BIO & FARMA

Alvos potenciais estimulam desenvolvimento
de novos anticancerígenos

N
ovas estratégias de combate ao câncer estão ajudando a criar um ambiente otimista entre pesquisadores e prenunciam o surgimento de fármacos úteis, alguns deles já em ensaios clínicos. Moléculas como nutlinas e tenovinas poderão ser viabilizadas como novos fármacos a tempo de enfrentar o preocupante crescimento na incidência da doença, associada a elevações na expectativa de vida da população. Para a Organização Mundial da Saúde, OMS, neoplasias provocarão cerca de 16 milhões de mortes em 2020, mais que o dobro das 7 milhões de mortes (12,5% do total de mortes no ano) registradas em 2008.
Michael S. Nothenberg é Doutor em Química, Mestre em Farmácia, professor universitário e jornalista - msnothenberg@gmail.com


Guardiões do genoma – A proteína celular p53 – o algarismo representa o tamanho da molécula em quiloDaltons (kD) – é alvo prioritário em alguns dos ensaios em andamento. Não é de hoje que se estuda a proteína, descoberta do prof. Sir David Lane, da Universidade de Dundee, Escócia, em 1979. Suas funcionalidades incluem fiscalizar a correção de seqüências de nucleotídios nas fitas de DNA e, no caso de detectar erro, colocar a célula mutante em estado dormente, evitando sua proliferação, dando tempo para que mecanismos de reparo promovam trocas, adições ou remoções de nucleotídios com o objetivo de recuperar a seqüência original do DNA. A laboriosa proteína, porém, não pára aí. Ao verificar a inviabilidade de reparo, determina a autodestruição da célula (apoptose). As macromoléculas fazem mais que justiça ao apelido de guardiões do genoma.

Pesquisas com a p53 ganharam peso quando se verificou que a proteína está ausente ou se encontra inativada em cerca de 50% das células tumorais investigadas. Explica-se, assim, a proliferação acelerada de tumores, bem como a ocorrência de neoplasias resistentes às atuais técnicas quimioterápicas.

Há diversas possibilidades para se recuperar a concentração de p53 nas células e, em decorrência, promover a resistência celular a tumores. A primeira consiste na terapia genética tradicional, incorporando genes que expressam a proteína ausente ou alterada ao material genético de células. Estas voltariam então a produzir a p53 antes ausente ou defeituosa. O recurso da terapia genética tem a vantagem de restaurar concentrações intracelulares apropriadas da proteína, independentemente da causa de sua inatividade, incluindo mutações.

Figura 1 – Proteína mdm2 libera a proteína p53 quando se faz necessário. A ativação da p53 é forçada pelas nutlinas, que ocupam o sítio da interação entre as duas proteínas. O complexo p53-mdm2 é degradado por proteasomas (enzimas hidrolíticas).



Nutlinas - Outras estratégias, promissoras a médio prazo, interferem com mecanismos bioquímicos utilizados pelas células para controlar a hiperatividade da p53. Um dos protagonistas deste processo é uma proteína denominada mdm2 (murine double minute 2, nome originado do fato de ter sido originalmente identificada como expressão do gene MDM2, no cromossomo 12 de rato; a homóloga humana é chamada hdm2). A proteína mdm2 atua associando-se à molécula p53, impedindo a manifestação desta última e promovendo sua posterior destruição (Figura 1). Com base no estudo cristalográfico do complexo p53-mdm2 realizado em 2004, Lyubomir Vassilev e uma equipe de pesquisadores da Hoffmann-La Roche determinaram que a interação entre as duas macromoléculas se dá por meio de uma cavidade hidrofóbica (lipofílica) presente na proteína controladora e que, se bloqueada, poderia impedir a ligação, elevando a disponibilidade de p53 nas células do organismo. Pesquisas também indicaram que a cavidade é normalmente preenchida por um segmento da p53 contendo três aminoácidos: fenilalanina, leucina e triptofano. O passo seguinte foi selecionar pequenas moléculas portando alguma semelhança estrutural com os grupos laterais destes aminoácidos e que exibissem afinidade similar pela cavidade, efetivando seu bloqueio. Assim surgiram as nutlinas, grupo de cis-imidazolinas (Figura 2), batizadas para lembrar a cidade de Nutley, NJ, sede do centro de pesquisas da Roche nos Estados Unidos.

Como seria de se esperar, ensaios demonstraram que nutlinas apresentam atividade acentuada sobre células tumorais nas quais ocorra superexpressão de mdm2 e a proteína p53 não seja mutante. Estudo publicado por pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT, Cambridge, MA) em 2007 (1) demonstrou que linfomas (cânceres envolvendo células brancas do sangue) entraram em apoptose um a dois dias após a reativação da p53. Já em sarcomas, que afetam tecido conectivo, nutlinas aparentemente optam por outra via de ação, forçando as células a entrar em estado letárgico, sem proliferação, antes de determinar sua destruição. Igualmente animadora foi a observação da ocorrência de efeito sinérgico de nutlinas com quimioterápicos, como fludarabina e clorambucil. Não foram observados efeitos negativos dos futuros fármacos sobre células normais, estabelecendo-se também sua capacidade de atravessar membranas celulares, permitindo administração por via oral.

Figura 2 – Nutlinas ativas possuem substituintes
volumosos nas posições 4 e 5 do anel imidazolínico,
direcionados para o mesmo lado (cis), de forma a melhor bloquear a fenda hidrofóbica do alvo, proteína mdm2. A nutlina-3 apresenta concentração inibitória (IC50) de 0.09 µM, a mais baixa do grupo, propiciando maior atividade.

 

 

 

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