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Indústria busca melhores
padrões de qualidade com
regulamentação própria
Texto de Márcio Azevedo e fotos de Cuca Jorge
A falta de leis fundamentadas em critérios técnicos sempre foi um dos
motivos apontados para explicar a baixa penetração de algumas
tecnologias ambientalmente “amigáveis” no Brasil. A omissão
legislativa também é citada quando são examinadas práticas de
comercialização danosas ou desonestas, exercidas em segmentos
econômicos confiados ao bel-prazer de seus agentes. Sentindo
dificuldades para sensibilizar legisladores, a indústria brasileira
está criando, em seu próprio seio, mecanismos para modificar a
situação. A auto-regulamentação, preenchendo o vácuo deixado pelo
Poder Público, é um caminho eleito pelos industriais para atingir
padrões mínimos na produção nacional. A iniciativa surgida nos
próprios elos da cadeia produtiva, de modo semelhante, pode
desequilibrar o marasmo regulatório em favor de regras mais claras no
comércio.
Um exemplo desse posicionamento pró-ativo é observado no setor de
tintas. Apesar da entrada em vigor, no início de 2009, da lei federal
11.762/08, que limita o teor de chumbo em tintas imobiliárias, de uso
infantil e escolar, vernizes e materiais similares a 0,06% (e, na
prática, bane o metal), o segmento carece de legislação estabelecendo
controles sobre insumos e qualidade dos bens finais. Porém as mesmas
tintas imobiliárias são contempladas por um programa setorial de
qualidade coordenado pela Associação Brasileira dos Fabricantes de
Tintas (Abrafati).
A participação no programa é voluntária para não associados, portanto
seu poder de persuasão é limitado. Mas esse tipo de acordo setorial
pode se tornar o embrião de um projeto da Associação Brasileira de
Normas Técnicas (ABNT), que, se aprovado, tem força de lei investida
pelo Código de Defesa do Consumidor. Nesse cenário, aquilo que começa
como o compromisso de alguns competidores pode resultar em obrigação
para todo o mercado.
VOCs – Um tema que deverá ser objeto de auto-regulamentação é o das
emissões de compostos orgânicos voláteis (VOCs, na sigla em inglês). A
denominação engloba diversas substâncias que reagem fotoquimicamente
com óxidos nitrosos (NOx) na troposfera, a camada de ar com espessura
média de 10 km logo acima da superfície terrestre. Esse processo forma
ozônio, principal componente do smog fotoquímico. Embora não exista um
critério técnico único para a definição de VOCs, muitos solventes são
assim considerados, de sorte que a indústria de tintas,
historicamente, a maior consumidora do insumo industrial, é um dos
setores intensamente envolvidos nas discussões sobre a emissão de
voláteis. Europa e Estados Unidos já possuem regras para reduzi-la, e
o Brasil está próximo de adotar um controle maior sobre esse quesito.
Um comitê científico da Abrafati vem discutindo o assunto. Segundo
Luis Manoel R. Mota, consultor que participa das reuniões na
associação, foram definidos internamente os limites de VOCs para as
tintas decorativas.
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O mercado de pintura automotiva,
original e repintura, outro segmento importante no consumo de tintas, ainda
aguarda definições, mas Mota acredita que até o início de 2009 o
consenso será obtido. Na repintura automotiva se torna mais complexo
fechar uma posição em torno dos valores a serem permitidos, pois há
uma infinidade de empresas, muitas pequenas e médias, que precisam de
tempo para se adaptar às novas tecnologias, necessárias para
satisfazer critérios mais rígidos. |
| Mota: Brasil deverá optar por definição
européia de VOCs |
Outro ponto sensível é a definição de VOCs a ser seguida pelo Brasil.
A Europa considera como composto orgânico volátil aquele que possui
ponto de evaporação inferior a 250ºC. Para os americanos, a
denominação corresponde à quantidade de material que evapora em uma
hora, à temperatura de 100ºC. Além disso, há questionamentos sobre
esses parâmetros. Um dos argumentos é que a classificação das
substâncias deveria se basear na reatividade fotoquímica delas com o
NOx da troposfera para considerá-las como VOCs ou não. Pelas palavras
de Mota, o comitê científico da Abrafati tende a adotar o critério
europeu, uma vez que o Brasil já segue outros modelos europeus
relacionados, como o Sistema Global Harmonizado de Classificação e
Rotulagem de Produtos Químicos (GHS, em inglês) e a Ficha de
Informação de Segurança de Produto Químico (FISPQ).
Mesmo sem regulamentação anterior, alguns segmentos de tintas, como as
utilizadas na construção civil, já possuem conteúdo de VOCs muito
próximos daqueles de tintas comercializadas nos Estados Unidos e na
Europa. “Com esse processo de padronização que a Abrafati começou,
temos produtos no mercado imobiliário com qualidade similar aos de
fora”, diz Mota, apresentando um comparativo contendo empresas
associadas que representam a maior parte do mercado brasileiro.
Esmaltes sintéticos e vernizes apresentam discrepâncias maiores, mas
as diferenças não são gritantes. Pelos planos que estão sendo traçados
na entidade setorial, as restrições a VOCs deverão manter o Brasil com
atraso de apenas dois a três anos perante as limitações praticadas na
Europa. Implantada a auto-regulamentação, a Abrafati ganha experiência
no assunto, e pode propor uma norma brasileira baseada em sua
iniciativa, como faz no caso do programa setorial de qualidade.
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Basso, Vincenzo e Urenhiuki: Eastman atende
mercado com novo time |
Correção de rota – Se há uns poucos anos o ânimo local para absorver
solventes menos agressivos ao meio ambiente esbarrava na pouca
consciência ambiental dos clientes brasileiros, nos seus bolsos com
pouco dinheiro e na falta de leis, é notória, segundo fornecedores de
solventes, a mudança do cenário no mercado nacional. “Há um
comprometimento das empresas em oferecer alternativas melhores. O
mercado está muito mais sensível a questões ambientais, e a
conscientização do usuário final cresceu”, atesta Marcos Basso,
gerente de desenvolvimento de mercado para a América Latina da
Eastman. A empresa fornece solventes oxigenados importados para o
mercado brasileiro, sendo alguns de seus principais produtos glicóis
éteres (EEH), éter ésteres (EP e EEP), ésteres (IBIB) e cetonas (MAK,
MIAK e MPK), obtidos pela tecnologia de gaseificação de carvão coque.
O foco principal são as especialidades. No segmento de commodities, a
fornecedora concentra-se apenas em alguns nichos. Com o bom desempenho
dos segmentos de construção civil e automobilístico, que puxam o
consumo de tintas e, conseqüentemente, o de solventes, até meados de
setembro a Eastman vai cumprir em 2008 sua meta de crescimento mínimo
de 10% ao ano, estabelecida até 2010. Em alguns mercados, a empresa
chegou a dobrar de tamanho em quatro anos, um crescimento anual da
ordem de 19%. No entanto, conforme Fernando de Vincenzo, gerente de
negócios - tintas, o crescimento da empresa, acima da média do
mercado, está mais ligado à forma de atuação da companhia, que tem
privilegiado a aproximação aos clientes por meio de uma estrutura que
passou a contar com apoio comercial, de desenvolvimento de mercado e
técnico. Há algum tempo, essa estrutura contava apenas com um
colaborador, mas foi ampliada para três. É uma intensificação que
inclui, além do fornecimento puro e simples, a oferta de serviços,
logística (com auxílio de distribuidores), soluções técnicas e
relacionamentos de longo prazo. Esse approach proporcionou crescimento
em linhas como as de cetonas para formulações de altos sólidos, e
acetatos e glicóis utilizados em diversos segmentos de tintas.
A necessidade local pela fabricação de tintas com quesitos técnicos
melhores, como baixa emissão de VOCs, decorrente da premissa de
adequação a mercados de exportação, também contribuiu para as vendas
de produtos da Eastman. É o caso do n-butil-propionato que, segundo
Renan Urenhiuki, representante de desenvolvimento técnico - tintas
para a América Latina, foi desenvolvido (assim como o propionato de
propila) para a substituição de xilol e toluol em formulações de
tintas. O éster era apenas uma aposta há algum tempo, mas a melhoria
da qualidade das tintas voltadas à exportação tornou sua
comercialização uma realidade. As tintas destinadas ao mercado local,
se houver demanda, também poderiam utilizar o substituto, mas há uma
dificuldade: o n-butil-propionato é um solvente, grosso modo, com
desempenho intermediário entre o xilol, um aromático com alta emissão
de VOCs, e as cetonas, cuja reatividade é bastante baixa. Porém, no
Brasil, praticamente não há aplicações que se situam nesse meio termo
de desempenho. “No momento em que regulamentações locais provocarem
necessidade por formulações adequadas a padrões mais restritos, haverá
grande demanda por esse produto”, explica Urenhiuki. Mesmo nessa
hipótese, entretanto, é preciso se levar em consideração o impacto
econômico que a troca de uma matéria-prima por outra mais cara
acarreta, reduzindo a velocidade do processo de substituição.
Esse movimento de aposentadoria de solventes aromáticos, agressivos à
saúde humana e ao meio ambiente, ainda é o principal foco de
substituição no país. Particularmente no caso do tolueno, diversas
empresas buscam formulações livres da substância indesejada,
principalmente grandes corporações que “importam” as restrições em
vigor em seus mercados de origem. Alguns glicóis, como o etilglicol,
também experimentam esse crescimento de rejeição.
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