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PETROQUÍMICA |
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Consolidação ajudará setor a
vencer período de crise global
Marcelo Fairbanks |
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Em apenas dois meses, a indústria petroquímica mundial saltou do pico
histórico de demanda para o abismo de uma possível recessão. Desde o
estouro da chamada “bolha do subprime”, os efeitos da crise financeira
internacional se propagam pelo mundo. As restrições ao crédito
expulsaram os consumidores da cena econômica, sepultando a demanda por
derivados petroquímicos. Começaram a aparecer em novembro os primeiros
anúncios de paralisação temporária ou fechamento definitivo de
unidades produtivas do setor, especialmente na Europa e nos Estados
Unidos.
Em parte, esses fechamentos podem ser justificados pela necessária
substituição de unidades antigas pelas novas, maiores e mais
eficientes, portanto com vantagens competitivas. Porém o gatilho do
processo foi acionado pela queda abrupta e significativa do consumo de
bens, a exemplo dos automóveis, situação que ameaça levar à falência
os fabricantes de veículos de Detroit (Michigan, EUA).
A reação imediata do setor petroquímico deu prioridade ao corte de
custos e de produção. Além disso, projetos de novas unidades que ainda
estavam “verdes” foram postergados. A retomada dos investimentos só
será efetivada quando a crise for debelada e a demanda emitir sinais
inequívocos de recuperação.
A duração dessa crise global vai determinar sua interpretação futura
como benéfica ou deletéria para a atividade industrial. Há quem
defenda essa restrição de demanda como favorável a toda a cadeia
produtiva, caso sua duração não exceda o prazo de alguns meses, por
exemplo, até abril de 2009. Essa visão é explicada pelo fato de a
economia mundial ter crescido com um vigor além do razoável (e
sustentável) no último decênio, estimulada artificialmente pelo
crédito farto e barato oferecido nas maiores economias do planeta. A
superdosagem do anabolizante provocou a disparada nos preços das
commodities, exigindo a aceleração dos investimentos em praticamente
todos os setores. Esse quadro atirou para as nuvens a cotação do aço,
do petróleo e dos serviços de engenharia e montagens, a ponto de
inviabilizar ou de atrasar a execução de alguns produtos
petroquímicos.
Seguindo essa linha de raciocínio, para outros considerada
exageradamente panglossiana, uma crise global rápida funcionaria como
um “freio de arrumação” capaz de eliminar os exageros e introduzir uma
certa racionalidade no mercado. Porém, como não se sabe ainda quando e
com que magnitude a economia mundial voltará a crescer, muitos só
enxergam nuvens sombrias no horizonte.
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É a hipótese do círculo vicioso da
redução de demanda que provoca a paralisação de fábricas e o corte
dos novos investimentos, fatos indutores de ondas de desemprego
que alimentam a redução de demanda, e assim por diante. “Toda a indústria química brasileira vinha operando bem, com alta
ocupação de capacidades, até setembro, quando estourou a crise”,
comentou Nélson Pereira dos Reis, vice-presidente-executivo da
Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) e presidente do
Sindicato da Indústria de Produtos Químicos do Estado de São Paulo (Sinproquim).
Até setembro, o consumo aparente de produtos do setor cresceu 10% em
relação ao mesmo período do ano anterior. Ele prevê que os resultados
do quarto trimestre devem ser muito influenciados pela situação
global, porque parte significativa da produção nacional é exportada. |
| Reis: agenda do Reach será mantida, apesar da
crise |
No entanto, Reis espera que a desvalorização do real em relação ao
dólar consiga proteger a produção nacional contra a entrada de
produtos importados, garantindo alguma estabilidade. “Sofremos muito
com o dólar abaixo de R$ 1,60 e fizemos esforços para ganhar
competitividade”, comentou. Sua expectativa para o câmbio aponta para
a faixa entre R$ 2,00 e R$ 2,20 por dólar durante 2009.
A análise das entidades setoriais transfere para o comportamento do
mercado interno a responsabilidade de manter a ocupação das linhas
químicas e petroquímicas. Segundo Reis, o poder de compra dos
brasileiros não deve ser afetado até o final de 2008, por causa da
combinação de preços das matérias-primas em queda acelerada com o
estímulo ao crédito para os consumidores (com uma desejável, mas não
garantida, redução de taxas de juros).
De qualquer forma, Reis informou que todas as indústrias químicas
revisam seu planejamento para 2009, incorporando nas análises suas
percepções quanto aos efeitos da crise mundial. Citando como exemplo
os fertilizantes para agricultura, ele apontou mudanças radicais. “Os
nitrogenados, dependentes do gás natural e do petróleo, estão com
preços em queda, situação semelhante à do enxofre, que foi caro demais
durante 2008; mas os potássicos e fosfatados mantiveram seus preços”,
comentou. “São situações novas que exigem repensar toda a atividade.”
Será determinante para a petroquímica nacional a postura a ser adotada
pela Petrobras, que ainda não concluiu a revisão anual do seu plano de
negócios, geralmente divulgada em agosto. “Como fornecedora das
matérias-primas principais, a estatal dará o norte para o setor”,
afirmou. Uma decisão aguardada com ansiedade é a definição do modelo
empresarial e do cronograma do Comperj, o complexo petroquímico
liderado pela Petrobras e pelo grupo Ultra em Itaboraí-RJ, que
transformará petróleo pesado em insumos petroquímicos (olefinas e
aromáticos).
Pelo menos, a indústria brasileira fez sua “lição de casa” nos últimos
anos, fato que se traduz na consolidação empresarial. Duas grandes
empresas – Braskem e Quattor, ambas com participação relevante da
Petrobras – dominam o cenário petroquímico nacional, a começar pelas
centrais petroquímicas e com destaque para a produção de polietileno e
polipropileno. “Essa consolidação proporcionou um ganho de
competitividade para o setor que ajudará a enfrentar as dificuldades
atuais”, afirmou Reis.
| A queda do preço do petróleo reduz o diferencial de custos
petroquímicos entre países com forte produção própria da matéria-prima
e os importadores. “Entendemos que o quadro atual favorece a
regionalização do mercado do setor, aproveitando as vantagens
logísticas proporcionadas pela proximidade geográfica entre produtores
e consumidores”, afirmou o presidente da Quattor, Vitor Mallmann. Em âmbito internacional, além da crise econômica, o dirigente setorial
aponta dois pontos para os quais a indústria química nacional deve
manter atenção redobrada: a revisão do Protocolo de Kyoto (sobre o
controle das emissões de gases geradores do efeito estufa) e o sistema
europeu Reach. |
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| Mallmann: petróleo barato conduz à
regionalização |
“O Protocolo de Kyoto só vale até 2012, e as discussões
sobre a sua renovação começam em 2009 e devem estabelecer uma meta de
redução de emissões para o Brasil e outros emergentes”, explicou Reis.
Os estudos apontam que, ao contrário dos países desenvolvidos, o maior
problema nacional nesse caso está ligado ao desmatamento e não às
atividades industriais. Por isso, ele recomenda atuar com firmeza para
evitar danos ao setor químico, exigindo o uso exclusivo de madeira
certificada e sua fiscalização.
Ainda no campo ambiental, o dirigente considera importante participar
dos debates sobre a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que ocorrem
em um grupo de trabalho na Câmara dos Deputados. O ponto nevrálgico é
a determinação de quem deve ser responsabilizado pela destinação do
material pós-consumo, especialmente as embalagens. “A indústria
química não fugirá das suas responsabilidades, mas os demais elos da
cadeia produtiva também devem assumir seus encargos”, afirmou,
elogiando os esforços da Plastivida na busca de soluções sustentáveis
para o setor de plásticos.
O sistema Reach de controle de substâncias perigosas, por sua vez,
poderá constituir, no futuro, uma grave ameaça às exportações de
produtos químicos e artigos finais para a Europa. “Não é uma barreira
comercial propriamente dita, porque também se aplica aos produtos
europeus, mas poderá funcionar como se fosse”, disse. O setor químico
convida os órgãos governamentais brasileiros a um maior envolvimento
nas discussões. Do ponto de vista da indústria química, uma regulação
mundial sobre produtos perigosos é desejável, porém os estudos
apontavam para um processo lento de implementação, esperado para 2020.
O Reach foi implantado com velocidade muito alta. A partir de janeiro
não será admitida a entrada de produtos químicos que não tiverem sido
pré-cadastrados até 1º de dezembro de 2008.
Começa, agora, a fase de análises e registros definitivos dos produtos
químicos, etapa que deverá consumir alguns anos de trabalho. Reis
acredita que os esforços europeus devem ser intensificados, mesmo com
um provável recrudescimento da crise econômica mundial. “O programa
tem uma agenda própria”, explicou.
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