P E T R O Q U Í M I C A

A indústria química brasileira, em sentido amplo, apresentou faturamento líquido de US$ 123 bilhões em 2008, segundo estimativas da Abiquim. Em sentido estrito, os chamados produtos químicos de uso industrial representaram US$ 61,6 bilhões, um acréscimo de 11,8% em relação ao desempenho de 2007. Em reais, o aumento foi de 3,3%, chegando a R$ 110,9 bilhões de faturamento líquido. A diferença de desempenho é explicada pela variação cambial do período.

Marcos De Marchi, presidente da Rhodia na América Latina e coordenador da comissão de assuntos econômicos da Abiquim, apontou uma queda de 8,1% na produção física e de 9,1% nas vendas internas do setor. “Essa retração é explicada pela queda de demanda no quarto trimestre e pelas paradas programadas das centrais petroquímicas durante o ano”, explicou De Marchi.

Todos os anos, o quarto trimestre apresenta uma redução de produção e de vendas avaliada, em média, entre 5% e 10%. Em 2008, a queda foi ainda maior, segundo a Abiquim. Como o faturamento cresceu a despeito da queda de vendas, pode-se inferir que os preços médios cresceram durante o ano, pelo menos até outubro.

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De Marchi: paradas das centrais e da demanda frearam a produção

A balança comercial do setor químico nacional manteve a tendência deficitária, com importações US$ 19,8 bilhões superiores às exportações. “Os importados respondem por 28% do consumo aparente nacional de produtos acompanhados pela entidade”, informou De Marchi.

“A indústria química brasileira exporta muito, foram US$ 10,4 bilhões em 2008, 6% de toda a exportação nacional”, afirmou Carlos Mariani Bittencourt, presidente do conselho diretivo da Abiquim. “Porém representamos 20% de todas as importações nacionais.” Ele lamentou que, apesar de todos os esforços do setor, os investimentos recentes e em curso não serão suficientes para acompanhar o crescimento da demanda nacional, exigindo manter esse déficit. Apesar disso, ele considerou 2008 como um bom ano para o setor, cujo faturamento líquido permitirá subir alguns postos no ranking mundial. Em 2007, o Brasil ficou em nono lugar, muito perto da Itália.

Em análise sucinta, Mariani citou o setor farmacêutico, que representa 14% do faturamento da indústria química nacional (em sentido amplo). “As importações farmacêuticas apresentaram preço médio de US$ 137 mil por tonelada, enquanto as suas exportações foram feitas na média de US$ 31 mil por tonelada”, calculou, para concluir pela necessidade de investimentos para melhorar o conteúdo tecnológico da produção nacional.

O dirigente da Abiquim considerou que o setor de fertilizantes responde por grande parte das importações químicas, mas, sem eles, seria impossível obter os recordes de produção agrícola que, por sua vez, geram grandes saldos de exportação. “Há muitos produtos químicos na mesma situação, ou seja, cujos déficits comerciais são transformados em excedentes exportáveis em outras cadeias produtivas”, avaliou.

No caso dos fertilizantes nitrogenados, sua produção local não deslancha pela falta de gás natural de baixo custo. Outros derivados de petróleo, como a nafta, também precisam ser ofertados em volume suficiente e preço compatível para justificar investimentos de vulto no setor. “Governo e Petrobras precisam estudar meios de apoiar o desenvolvimento industrial, oferecendo estímulos para investir ou, pelo menos, para não desistir”, disse.

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Mariani pede incentivo para agregar valor ao produto local

Petrobras responde – Na qualidade de fornecedor de petróleo e insumos petroquímicos, mas também como acionista dos dois conglomerados petroquímicos nacionais – Braskem e Quattor –, a Petrobras reafirmou sua intenção de proteger o mercado interno, mantendo-o abastecido a preços competitivos. “Decorrem da crise o aumento do custo de capital, a queda de liquidez e da demanda por produtos exportados pelo Brasil”, afirmou José Sérgio Gabrielli, presidente da estatal.

A falta de apetite mundial pelos produtos brasileiros precisa ser compensada pelo fortalecimento do mercado interno. O cenário de crise altera os projetos e planos de investimento de todas as companhias mundiais de petróleo e petroquímica, segundo o executivo. “É natural que a produção se concentre onde a matéria-prima seja mais barata, no caso do petróleo, no Oriente Médio, com predomínio do gás natural como fonte petroquímica”, considerou. A China deve absorver parte dos acréscimos da produção de etileno e de resinas plásticas, apostando na capacidade de absorção de produtos pela sua demanda interna.

No caso brasileiro, os indicadores apontam que a atividade econômica ia muito bem até outubro, quando declinou, embora a variação cambial abrupta tenha oferecido proteção contra importados. “Para nós, é importante que Braskem e Quattor mantenham seus planos de crescimento para aproveitar as variações cíclicas, estando com fábricas prontas quando houver a recuperação da demanda”, afirmou. Como acionista, a Petrobras pretende incentivar projetos petroquímicos no país.

Na sua avaliação, o mercado mundial de etileno deve ficar ofertado a partir de 2009, provocando a queda do índice de ocupação das centrais, incluindo as brasileiras. A recuperação desses índices ao patamar de 2007 só acontecerá por volta de 2012. Com isso, a tendência de preço da nafta é declinante, e deve ser sentida brevemente no mercado local.

De um ponto de vista mais amplo, Gabrielli considera que a petroquímica mundial se aproximou muito da atividade de refino de petróleo em todo o mundo. “O Brasil estava indo pela contramão, mas agora adotou a mesma lógica”, disse. Embora não tenha em mãos a revisão do plano de negócios da companhia (em reavaliação desde outubro), ele apontou os investimentos da Petrobras em projetos petroquímicos, como os de Suape-PE, onde atua na formação de um cluster têxtil e de produção de PET para garrafas. A estrela da lista é o Comperj, projeto fluminense de refinaria de óleo pesado para a produção de matérias-primas petroquímicas que deve entrar em operação por volta de 2013.

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Gabrielli: petroquímica voltou a se
aproximar das refinarias

No seu core business, a Petrobras apresenta uma situação tranquila. É a única grande petroleira cujo principal mercado é o interno. Também se destaca por poder ampliar a produção sem precisar de novas descobertas. “Podemos aumentar a produção em 7,7% ao ano até 2015 sem mexer no pré-sal, com total segurança”, explicou. A produção nacional é de 2,3 bilhões de boe/dia, com potencial para chegar a 4,1 boe até 2015.

O pré-sal é a região mais promissora do Brasil, porém exigirá grandes investimentos no desenvolvimento de tecnologia para permitir sua extração e transporte. Gabrielli comentou que a Petrobras é líder mundial em exploração em águas profundas, usando plataformas flutuantes tipo FPSO, escoando o óleo por navio e o gás, por dutos. Cada FPSO custa perto de US$ 7 bilhões. “Para explorar o pré-sal, precisaríamos de umas cinquenta dessas plataformas, fica caro demais, por isso, precisamos criar uma nova forma de exploração”, explicou. Além disso, os poços do pré-sal na Bacia de Santos ficam a 350 km da costa, mais que o dobro da distância dos poços da Bacia de Campos. A perfuração da grossa camada de sal também exige usar materiais mais resistentes, tanto pelo cisalhamento quanto pela presença de gás carbônico.

Em tempos de petróleo barato, a companhia deve aumentar seus investimentos em áreas menos custosas, evitando transferir os pesados custos para os bolsos de seus consumidores. A estatal impõe alto percentual de conteúdo nacional (65%) em seus investimentos, gerando a esperança de que a fabricação local de equipamentos específicos venha a crescer significativamente, impulsionando o crescimento de todas as atividades econômicas.

 

 

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