NANOTEC 2008 - revista química e derivados - editora qd

Indústria e pesquisa ensaiam aproximação

Texto de José Paulo Sant’Anna e fotos de Cuca Jorge

 

No Brasil, a distância entre academia e indústria é enorme. Para se ter uma idéia, por aqui, a iniciativa privada contrata apenas 16% dos cientistas formados pelas instituições de ensino superior. Nos países avançados, esse número se encontra na casa dos 80%.

Qual a importância de se investir em alta tecnologia? “A pesquisa e o desenvolvimento são diferenciais do desenvolvimento econômico. Em torno de 55% do PIB norte-americano provém da alta tecnologia”, respondeu em sua palestra José Ricardo Roriz, diretor de competitividade e tecnologia da Fiesp.

A relação entre academia e indústria no Brasil foi o tema central da quarta edição da Nanotec, congresso e exposição de nanotecnologia, realizado entre os dias 12 e 14 de novembro, em São Paulo.

Roriz: burocracia oficial inibe desenvolvimento de pesquisas

O evento foi organizado pela Promove Eventos e contou com o apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia, da Secretaria de Desenvolvimento do Estado de São Paulo, do Finep, Inmetro, ABNT e das entidades patronais Fiesp, Abiquim (indústria química), Abiplast (plásticos), Abit (indústria têxtil), Abinee (elétrica e eletrônica), Abimaq (máquinas) e Sindipeças (autopeças).
 

Têxteis e bens duráveis utilizam nanoprodutos

Como forma de incentivar o diálogo da ciência com a tecnologia, durante o congresso, vários institutos de ensino tiveram a oportunidade de apresentar seus projetos diretamente aos empresários presentes ao evento. “Com essa iniciativa queremos aproximar as duas partes, para que o Brasil no futuro não se torne tão dependente da importação de produtos nanotecnológicos”, justificou Ronaldo Marchese, presidente da Promove.

O tema foi dos mais pertinentes se avaliarmos o atual cenário. De acordo com pesquisa publicada pela Lux Research, consultoria de negócios voltados para nanotecnologia, em 2007, o mercado de “nanoprodutos” movimentou US$ 88 bilhões somente nos Estados Unidos. Para a consultoria, esse mercado deve atingir a casa dos US$ 3,1 trilhões em todo o mundo em 2015.

Qual será a participação do Brasil nesse polpudo nicho de negócios? Caso as coisas continuem como estão, muito pífia. Por aqui, poucas empresas estão prestando atenção nesse potencial econômico. No país, calcula-se que houve investimento em pesquisa e desenvolvimento de nanotecnologia de R$ 200 milhões nos últimos quatro anos. Em torno de 75% dessa cifra foi disponibilizada pelo governo federal, que conta com programa nacional para desenvolver o tema. A cifra é muito modesta em relação aos investimentos feitos em outros países. A participação da iniciativa privada, muito forte no exterior, por aqui é inexpressiva.

“A nanotecnologia será um fator estratégico para a competitividade dos países no século XXI. E estamos caminhando em passos muito lentos em relação a outros países”, reconheceu Roriz. O diretor da Fiesp informou que a nanotecnologia é considerada política de estado nos Estados Unidos, ela está diretamente ligada ao gabinete presidencial e tem cuidados comparáveis ao do antigo Projeto Apolo, que acabou levando o homem à Lua. Os investimentos governamentais foram superiores a US$ 1,3 bilhão em 2006. Em número de patentes, em 2005, os Estados Unidos já colecionavam 1,3 mil.

Na Europa, Alemanha, França, Suíça e Inglaterra não poupam esforços. Na União Européia, o programa de investimentos no período de 2002 a 2006 ficou na casa dos US$ 1,6 bilhão. Para o período entre 2007 e 2013 estão previstos US$ 5 bilhões. Na Rússia, foi lançado um programa nacional em 2007 com capital inicial de US$ 5 bilhões. O mesmo clima contagia países asiáticos, como Japão, Coréia do Sul e a gigante China.

Para o diretor da Fiesp, a mudança no quadro nacional se dará a partir da adoção de algumas atitudes. Uma delas seria o maior incentivo para a formação de técnicos em química, física e de engenheiros. “Na China, de cada cem formandos de nível superior, 40 são engenheiros. No Brasil, a média está entre sete e oito”, disse Roriz. O financiamento da pesquisa e do desenvolvimento deveria ser simplificado. “O governo precisa rever os processos burocráticos que afastam e inibem investimentos privados”, avaliou.

O número de empresas interessadas em investir precisa se multiplicar. “Hoje temos poucas empresas com essa preocupação, como Petrobras, Quattor, Braskem, O Boticário, Cedro Cachoeira”, exemplificou. “Temos de agir com urgência. Hoje a nanotecnologia oferece uma oportunidade, amanhã pode virar uma ameaça. O Brasil será dependente se não acordar logo”, resumiu Roriz.

Revolução – A nanotecnologia representa a quinta revolução industrial. A primeira ocorreu com o avanço da indústria têxtil, em 1800. A segunda, com o avanço do transporte ferroviário, a partir de 1853. A indústria automotiva, em 1913, representou a próxima etapa, seguida pelo advento do computador, em 1969. A opinião foi apresentada por Mario Baibich, coordenador geral de micro e nanotecnologia do Ministério de Ciência e Tecnologia.

Para Baibich, a importância do tema não tem passado em branco pelo governo federal. Tudo começou no final dos anos 90. Alguns fatos marcantes contam essa história. Em 2001, foram criadas quatro redes de pesquisas cujo objetivo era a troca de informações sobre estudos realizados por inúmeros institutos especializados e universidades. Cada uma dessas redes era responsável pelo desenvolvimento de estudos em assuntos específicos.

Em 2003, foi criado o Programa de Desenvolvimento da Nanociência e da Nanotecnologia. O número de redes de pesquisa foi ampliado para dez em 2005. Também foram feitos investimentos para desenvolver laboratórios de apoio à pesquisa, como o Laboratório Nacional de Luz Sincrotron. O esforço já resultou em mais de mil artigos técnicos, mais de cem patentes desenvolvidas e em torno de 50 produtos já comercializados ou próximos de chegarem ao mercado.

Estão previstos investimentos governamentais da ordem de R$ 69,99 milhões para a área de nanociência no período de 2007 a 2010. Os próximos passos a serem dados pelo MCT são dirigidos a fazer com que a indústria passe a trabalhar de forma mais próxima do ministério. Nesse sentido, estão sendo traçadas algumas estratégias. Entre elas, implantar novos laboratórios regionais e centros de excelência nas várias regiões do país, apoiar a incubação de empresas especializadas, incentivar o depósito de patentes e apoiar a formação de jovens pesquisadores.

Dinheiro e dificuldades – Ao contrário do que muitos pensam, existem fontes de financiamento a taxas de juros razoáveis para as empresas interessadas em investir em nanotecnologia. Pelo menos é o que garantiram alguns representantes de órgãos governamentais de fomento ao desenvolvimento. João Paulo Carneiro Braga, economista do departamento de programas e políticas do BNDES, revelou que a linha de crédito voltada para a inovação tecnológica está orçada em R$ 6 bilhões entre 2008 e 2010, a uma taxa fixa de 4,5%.

Já a Finep, de acordo com o secretário técnico Alexandre Barragat, oferece linha de crédito de R$ 3,5 bilhões em 2009, prevista pelo Programa Inova. Vale ressaltar que o programa não prevê apenas a área de nanotecnologia. “Quero destacar que estamos tendo muito mais orçamento do que demanda”, lamentou Barragat. Ele informou que dentro do orçamento de 2008, de quase R$ 3 bilhões, foram aprovados apenas R$ 93 mil para investimentos em nanotecnologia. “Uma cifra muito pequena para um país com sede de crescimento”, comentou.

Dinheiro sempre é tema polêmico. Essa disponibilidade financeira anunciada por representantes de órgãos de fomento à tecnologia não convenceu muito alguns representantes empresariais presentes no encontro. Eles não duvidam que os recursos existam. Mas reclamam da gigantesca burocracia exigida para a liberação.
 

Entre esses empresários se encontra Ricardo Max Jacob, presidente da indústria de transformação Mueller e do Conselho da Abiplast. “O dinheiro existe, mas nunca chega aos empresários”, resumiu. A Mueller é uma das pouquíssimas transformadoras de peças plásticas por injeção a investir em nanotecnologia no Brasil. A empresa vem realizando nos últimos anos várias experiências, como o desenvolvimento de algumas peças para montadoras. O exemplo mais recente foi o capô de um veículo apresentado na última edição do Salão do Automóvel, desenvolvido em parceria com a Embrapa e feito de compósito de polipropileno com nanopartículas de casca de sisal.

De acordo com Jacob, essa idéia de que é necessário investir em pesquisa e desenvolvimento é maravilhosa, no campo da retórica. Na prática, no entanto, as coisas não são tão fáceis. Para exemplificar, lembra de uma peça do bagageiro do Fiat Idea, que a Mueller conseguiu fabricar com um composto de polipropileno com nanopartículas de argila.

Jacob: iniciativa privada não recebe os incentivos oficiais

A peça é mais barata e mais leve do que a metálica hoje utilizada pela montadora, além de ser reciclável. “Mesmo assim, nosso estudo não foi levado em consideração”, reclamou. De qualquer forma, o esforço já apresentou recompensa. A Mueller firmou convênio com importante escritório internacional de design, que vai utilizar os conhecimentos de nanotecnologia adquiridos pela empresa para a fabricação de móveis de plástico.

 

 

 

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