Tratamento de efluentes

MBR e O2 – A ligação da White Martins com gases não teria como não ser transportada para seus negócios na área ambiental. Aliás, o seu início na área, quando ainda não contava com empresa específica, foi no meio da década de 80 com a venda de oxigênio para melhoria de tratamento biológico, de gás carbônico para neutralização, ozônio (O3) para desinfecção e nitrogênio para flotação. Com a compra da empresa Neotex em 2000, a estratégia passou a ser completa, de projeto, construção e operação de estações, mesmo que ainda agregada muitas vezes à venda de gases.

Esse know-how levou a empresa a conjugar tecnologias para ofertar sistemas de reúso de água. Um exemplo foi iniciar a dosagem de oxigênio em sistemas de biorreatores a  membranas (MBR), que

empregam membranas de  ultrafiltração para remoção de contaminação orgânica (sólidos coloidais e suspensos, bactérias e vírus). Sistema patenteado, o oxigênio empregado no reator melhora o rendimento da biota, permitindo compactar mais a estação.

O MBR, com ou sem oxigênio, é bastante usado nos BOTs da White Martins. Para isso, segundo Paulo Bon, a empresa conta com parcerias com a holandesa Norit e a norte-americana Koch, ambas por meio de seus escritórios no Brasil. A preferência, porém, recai sobre o sistema da Norit, que utiliza membranas em tanque externo ao reator biológico, em detrimento da tecnologia com membranas submersas no biorreator empregada pela Koch. “Pelo menos na nossa experiência percebemos que o fato de as membranas não ficarem dentro do reator biológico facilita a manutenção”, explicou. De acordo com ele, o MBR está em nove clientes de BOT, todos eles reusando efluentes. Aliás, pelas contas de Paulo Bon, a White Martins Soluções Ambientais promove, em seus clientes, o reúso de 10 milhões de litros de efluentes por dia. “Isso equivale ao consumo de uma cidade de 67 mil habitantes”, completou o gerente geral.

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MBR tem sido muito empregado em BOTs

BOT verticalizado – Além dos aspectos mais imediatos ligados à crise econômica, a longo prazo a confiança no mercado de BOT também é comprovada pela ação de alguns grupos empresariais, que se estruturam para ofertar o máximo possível de serviços de terceirização, deixando o cliente atendido em todas as suas necessidades ambientais. O melhor caso para ilustrar essa tendência ocorre com a Haztec, empresa sediada no Rio de Janeiro que, a partir de 2007, quando recebeu investimentos dos fundos FIP Multisetorial, do Bradesco BBI, e Infra-Brasil, do Banco Real, adquiriu seis empresas de serviços e produtos ambientais.

Criada há dez anos para atuar em remediação ambiental, com o aporte de capital – que elevou seu faturamento de R$ 40 milhões em 2006 para cerca de R$ 420 milhões previstos para 2009 – a Haztec passou a contar com forte massa crítica e carteira de clientes para atuar na terceirização do tratamento de água e efluentes. E isso com a vantagem competitiva de incluir no escopo áreas complementares importantes para a operação, como a destinação de resíduos (aterros, incineração e coprocessamento) e a fabricação de sistemas e equipamentos.

De forma direta, para melhorar sua participação no segmento de BOTs, a Haztec adquiriu no final de 2007 a empresa mais importante da atividade, a Geoplan, com uma carteira de mais de 50 clientes, em contratos de longo prazo que incluem o abastecimento de água industrial e pública, tratamento de efluentes e alguns casos interessantes de reúso de água, como na unidade da Braskem em São Paulo e no complexo industrial da Bayer de Belford Roxo-RJ (ver QD-444, dezembro de 2005). “A entrada da Geoplan já trouxe a Haztec para o coração do mercado de BOT de água”, afirmou Marcelio Fonseca, superintendente operacional da Haztec-Geoplan (em breve o nome Geoplan deve sair).

Mas as outras aquisições da Haztec devem tornar as ofertas de BOTs ainda mais atraentes. Para começar, a Tribel, que opera incinerador de resíduos perigosos e aterro classe 1 em Belford Roxo, no site

multipropósito da Bayer, facilitará operacional e financeiramente as destinações de lodos de efluentes e outros resíduos dos clientes. A essa mesma necessidade favorece ainda a aquisição da Nova Gerar, do Rio, proprietária de aterro classe 2 e em fase de licenciamento de outro de classe 1 e também com unidade de blendagem de resíduos para coprocessamento em fornos de cimento.

Uma outra adquirida fortalece bastante a operação em tratamento de água e efluentes. Trata-se da Aquamec, de São Paulo, fornecedora de sistemas e equipamentos com boa participação na área industrial e pública, fábrica própria em Itu-SP e um portfólio diversificado de tecnologias licenciadas. “O fato de contar com uma empresa que pode atender a todas as demandas de ativos para tratar água sem dúvida deixa o BOT muito mais fácil de operacionalizar”, afirmou Fonseca. Isso sem falar que permite à Haztec também vender simplesmente os equipamentos e sistemas em regime de EPC, caso o cliente não queira optar pela prestação de serviços agregada. “Torna a empresa competitiva em qualquer situação”, completou.

Cuva Jorge

Fonseca: Haztec adquiriu empresas para facilitar ofertas

E as facilidades para o corpo comercial da Haztec não param por aí. Segundo Fonseca, caso as vazões a ser tratadas não compensem a construção de uma unidade, há a opção de ofertar o tratamento externo dos efluentes na Gaiapan, estação de despejos industriais para terceiros no distrito industrial de Santa Cruz, no Rio, situada no site da produtora de cloro-soda Panamericana. A ETE realiza tratamento convencional para preparar o efluente para descarte e a empresa também faz outros serviços ambientais, como descontaminação de transformadores com ascarel.

Além disso, para Fonseca, o fortalecimento da Haztec permite o planejamento de novos voos para o futuro. Um deles é expandir mais a presença no mercado público de saneamento e de disposição de resíduos urbanos. No primeiro caso, tanto no abastecimento de água, nos moldes de contratos já existentes em Araçatuba-SP e Guarulhos-SP, nos quais opera para as autarquias municipais poços de alta profundidade, como em concessões para tratamento de esgoto. Já no caso de disposição de lixo o propósito inicial é utilizar os aterros da Nova Gerar.

Não é só a Haztec, aliás, que pretende aumentar a participação no mercado público. Uma outra empresa com foco em prestação de serviços para tratamento de água e efluentes, a General Water, de São Paulo, também pensa em fazer o mesmo, aproveitando um novo cenário que se tornou mais animador depois da promulgação do marco regulatório do saneamento.

De acordo com seu diretor-comercial, Ricardo Ferraz, a decisão estratégica foi tomada ao se perceber que a nova legislação do saneamento trouxe segurança aos investidores, há cerca de dois anos. “Nossa assessoria jurídica avaliou que o momento é propício, pois as regras são claras e há garantias”, explicou. Daí para a empresa passar a participar de pequenas concorrências na área foi um pulo. E isso já computou uma vitória: um BOT para o SAAE da cidade de Porto Feliz, em São Paulo. No projeto, a General Water construirá e operará poços de 500 a 800 metros de profundidade para fornecer 100 mil m3/mês de água potável. Será no modelo de concessão parcial para extração, tratamento e adução até o reservatório da autarquia.

Cuva Jorge

Ferraz quer ganhar mais contratos na área pública

Reator vertical – O plano de operar no mercado público também permite à empresa utilizar tecnologias desenvolvidas nos últimos anos para atender os casos de tratamento de efluentes no mercado privado, sobretudo o institucional (prédios, shopping centers), no qual tem maior participação do que na indústria. No caso, o destaque fica por conta da nacionalização da tecnologia deep-shaft, originariamente criada para despoluir o Rio Tâmisa, na Inglaterra, baseada na perfuração de poços de 80 metros de profundidade que funcionam como reatores verticais biológicos capazes de remover 98% de DBO.

Esses poços com diâmetros mais largos (de até 80 cm) sofrem pressão por ar comprimido para que as partículas do esgoto/efluente diminuam ao máximo e acelerem assim a ação das bactérias. Sobre o reator fica um tanque para manter a cinética da digestão. Aliás, a velocidade da digestão, de 1 a 2 horas, é um de seus principais pontos fortes, muito mais veloz do que as lagoas convencionais, que chegam a levar uma semana para fazer o mesmo. “Isso aliado ao fato de não gerar odor, por ser processo confinado no subterrâneo, e pouco lodo, visto que após uma flotação a sobra do processo retorna ao reator”, disse Ferraz, que também considera o consumo energético do sistema bastante baixo.

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Unidade instalada em sistema terceirizado
de tratamento

Por enquanto, o deep shaft é usado principalmente no mercado institucional, em shopping centers, que precisam de soluções compactas para tratar esgoto. “A técnica pode ser instalada em um estacionamento”, revelou. Segundo Ferraz, hoje a empresa conta com cerca de 80 contratos, todos de prestação de serviço para cumprimento em períodos de oito a dez anos. Os investimentos são obtidos de recursos próprios da General Water e atendem clientes com necessidades de 2 mil a 25 mil m3/mês. De início, a maior parte dos contratos era de BOT, mas Ferraz acredita que há hoje uma migração para os modelos de BOO. “O cliente não quer o equipamento, quer a água”, resumiu. Está aí um bom slogan para aqueles que acreditam na terceirização como uma maneira de gerar negócios no mercado da água.

 

 

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