A lógica da oportunidade nesse ramo é simples e começa, em primeiro lugar, pela necessidade comum atualmente dos clientes de reduzir quadros de funcionários próprios para minimizar os efeitos da crise. Isso promete levar muitas indústrias a terceirizar a gestão das utilidades como forma de diminuir seus custos trabalhistas e, ao mesmo tempo, preservar a mão-de-obra das áreas produtivas da empresa, mais importantes de serem mantidas para garantir a competitividade em épocas difíceis. Isso sem falar que, no caso da gestão da água, a modalidade pode ainda ajudar o cliente a economizar seus gastos com medidas de redução de desperdícios e reúso. A expectativa torna as ofertas de BOTs ou BOOs um ato longe de parecer tresloucado em uma fase em que a indústria adia projetos e diminui a produção. Pelo contrário, oferecer a custo inicial zero um upgrade ou substituição de uma estação de tratamento de efluentes defasada, com promessas de ganhos na “conta da água”, soa como bom argumento de vendas. Tanto é assim que a esperança com as novas possibilidades é compartilhada entre as principais BOTistas – como são conhecidas no mercado essas empresas de engenharia e prestação de serviços – com maior, menor ou nenhum grau de ceticismo. Escopo ampliado – “É o momento certo para a indústria ver as vantagens do nosso modelo de gestão”, afirmou Alain Arcalji, o diretor-executivo da EcoAqua, empresa sediada no Rio de Janeiro, de propriedade do grupo português SGC e especializada em BOTs e outros pacotes de prestação de serviços similares em tratamento de água e efluentes industriais. E, ainda segundo Arcalji, a busca por redução de custos pós-crise já tem levado clientes a procurar as ofertas de terceirização da EcoAqua, as quais ele considera como de “escopo ampliado“ ou “especiais”. A definição dos modelos de gestão da EcoAqua, que de certa forma norteia também as ofertas de outras empresas da área, serve como resumo daquilo que essa terceirização especial pode proporcionar aos clientes. Isso porque os BOTs e demais modelos são diferentes da prática comum da indústria de chamar de terceirização apenas a transferência da mão-de-obra, usando-a como ferramenta para diminuir os
Modelos similares a esses são implementados em clientes como a Klabin, de Otacílio Costa-SC, onde a EcoAqua ficará por dez anos como responsável pela captação e tratamento de água, a desmineralização e o tratamento dos efluentes descartados da indústria de papel. A única peculiaridade aí é a Klabin continuar como proprietária dos equipamentos. Somando outros clientes, como Petrobras (Cenpes) e a siderúrgica Thyssen Krupp-CSA (em implantação no Rio e cuja concorrência de terceirização foi vencida em novembro de 2008), a EcoAqua já soma R$ 270 milhões investidos em contratos de terceirização, com recursos próprios e de linhas privadas de financiamento (na Klabin, metade são recursos do fundo Itaú-BBA). AOT e AOO – Embora haja diversificação nas necessidades contratuais dos clientes, a experiência da EcoAqua na venda dos modelos de prestação de serviços leva a crer que até o momento o mercado ainda prefere a terceirização clássica com a transferência dos ativos no final do contrato, ou seja, os tradicionais BOTs. “O cliente ainda se sente mais seguro ao saber que no fim do contrato ficará com os sistemas, como se fosse leasings”, revelou Alain Arcalji. Mas, para ele, é uma questão de tempo para os clientes amadurecerem para outras modalidades. Aí entrariam nas negociações os BOOs (em português, constrói, opera e permanece proprietário, do inglês own), ou então os modelos pelos quais o prestador de serviço chega até a adquirir ativos do cliente para se tornar responsável pela operação, os chamados AOO (acquire, operate and own) ou AOT (acquire, operate and transfer). Estes últimos modelos podem até ter um apelo maior na crise, segundo a percepção de algumas empresas. Isso por um motivo óbvio, visto que, além de não demandar aportes dos clientes como nos BOTs, a operação poderá ainda render um recurso “extra” ao caixa das empresas. A esperança no novo modelo de aquisição de ativos é tanta que faz não só grupos como a EcoAqua reforçarem a sua divulgação no mercado como provoca o interesse de outros competidores. É o caso da White Martins Soluções Ambientais, empresa pertencente ao grupo norte-americano produtor de gases industriais que se especializou na prestação de serviços de tratamento de água e efluentes industriais.
Um exemplo possível de AOT em tratamento de efluentes, segundo Bon, pode ser feito na indústria têxtil. Fornecedora de sistemas para tratamento com base em suas tecnologias de geração de gases (foi a partir daí que a White Martins passou a fornecer para o setor ambiental na década de 80), a empresa pode instalar sistemas de remoção de cor de efluentes com ozônio, substituindo os tradicionais tratamentos físico-químicos. “A unidade antiga poderia ser empregada em outro uso, enquanto prestaríamos o serviço com a geração in-situ do ozônio, muito mais eficiente nessa aplicação”, disse. Bom acrescentar que a White Martins já possui um BOT com base na tecnologia de remoção em uma indústria têxtil. O modelo do AOT é novo apenas na área ambiental, segundo explicou Paulo Bon. Isso porque a própria White Martins, na sua longa experiência de fornecedora de gases industriais, várias vezes comprou unidades geradoras dos clientes para passar a ser a prestadora de serviço, sobretudo no fornecimento de oxigênio na indústria siderúrgica. “O modelo já é conhecido na indústria, basta passar a fazer a oferta que há muita chance de ela ser adotada também em estações de tratamento de água e efluentes”, afirmou Bon. |
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