Além dessa linha de atuação, a estatal pretende adquirir usinas no Brasil para abastecimento do mercado interno. Essa é a principal mudança estratégica do plano de negócios. Antes dela, a Petrobras pretendia atuar apenas na exportação do etanol, deixando o mercado brasileiro para os players tradicionais. “Queremos dominar apenas 20% da expansão futura do mercado local de etanol”, disse Kardec. A prioridade dos investimentos da PBio é voltada para a Região Nordeste, porém a companhia foi autorizada a buscar negócios atraentes em qualquer lugar do Brasil. Afinal, com a crise desencadeada no ano passado, o valor dos ativos sucroalcooleiros foi deprimido, facilitando os negócios. Com a meta de comprar capacidades para 339 mil m³/safra de etanol em 2009, mediante parcerias nas quais a estatal detenha 40% do capital, a PBio está com negociações adiantadas, devendo concluí-las nos próximos meses. Segundo o presidente, a estatal prefere investir em usinas em fase final de construção, que chamou de “yellow field”. Até 2013, as usinas nessa forma de atuação contarão com 1,8 bilhão de litros de capacidade. Ele negou que a investida no mercado local seja uma resposta à compra da Esso Brasileira pelo grupo sucroalcooleiro Cosan. “A verticalização é uma tendência mundial, não só no caso da Cosan, mas também a Shell está fazendo o mesmo”, afirmou. Ele comentou que o uso de álcool na alimentação de motores de combustão interna do ciclo Otto, mais usados nos carros de passeio, superou o de gasolina – chegou a 51% no mercado nacional – e está crescendo junto com a frota de carros flex. Ao mesmo tempo, o setor sucroalcooleiro está em reestruturação. “Queremos ter uma fatia desse mercado, mas não vamos estatizar esse setor”, tranquilizou Kardec. Ele também comentou que um percentual dessa produção local poderá ser exportado, dependendo das condições de mercado. Dentro do plano plurianual da companhia, os investimentos em biocombustíveis devem totalizar US$ 2,424 bilhões entre 2009 e 2013, dos quais pouco mais de US$ 1,9 bilhão serão aplicados em etanol, US$ 480 milhões em biodiesel e US$ 4 milhões no capital imobilizado. A PBio informou que 91% dos investimentos serão realizados no Brasil. “Esse é o investimento direto da PBio, mas é preciso considerar que a Petrobras vai investir outros US$ 400 milhões em logística e US$ 530 milhões em pesquisa e desenvolvimento nesse setor”, explicou Kardec. O total geral a ser aplicado em biocombustíveis até 2013, portanto, ascende a US$ 3,3 bilhões. Entre os projetos da estatal-mãe está o alcoolduto Senador Canedo, que transportará etanol de Uberaba-MG até Paulínia-SP a partir do último trimestre de 2010. O trajeto poderá receber extensões no futuro, dependendo dos volumes transportados. Ganhos tecnológicos – Do início do Proálcool, na década de 70, até agora, a introdução de novas tecnologias permitiu aumentar o rendimento e a eficiência da produção de álcool, sem mencionar os ganhos obtidos na área agrícola das usinas. “Nos últimos trinta anos, conseguimos duplicar a produção de álcool nas mesmas instalações antes disponíveis, apenas com a aplicação de desenvolvimentos feitos no Brasil”, comentou Jayme Finguerut, gerente de desenvolvimento estratégico industrial do Centro de Tecnologia Canavieira – CTC, em Piracicaba-SP. A entidade nasceu há quarenta anos como Centro de Tecnologia Copersucar, vinculada à maior cooperativa sucroalcooleira mundial que lhe dava o nome. Tornou-se independente, assumindo a forma de Organização Social Civil de Interesse Público (Oscip) e a denominação atual em 2004, para buscar objetivos mais amplos. “Com o Proálcool, todas as nossas recomendações de boas práticas em fermentações foram adotadas pelas destilarias brasileiras, não só das cooperadas”, comentou o pesquisador, especializado em biotecnologia. O processo industrial antigo também perdia aproximadamente 10% da sacarose trazida do campo, uma situação inimaginável nos dias de hoje. Finguerut avalia que o processo fermentativo usado no Brasil para gerar o etanol, o conhecido Melle-Boinot, apresenta um rendimento de conversão médio de 91,5%, com algumas usinas conseguindo índices de 92,5%. “São indicadores excelentes, mesmo em termos mundiais, mas ainda permitem a obtenção de ganhos expressivos, dada a alta escala dos processos”, explicou. Um exemplo disso é a pesquisa que está sendo conduzida pelo CTC e pela Unicamp com a fermentação extrativa a vácuo. Nesse método, o etanol produzido é imediatamente retirado, impedindo que venha a inibir a ação das leveduras. “Estudos preliminares apontam para a viabilidade econômica desse processo”, comentou Finguerut. O sistema de produção nacional precisa ser muito mais flexível do que os similares do exterior. A começar pelas variações de qualidade e quantidade da cana durante a safra. Chuvas prolongadas podem impedir a retirada da cana do campo, paralisando a usina e afetando a fermentação. Além disso, salienta o pesquisador, o Brasil obtém dois produtos diferentes da cana: o álcool e o açúcar, ambos com grande valor comercial. “Essa possibilidade de fermentar caldo ou melaço exige mudar estratégias de operação e tipos de leveduras”, informou. Essa flexibilidade também explica a preferência pelo Melle-Boinot, em detrimento de processos contínuos. Estes, segundo Finguerut, poderiam ser adotados nas novas destilarias autônomas (sem produção açucareira), que devem usar apenas o caldo de cana, com poucas variações de qualidade. Outra especificidade do sistema brasileiro consiste nos tipos de fermento empregados. “O processo seleciona o fermento mais ativo, que é reciclado em cada ocasião, ao contrário da Europa e dos Estados Unidos, que compram um fermento específico para cada batelada”, explicou. Porém a estratégia nacional impõe um controle mais avançado do processo fermentativo, evitando infecções deletérias. Algumas usinas empreendem esforços para operar com maior teor alcoólico no vinho. Finguerut explica que o teor médio nas dornas brasileiras era de 8,5% em etanol, mas hoje já se opera com 11%. Nos EUA, o teor vai a 14%. “Só que eles deixam morrer as leveduras, enquanto nós as mantemos vivas para reciclar as mais adaptadas”, comparou. No Brasil, além disso, o tempo de residência nas dornas é menor. Como tendências para o futuro, Finguerut aponta a busca por mais flexibilidade nas fermentações, dotando-as de controles automáticos por meio de espectrofotometria do infravermelho próximo (NIR), com detecção mais apurada e contínua do teor de açúcar e contaminantes na alimentação das dornas. Isso permitirá melhor adaptação às mais variadas variedades de cana-de-açúcar existentes.
Frame Project – 7 (FP-7), no valor de 1,5 milhão de
euros, para desenvolver ferramentas com o objetivo de determinar e
estabelecer critérios, a fim de avaliar processos, matérias-primas e
enzimas para essa finalidade, além de elaborar um modelo matemático para o
processo. O projeto conta com o apoio de uma universidade sueca e também
da Universidade Federal do Paraná. Ao mesmo tempo, Finguerut observa que a crise econômica deve acertar em cheio a produção de etanol de milho dos Estados Unidos. Vários projetos eram ligados a fundos de investimento e foram descontinuados. Além disso, essa produção de etanol é muito cara, especialmente quando comparada com a brasileira, exigindo pesados subsídios governamentais que podem ser reduzidos. “É bem possível que muitos projetos de pesquisa de produção de álcool com base em materiais celulósicos venham a ser redirecionados para o Brasil”, comentou. Várias empresas de lá compraram ou estão montando usinas no país. O assunto não é exatamente uma novidade. Segundo Finguerut, os alemães desenvolveram o processo de hidrólise ácida para aproveitamento de materiais celulósicos na Segunda Guerra. O método foi copiado e aprimorado pela antiga URSS e mantido em operação até meados dos anos 70. “Esse processo já atingiu o máximo possível de desenvolvimento”, afirmou. Ele também salienta que essa alternativa exige operar a alta pressão e usar solventes, condições ruins para integração com a atividade habitual das usinas. Por sua vez, os métodos enzimáticos ainda estão em fase de desenvolvimento. Os líderes mundiais em enzimas para isso, a Novozymes e a Genencor, já conseguiram reduzir o custo das enzimas em vinte vezes. O pesquisador avalia que o custo de obtenção de etanol pela via enzimática ande por volta de US$ 250 por m³, e ainda pode ser reduzido. “As enzimas têm um potencial biotecnológico a aproveitar, pois com uma pequena modificação no sítio ativo é possível melhorar os resultados”, afirmou. Além disso, ainda não foram estudados todos os recursos biológicos existentes na natureza, tanto em matérias-primas quanto em micro-organismos (bactérias, fungos e leveduras). As enzimas são entregues aos clientes prontas para uso, com grande facilidade de aplicação. Ele admite que será necessário buscar, no futuro, parceiros na área de equipamentos para suprir o mercado. |
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