| |
ÁGUA - Debates enfatizam o uso por
cadeia produtiva
Mais de mil e duzentos eventos educacionais, entre palestras e visitas a
projetos ambientais, foram realizados de 27 de setembro a 4 de outubro, no
Rio Grande do Sul, por ocasião da “XV Semana Interamericana da Água e VIII
Semana Estadual da Água”. O ponto alto do evento, no entanto, ficou por
conta da palestra denominada “Sexto Encontro do Ciclo de Debates Repensando
o Desenvolvimento perante as Fragilidades Ambientais”, em primeiro de
outubro, no auditório da Fundação Getúlio Vargas, quando a bióloga Maria
Mercedes Bendati divulgou uma série de números relacionados com o denominado
consumo virtual da água.
Por exemplo: uma cabeça de boi, desde o ventre da vaca até o bife servido à
mesa, bebe quatro milhões de litros de água. Uma batata, da raiz ao prato,
terá consumido 25 litros. Um ovo de galinha responde por outros 135 litros.
O quilo do arroz é beberrão e sorve 2,4 mil litros. O hambúrguer assimila
150 gramas. Para matar a sede com um copo de cerveja foram mais 75 litros.
Se a escolha for pelo vinho, 200 litros.
Uma xícara de café e lá se foram mais 140 litros. Uma fatia de pão de 30
gramas do tipo seco sem nada dentro ainda leva outros 40 litros. O cálculo
virtual leva em conta o uso da água em todos os processos, desde a produção
dos produtos agrícolas, matérias-primas, o processo de transformação em
mercadoria, até o consumo final. Por setor, a agricultura bebe 72% da água,
18% na indústria e 10% pelo uso doméstico. A bióloga explicou que até bem
pouco tempo a água era considerada um produto inesgotável. Agora já se sabe
que sua existência é limitada pelo ciclo hidrológico.
O vapor d’água leva oito dias para se renovar, a água de um rio precisa de
16 dias, a de um lago 17 anos e a da geleira das montanhas, 1,6 mil anos. A
água estocada no subterrâneo necessita de 1,4 mil anos para recuperação dos
volumes.
Com base nesses estudos, Maria Mercedes aponta ainda alguns números do
consumo de água industrial. Um quilo de tecido produzido emprega mil litros.
Um quilo de papel mais 250 litros. Diante de tais estatísticas, ela elogiou
as inovações na legislação vigente no país contidas na Portaria 518/04. O
documento oficializa o debate sobre modelos alternativos de uso dos recursos
naturais e coloca em legislação temas como tratamento e reúso da água.
Igualmente, a portaria define que a integração de políticas da água tem de
estar em consonância com os aspectos gerais de organização da sociedade e os
aspectos específicos, os quais determinam as diferentes soluções
institucionais. Uma advertência da pesquisadora: a qualidade da água varia
de acordo com fatores naturais e por influência antrópica, pois está
distribuída de forma irregular no planeta. Em sua composição existem 50
constituintes dissolvidos ou em suspensão (sólidos dissolvidos, gases,
compostos orgânicos, microrganismos). Tal complexidade gera diferentes
necessidades entre os setores usuários.
Exigir controle de qualidade dos produtos químicos utilizados no tratamento
da água e materiais empregados na produção e distribuição da água é uma
norma da portaria. A outra se relaciona com a manutenção de um processo de
avaliação permanente do sistema de abastecimento de água. Outra prerrogativa
consiste em exigir dos órgãos ambientais, e gestores de recursos hídricos,
ações em favor da proteção do manancial de abastecimento.
A portaria determina ainda o fornecimento aos consumidores de informações
sobre a qualidade da água distribuída quanto aos mananciais, estatística dos
parâmetros de qualidade, ocorrência de não-conformidade e medidas corretivas
providenciadas, bem como o padrão microbiológico, como a inclusão de
Escherichia coli como elemento patogênico e a exclusão dos coliformes totais
como fatores aceitáveis para o consumo humano.
Recomenda-se ainda a pesquisa de outros organismos patogênicos, dentre os
quais o enterovírus, cistos de Giardia spp e oocistos de Cryptosporidium sp.
A portaria incluiu ainda padrões para substâncias químicas inorgânicas, tais
como o antimônio e os nitritos.
Maria Mercedes citou como principais patogenias transmitidas por água
inadequada: as viroses como a hepatite A, E, F, a poliomielite e a diarréia
por rotavírus. Relaciona-se ainda as patogenias bacterianas como cólera,
infecção por Escherichia coli, febre tifóide. Por protozoários, aparecem a
amebíase, a criptosporidíase, giardíase. Por meio dos helmintos, Maria
Mercedes cita a ascaridíase, a tricuríase e a enterobíase.
Há ainda doenças infecciosas da pele, dos olhos e transmitidas por piolhos.
A água com qualidade adequada para consumo humano reduz a incidência de
doenças diarréicas. Quantidade e qualidade da água são indicadores
importantes para a saúde pública. “O padrão de potabilidade está por trás da
água que bebemos e essa qualidade depende das condições dos mananciais de
abastecimento, tratamento e distribuição da água, finalidade a que se
destina a água, consumo, recreação, irrigação”, ensina a bióloga.
Na parte orgânica, a Portaria 36/90 incluiu três substâncias e ampliou a
restrição a defensivos agrícolas e fertilizantes ao incluir as cianotoxinas
e a microcistina como substâncias contaminantes. Os desinfetantes e produtos
secundários de desinfecção também foram acrescentados.
Da mesma forma, procederam-se alterações nos parâmetros de amônia,
etilbenzeno, monoclorobenzeno, sódio, tolueno e xileno. A recomendação de pH
ficou na faixa de 6,0 a 9,5. O teor máximo de cloro residual livre é de 2,0
mg/l.
Quanto ao “Direito à Informação”, outra portaria, a de número 518/04,
estabelece a necessidade de divulgação sobre a qualidade da água para
consumo humano. Com base no Código de Defesa do Consumidor, o texto define
parâmetros e com que freqüência os prestadores de serviço devem informar o
consumidor sobre a qualidade da água. Decreto Federal 5440 de 04 de maio de
2005. Os dados devem ser mensais e anuais.
Devem prestar tais informações as razões sociais responsáveis pelo
abastecimento da água, as entidades de vigilância sanitária e de
fiscalização. A descrição dos processos de tratamento e de distribuição da
água e dos sistemas isolados e integrados deve ocorrer de maneira
simplificada como forma de permitir a compreensão da parcela da população
alheia aos termos
técnicos.
Ainda assim, garantias de fornecimento em qualidade e quantidade para a
população total do país para todos os usos devem aparecer nos relatórios
tanto para as necessidades presentes como futuras. A respeito das estações
de tratamento de esgotos e efluentes, devem constar as informações sobre a
coleta e disposição de lixo e resíduos urbanos e industriais, obras de
conservação e controle da erosão dos solos, produção mais limpa/reúso da
água no processo industrial, métodos mais eficientes de irrigação, aplicação
controlada de defensivos agrícolas, monitoramento dos mananciais e das
fontes poluentes.
O conjunto dessas portarias aponta que a gestão da água obedece a grandes
princípios. A bacia hidrográfica é uma unidade de planejamento e gestão e
exige compatibilização dos usos múltiplos, descentralização e gestão
participativa. Uma bacia hidrográfica compreende a área responsável pela
drenagem das águas da chuva, por canais e tributários, para um curso de água
principal.
“Essa área vai constituir uma unidade territorial, a bacia hidrográfica. O
conceito de bacia hidrográfica é importante para a gestão das águas”,
assinala Maria Mercedes. Ela considera fundamental a gerência política e
administrativa do território no que tange a recursos hídricos, controle
ambiental, garantia de potabilidade, respeito aos direitos do consumidor,
abastecimento assegurado e saúde.
Para Maria Mercedes, os padrões de potabilidade ou de água potável são as
quantidades limites que, com relação aos diversos elementos, podem ser
toleradas nas águas de abastecimento, quantidades estas fixadas, em geral,
por decretos, regulamentações ou especificações. Tais parâmetros permitem
valores máximos baseados em estudos toxicológicos e definem as concentrações
máximas a que um ser humano pode estar exposto, sem risco à saúde.
O engenheiro de saneamento Márcio Rodrigues de Freitas, de maneira crítica,
citou a nova moda nos EUA e na Europa, os denominados “green buildings”.
Esses prédios verdes, na tradução literal, têm especificações ecologicamente
corretas. Entre as novidades, os edifícios possuem placas de captação de
energia solar e sistema para armazenar, tratar e reaproveitar a água da
chuva. Um arranha-céu de Nova York recentemente concluído conta com gerador
movido pelo vento, o qual responderá por 70% da energia consumida. Até o ar
que entra no prédio será purificado e devolvido à rua, tornando-o uma
espécie de filtro. “O preço de tudo isso? Mais de US$ 1,3 bilhão”, indaga e
responde Freitas.
Enquanto isso, no Brasil, 23% do faturamento das distribuidoras de água é
escoado pelo ralo. As perdas ocorrem por conta dos roubos na rede,
lamentavelmente consentidos pela ausência de uma fiscalização séria.
F. C. C.
|
Abes pede atenção ao consumo |
Por ocasião da cerimônia de abertura oficial da Semana Interamericana da
Água, o presidente da Associação Brasileira de Engenharia de Saneamento no
Rio Grande do Sul (Abes-RS), Geraldo Portanova, assinalou que a celebração
tem como objetivo aprofundar as questões relativas à água nos diversos
níveis. Ele ressaltou as parcerias de sua entidade com a Secretaria Estadual
do Meio Ambiente e com apoio de instituições governamentais e
não-governamentais privadas.
O outro propósito é auxiliar no atendimento das metas desenhadas pela
comunidade internacional contidas na Agenda 21 e na Declaração do Milênio:
até 2015, reduzir em 50% o número de pessoas que não têm acesso à água
potável e ao saneamento básico. Portanova lembrou ainda que a Assembléia
Geral das Nações Unidas declarou 2008 como o Ano Internacional do
Saneamento. Há oito anos, a Semana Interamericana passou a ser celebrada com
a Semana Estadual da água. Neste ano, o tema foi: “A água lava, a água leva,
você limpa a água?”
|
 |
| Portanova: metas mundiais precisam
ser cumpridas no BR |
|
|