motor, até mesmo com a descarbonização, pois como o próprio biodiesel funciona como um aditivo natural para a limpeza, se houver incrustações anteriores poderá ocorrer o entupimento do sistema. Os testes são feitos em caminhões. Há uma empilhadeira em operação há seis meses com B 100.

No caso dos testes promovidos pela Biotechnos, os motores eram de veículos novos, o que não exigiu procedimentos de manutenção. Outra recomendação: o biodiesel é um produto perecível e deve ser consumido até seis meses depois da fabricação, por não receber antioxidantes ou conservantes.

Para Márcia, futuramente, os laboratórios poderão desenvolver algum aditivo para aumentar o tempo de vida útil, mas tem de ser de fonte renovável. Pode ser com grão de soja, girassol, canola ou pinhão manso. “Quando se falava em biodiesel, se pensava em grandes investimentos e na obrigatoriedade de se entrar no esquema de leilões da Petrobras, ao alcance de poucos. Testamos nos nossos veículos e funciona muito bem. A vantagem para um produtor fazer o seu próprio biodiesel é aproveitar o farelo para alimentação animal”, assinalou a empresária.

Como informou Márcia, a tecnologia de miniusina já existia na Europa, o que a Biotechnos realizou foi adaptá-la às condições do Brasil e acrescentar outros equipamentos adicionais como a prensa e a extrusora para extração de óleos, esteiras de transporte, tanques de armazenagem de óleo, além de uma unidade compacta de neutralização do biodiesel.
Por enquanto, a Biotechnos processa o biodiesel para agricultores que pagam para transformar seus grãos por batelada. O processo contínuo para pequenas unidades ainda é considerado caro para os padrões do país. A usina-piloto da própria Biotechnos opera em torno de 2,5 mil litros por mês.
As miniusinas desenvolvidas pela Biotechnos são fabricadas por meio da indústria metalúrgica que leva o sobrenome da família de Márcia, a Musskopf Metal Works, empresa que atua no ramo metal-mecânico há 25 anos, atendendo a diversas montadoras. É certificada pelas normas da ISO 9000 desde o ano de 2000, e atua em parceria com a Biotechnos. São 12 agricultores que recolhem o biodiesel em tonéis de 100 litros. A empresária revelou o interesse de empresas em conhecer as miniusinas. Um grupo de São Carlos, São Paulo, estuda a implantação de quatro reatores.

O objetivo do empreendimento da Biotechnos é difundir as miniusinas por meio de cooperativas ou em associação de agricultores ou de nichos empresariais que precisem do combustível, assim como prefeituras e cooperativas de catadores de óleo de fritura usado. A Biotechnos oferece ainda serviços complementares como projetos de implantação, análise de viabilidade econômico-financeira, layout, fluxogramas, relação de materiais e equipamentos básicos para laboratório, manual de análises e treinamento laboratorial, conforme a necessidade de cada cliente.

Além disso, Márcia citou novas aplicações para o biodiesel, as quais começam a pipocar. O biocombustível funciona bem como desmoldante e fluido de corte. Uma pesquisa da Universidade Federal da Bahia mostrou que a glicerina adicionada em biodigestores de esterco de porco multiplica por cinco a geração de biogás dentro do reator. Isso acontece porque as bactérias se reproduzem mais rapidamente, em maior quantidade e ficam mais ativas. Ainda assim, a glicerina refinada continuará sendo absorvida pela indústria farmacêutica.

Segundo a análise de um cliente, com 17 mil litros por mês se atingiria o ponto de equilíbrio. Com 22 mil litros/mês é possível obter um retorno sobre o investimento de 30%. O Bioclean foi lançado oficialmente em abril último durante a Fenasoja em Santa Rosa.


F. C. C.
 

 
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