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TECNOLOGIA - Construção civil busca
alternativas sustentáveis
Se até bem pouco tempo atrás o principal desafio dos arquitetos,
urbanistas e designers era criar edifícios funcionais, seguros e harmônicos,
agora as palavras de ordem para esses profissionais também incluem a
responsabilidade social e o interesse público.
Para entender o quanto esses princípios interferem no cotidiano dos
empreendimentos europeus públicos e privados, basta pensar que, atualmente,
uma das designers mais premiadas do Velho Continente é a inglesa Hillary
Cottam, autora de projetos visionários como a construção de uma
penitenciária dotada de piscinas e salas de estudos para os seus detentos.
Da mesma maneira, no setor da construção civil, a existência de bairros ou
cidades totalmente ecológicos é cada vez mais freqüente. Um exemplo
emblemático de respeito ao meio ambiente reside em Friburgo, na Alemanha,
considerada a primeira cidade européia a projetar um bairro inteiramente
ecocompatível.
Tudo aquilo que para o habitante de uma grande metrópole ainda é uma utopia,
em Friburgo é tangível. Para ingressar em Vauban, bairro localizado na parte
sul da cidade, o visitante é convidado a estacionar o próprio veículo em um
local coberto com painéis de energia solar e depois caminhar a pé até o
centro.
Cerca de 90% dos estudantes de Friburgo utilizam a bicicleta como meio de
locomoção e, em menos de três décadas, o número de ciclovias de Vauban
cresceu exponencialmente, passando de 29 para 500 quilômetros. A sua rede
viária assume um papel tão importante no transporte local que os semáforos
da cidade foram programados para priorizar os meios de transporte elétricos,
reduzindo pela metade o tempo médio necessário para atravessá-la e, assim,
poluindo menos.
Seus cinco mil habitantes alimentam-se exclusivamente com produtos
provenientes da agricultura biológica, sem pesticidas, e, com um simples
clique, podem alugar qualquer um dos 16 automóveis da frota pública que
permanecem à disposição dos moradores do bairro. A cidade conta com 150
carros para cada mil habitantes, contra uma média de 450 registrada em
outras localidades do país.
Outra comodidade à disposição de seus habitantes é o acolhimento de
eventuais hóspedes em uma das casas de propriedade da comunidade; uma
maneira de evitar a construção de apartamentos maiores que poderiam
contribuir para o aumento das emissões de dióxido de carbono.
Em Vauban, um dos bairros alemães mais exigentes do ponto de vista
ambiental, é possível construir somente se o projeto arquitetônico inclui o
emprego de painéis de energia solar. Mais de um terço da energia consumida
na cidade é proveniente de uma central eólica. Em média, estima-se que uma
residência convencional alemã consuma cerca de 220 quilowats por hora de
energia, enquanto um apartamento de Vauban utiliza apenas quinze.
O modelo criado pela administração da cidade desperta tanta curiosidade que
prefeitos de outros países já visitaram Friburgo para conhecer de perto o
projeto alemão para reaplicá-lo em outras partes do mundo. “É o caso, por
exemplo, de Alain Juppé, prefeito de Bordeaux, na França, e de delegações do
Japão, Coréia do Sul e Índia”, revela Dieter Salomon, prefeito de Friburgo.
Na Inglaterra, outra iniciativa análoga é Bedzed (Beddington Zero Energy
Development), um conglomerado de 82 edifícios, entre eles uma creche,
projetados para reduzir ao mínimo as emissões de dióxido de carbono.
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foto: divulgação
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Conjunto de prédios da Peabody usa materiais
reciclados |
Criado por uma associação londrina responsável pela construção de casas
populares, a Peabody, o complexo utiliza materiais de origem natural ou
reciclados, como a madeira, certificada pelo reconhecido Forest Stewardship
Council.
Para conservar o calor, em Bedzed cada prédio foi projetado com paredes mais
espessas e janelas direcionadas para receber com mais eficiência a luz
solar. Além disso, o medidor de consumo de energia foi estrategicamente
instalado em local de fácil acesso para que cada morador ou inquilino, ao
vê-lo, conscientize-se de suas ações.
Na Escandinávia, Bo01 é um outro exemplo de como uma localidade em declínio
pode transformar-se em uma verdadeira cidade ecocompatível. Malmö, situada
na Suécia meridional, dependia da indústria naval, em crise, mas atualmente
é uma cidade colorida onde confundem-se mais de 40 estilos arquitetônicos
diferentes e toda a energia consumida é produzida graças a uma central
geotérmica, de painéis solares, e a uma central eólica.
Já na Itália, segundo os dados divulgados pela associação Legambiente, em
cerca de 172 cidades a chamada bioarquitetura já é uma realidade.
A pequena cidade de Dobbiaco, na província de Bolzano, ficou famosa por
conseguir cobrir 111% do seu consumo energético utilizando painéis
fotovoltaicos e uma estrutura destinada a queimar a lenha descartada de seus
bosques.
Outra localidade que transformou o respeito pelo meio ambiente e a
eficiência energética em metas obrigatórias é Granara, na província de
Parma. Antigo reduto de camponeses, Granara se tornou um território quase
abandonado porque a maioria de seus habitantes emigrou para a França,
Inglaterra e Estados Unidos. No entanto, para fugir de uma cidade grande
como Turim, um grupo de amigos escolheu este local para construir uma
pequena cidade ecológica. Na edificação de casas, construídas com pedras,
cada detalhe foi planejado para respeitar o ecossistema. Para evitar
infiltrações, as paredes foram revestidas com cera de abelha, os resíduos
orgânicos são empregados como fertilizantes e os banheiros foram projetados
como sanitários compostáveis.
A bioarquitetura também é um tema muito presente nas discussões em âmbito
institucional. Uma norma promulgada pela União Européia estabelece que, além
de observar a estabilidade da obra, a segurança da estrutura, a sua higiene
e proteção contra a poluição acústica, um arquiteto também deve evitar a
dispersão térmica e garantir a eficiência energética da própria obra – daí a
exigência de avaliar a temperatura superficial dos materiais utilizados, a
preferência por materiais como tintas à base de água ou de pigmentos
naturais, do cimento capaz de absorver o CO2, argila, móveis à base de
tecidos vegetais ou revestimentos à base de cortiça.
A consciência sobre a importância desse tema também deu origem ao Istituto
Nazionale di Bioarchitetura, especializado em aproximar a ecologia do setor
da construção civil. E, se para muitos de nós um habitat totalmente
projetado pela bioarquitetura ainda parece distante, nos Emirados Árabes
Unidos, a empresa britânica Foster & Partners está projetando Masdar, uma
cidade para 50 mil habitantes onde só circularão carros e meios de
transporte público movidos a eletricidade.
Além de uma grande central fotovoltaica de 40 megawatts e água desalinizada
proveniente de uma estrutura alimentada pelo sol, o projeto também inclui a
reciclagem de 99% dos resíduos da cidade e deverá ser finalizado em 2012.
Anelise Sanchez
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