Vendas dos produtos
de beleza e higiene
pessoal espantam a
ideia de crise


Rose de Moraes

A vaidade e a higiene pessoal estiveram em alta entre os brasileiros em 2008. As receitas advindas das vendas ao consumidor de cosméticos e de produtos de higiene no mercado interno no último ano deverão somar US$ 25,564 bilhões. O montante não só revela a saúde financeira do setor com percentuais de crescimento tanto em dólar (17,1%) quanto em real (10,4%) em 2008 em relação a 2007, mas também traz à tona a benfazeja perspectiva de continuidade do crescimento em 2009, porém, em níveis mais moderados.

“Vivemos um momento delicado na economia mundial, mas confesso estar otimista em relação ao desempenho do nosso setor e acredito na possibilidade de não termos de enfrentar queda no faturamento em dólar em 2009, caso, evidentemente, a moeda permaneça cotada nos níveis atuais (R$ 2,35), e, se isso se confirmar, a nossa indústria poderá crescer 5%”, informou João Carlos Basílio da Silva, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos, a Abihpec.

Em ritmo acelerado de crescimento há mais de uma década, o setor cosmético brasileiro é um dos mais  vigorosos da economia e vem

crescendo a taxas bem elevadas. Nos últimos doze anos, o crescimento real deflacionado foi de 10,2% ao ano, segundo apurou a Abihpec, levando o país ao terceiro lugar no ranking dos maiores consumidores de produtos cosméticos. Os dados de 2008 permitem pensar em ocupar a segunda posição mundial, ultrapassando o Japão. “Comenta-se que o mercado cosmético japonês entrou em recessão, mas eu não acredito que as perdas possam alcançar 15% ou 16% em dólar, o que possibilitaria o empate dos dois países na segunda posição. A nossa certeza, porém, é de que, em 2008, estaremos bem mais próximos dos resultados do Japão”, afirmou Basílio.

Em 2007, enquanto o faturamento das vendas de produtos de higiene e cosméticos no Brasil alcançava US$ 22,23 bilhões, o Japão registrava faturamento de US$ 30,50 bilhões nesse setor, sendo apenas suplantado pela liderança dos Estados Unidos que, naquele mesmo ano, faturou nada menos do que US$ 51,53 bilhões com a venda de produtos de beleza e de higiene pessoal.

As altas taxas de crescimento do setor cosmético no Brasil também são confirmadas por empresas especializadas em monitoramento de mercados. A consultoria global Nielsen registrou, entre 1994 e 2007, 176% de crescimento em volume no consumo de produtos de higiene e beleza no país. Em 2008, algumas indústrias mais atentas às variações de mercado e aos desastres financeiros iniciados nos Estados Unidos começaram a rever planos e estratégias para lidar com a leve queda mundial de 2,5% em volume em relação a 2007, na média total ponderada, conforme apurado pela empresa de consultoria.

Em muitos segmentos cosméticos e de higiene pessoal monitorados em quase todo o planeta, o crescimento de 2008 se revelou acentuado. Esse foi o caso de produtos como repelentes

Cuca Jorge

Basílio da Silva espera 5% de crescimento setorial em 2009

(44%), antissépticos bucais (23,7%), depilatórios (6,8%) e desodorantes para os pés (5,2%). Em outros, o crescimento permaneceu estável, a exemplo dos esmaltes para unhas (3,3%), cremes dentais (1,7%) e bronzeadores (0,3%). Outras categorias de produtos, mais afetadas pela retração no consumo, incluem as loções pós-barba (-9,5%), os cosméticos pós-xampus (-7,1%), os desodorantes (-4,5%) e os cremes para cuidados com a pele (-3,7%).

“Convivemos durante os últimos treze anos com um crescimento constante no setor, mas, a partir de 2008, alguns impactos começaram a ser observados em algumas categorias, com intensidade variável e dependente dos diferentes perfis econômicos encontrados nas regiões”, analisou Olegário Araújo, gerente de contas da Nielsen Brasil. De grande valia para as indústrias, uma das últimas pesquisas realizadas pela empresa levantou, em 36,5 milhões de domicílios urbanos, o comportamento de compra dos consumidores para dez itens de uma cesta básica de higiene e beleza, que inclui sabonetes, cremes dentais, xampus, desodorantes, escovas de dentes, bronzeadores, tinturas, produtos pós-xampus, absorventes higiênicos e papéis higiênicos.

A comparação dos resultados encontrados no primeiro semestre de 2008 com os do mesmo período de 2007 ajudou a identificar os hábitos e as preferências mais recentes de consumo das várias categorias de produtos. Segundo os resultados divulgados, em 2007, 98,2% dos consumidores escolheram os supermercados como locais de compra de cosméticos. A pesquisa de 2008 confirmou a preferência, com 98% de respostas positivas para o uso desse canal mercantil.

Em relação às compras realizadas em perfumarias, o comportamento dos compradores de um ano para outro também se manteve praticamente inalterado, com 31,2% dos domicílios efetuando compras nesses pontos-de-venda em 2007, contra 30,2% em 2008. Nas farmácias, as compras de produtos de higiene e

cosméticos apresentaram leve declínio. Efetivamente 43,8% dos domicílios pesquisados efetuaram compras nesses locais em 2007, caindo para 41,9% em 2008.

No entanto, o que mais chama a atenção na abrangente pesquisa é o crescimento das compras realizadas pelo sistema de vendas diretas no último ano. Chamado de venda porta a porta, esse canal mobiliza alguns milhões de seguidores em todas as regiões brasileiras, alcançou 35% dos domicílios pesquisados em 2007, e conquistou a preferência de 42,4% em 2008. “O crescimento da tradicional venda porta a porta foi sem dúvida o mais significativo e atraiu 2,7 milhões de novos lares compradores só no primeiro semestre de 2008”, salientou Araújo.

Cuca Jorge

Araújo: vendas porta a porta cresceram em
todo o país

Algumas categorias de produtos segmentadas pela pesquisa também revelaram informações muito interes­santes. Dos 2,7 milhões de lares que passaram para o sistema porta a porta em 2008, 1,2 milhão compraram desodorantes, desembolsando R$ 2,89 a mais em suas compras com essa categoria de produto.

A inserção de novos lares na compra de itens da cesta básica de higiene e beleza por intermédio do porta a porta também foi observada na compra de itens como pós-xampus, xampus e sabonetes. Exatamente 1,1 milhão de novos lares compraram por venda direta pós-xampus no primeiro semestre de 2008, desembolsando R$ 1,30 a mais nesse tipo de compra; 1,1 milhão de lares compraram xampus, efetuando acréscimos nas despesas de R$ 1,97; enquanto 975 mil lares utilizaram sabonetes adquiridos via porta a porta, acrescendo R$ 7,91 no total de despesas realizadas para a compra desses produtos de higiene pessoal.

“Todos esses lares contribuíram positivamente para o crescimento das vendas por intermédio do canal porta a porta, que alcançava 14,76 milhões de domicílios em 2007, passando a ser utilizado por 17,64 milhões em 2008, com 20% de crescimento”, calculou Araújo. Pelo estudo, as vendas pelo sistema porta a porta se destacaram em todas as regiões brasileiras. No interior paulista, onde as vendas diretas em 2007 alcançavam 27% dos municípios, mas chegaram a conquistar 45% em 2008, o resultado foi excepcional. Altos níveis de crescimento das vendas diretas também foram observados em Mato Grosso do Sul, Goiás e Distrito Federal, passando a envolver 64% dos municípios em 2008, percentual que era de 54% em 2007.

Além de abrirem mercado, as vendas diretas são um bom exemplo para que as empresas possam enfrentar períodos difíceis na economia. Como especialista, Araújo aconselha as indústrias cosméticas a ampliar a distribuição pelos vários canais de vendas, além de adotar estratégias específicas para a atuação nas diferentes modalidades comerciais.

Em 2009, será preciso redobrar a atenção ao desempenho dos vários canais, mas a indústria interessada em ampliar sua presença no mercado precisa se convencer de que não é possível direcionar cosméticos só para 21% dos domicílios pesquisados, representando as classes de consumo A e B. “O mercado exigirá cada vez mais produtos de qualidade para pessoas de todos os níveis socioeconômicos”, sentenciou o consultor.

 

 

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