Cuca Jorge

Fornecedores oferecem ganho de produtividade sem agredir o ambiente

Marcelo Fairbanks

O segmento de embalagens metálicas esboça uma recuperação de negócios a partir de abril, encerrando um ciclo de baixa iniciado em setembro passado. Em 2008, o volume físico transformado pelo segmento caiu 3,52%, gerando uma receita bruta aproximada de R$ 6,2 bilhões, correspondentes a 16,94% do faturamento total da produção nacional de embalagens, como evidencia o recente Estudo Macroeconômico da Embalagem da Associação Brasileira de Embalagem (Abre) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Dentro do segmento das metálicas, as latas de alumínio constituem uma parcela de 39,4% da produção física, a mais destacada, tendo registrado crescimento de demanda em todos os trimestres de 2008, com uma produção física 7,22% maior que a registrada no ano anterior. Por sua vez, as latas de ferro e as de aço apresentaram uma redução de 9,88% na quantidade transformada, mas ainda representam 37,52% da produção física das embalagens metálicas. Esse grupo das latas sofreu uma queda de 32,56% em peso no quarto trimestre de 2008.

“As latas de aço foram afetadas pela queda nas exportações de carnes processadas e também pelo mau desempenho de produtos da indústria geral, como as tintas, no fim do ano passado”, comentou Mauro Eiras, gerente-geral para a América Latina de packaging coatings da PPG. A redução do IPI nos materiais para a construção civil, concedida em março, reaqueceu a venda de tintas e deverá se refletir nos indicadores futuros do setor.

No polo oposto ficaram as latas para bebidas. “Havia um estoque grande de bebidas no fim do ano passado, mas foi todo consumido e, com isso, as vendas no primeiro trimestre de 2009 ficaram acima do esperado”, comentou Maurício Gasperini, diretor de marketing de produtos da área de packaging coatings da AkzoNobel. A empresa holandesa adquiriu mundialmente os negócios de tintas da britânica ICI, reforçando o portfólio. “A AkzoNobel não tinha negócios nesse segmento e conquistou uma posição considerável”, explicou.

Na avaliação de Gasperini, o volume de vendas de 2009 está muito parecido com o do início de 2008, que foi um bom ano, mesmo com a acentuada queda verificada no último trimestre. “Tínhamos uma expectativa muito conservadora para o primeiro trimestre, por causa do alto nível dos estoques na cadeia, mas os resultados do período foram melhores do que esperávamos”, explicou. Grande parte desse desempenho foi garantida pela indústria de bebidas.

O fornecimento de tintas para embalagens metálicas está fortemente concentrado em três fornecedores de alcance mundial: PPG, AkzoNobel e Valspar. Somadas, as três respondem por volta de 80% das vendas do segmento. Por linhas de negócio, a participação é ainda maior. É o caso das latinhas de cervejas e refrigerantes, ramos nos quais também há grande concentração empresarial. “Bebidas e alimentos são segmentos nos quais a responsabilidade do fornecedor é muito grande e que respondem bem à introdução de novas tecnologias”, afirmou Gasperini.

O mercado brasileiro opera sob duas fortes pressões: aumentar a eficiência produtiva e cumprir com exigências sanitárias mais rigorosas, oriundas da Europa. O segundo item coloca a alça de mira no bisfenol-A, ingrediente mais conhecido para a produção de epóxis. Essa família de resinas proporciona notável resistência química e mecânica aos revestimentos, superada apenas pelos flexíveis poliésteres nas aplicações de alto repuxo (estampagem complexa).

Aumentar a produtividade das linhas e reduzir o gasto com energia, em especial nas estufas de secagem, são metas que podem ser atingidas com a aplicação de tintas e vernizes curáveis por radiação ultravioleta. Muito usada na indústria gráfica (a capa das edições de QD, por exemplo, recebe verniz UV) e na indústria de madeira, a tecnologia começa a ser adotada na litografia de substratos metálicos para embalagem. Além de convencer os convertedores a adequar seus equipamentos aos sistemas UV, é preciso convencer os clientes quanto à compatibilidade dessas tintas aos materiais embalados.

“Há um receio quanto à possibilidade de contaminação de alimentos pelos fotoiniciadores, agravado por um caso ocorrido há anos na Itália, mas não existe norma oficial que proíba essa aplicação”, comentou Antonio Lopes Nogueira, químico do laboratório da Companhia Metalúrgica Prada, uma das líderes do setor. As embalagens de alimentos, segundo informou, nunca recebem tintas ou vernizes UV na sua face interna. Mesmo no lado de fora das latas, há uma preferência por usar tintas curáveis por UV, cobertas por verniz convencional compatível. “As embalagens para produtos não alimentícios, chamadas de linha geral, devem adotar o UV em larga escala”, considerou.

Cuca Jorge

Nogueira: tintas UV tendem a crescer na linha geral

Diretora-executiva da Abre, Luciana Pellegrino explica que o uso de tintas em embalagens para alimentos no mercado brasileiro é regulado por normas editadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A Abre, acompanhando tendências mundiais, encabeçou um programa de adesão voluntária para banir o uso de um rol de substâncias químicas tidas como prejudiciais à saúde humana ou ao meio ambiente. “A última revisão dessa lista de exclusões foi concluída em agosto de 2007, concretizando um trabalho muito satisfatório para sugestão de adequação ao mercado nacional”, afirmou. Ao todo, informa, quinze empresas aderiram formalmente ao compromisso de não usar as substâncias listadas.

Alta resistência – Durante décadas, a Prada produziu as tintas e vernizes que consumiu para proteger e decorar as chapas metálicas. Há cerca de dois anos, a companhia selecionou um fornecedor desses produtos, impondo o respeito às suas formulações durante um ano. Depois disso, o fornecedor ficou livre para sugerir alterações. “A Premiata ganhou o contrato por ter oferecido as melhores condições e por garantir a produção das tintas no Brasil, sem importações”, explicou Nogueira.

O especialista da Prada comenta que, na parte externa das latas de aço de três peças (tampa, corpo e fundo), as tintas alquídicas são as mais usadas, especialmente na linha geral. “Elas aceitam o repuxo e têm baixo custo”, afirmou. Nogueira ressaltou que essas tintas não são usadas para alimentos pelo fato de não suportarem bem a etapa de esterilização. Casos mais críticos, com alta deformação e a necessidade de suportar meios agressivos sob alta temperatura, como é o caso das embalagens de sardinhas, só conseguem ser atendidos pelos poliésteres de boa qualidade. Essa alternativa é, porém, a mais cara.

A cura por UV é uma alternativa que está ganhando força no mercado. A Prada possui uma linha de impressão adaptada, atualmente usada para produzir as embalagens de inseticidas em aerossol. Segundo o químico, a linha de UV trata mais de sete mil folhas por hora, enquanto o sistema convencional não passa das cinco mil chapas e usa estufa de 50 metros de comprimento com alto consumo de energia.

Nogueira observa que a metalúrgica prefere aplicar uma base esmalte sobre a chapa, capaz de ancorar a tinta colorida UV ou convencional, para depois aplicar um verniz convencional (ou UV, dependendo do caso). O verniz curável UV é fornecido pelos grandes players do setor (PPG, Valspar e AkzoNobel). “Notamos que o esmalte UV não ancora bem na chapa nua”, verificou. Ele também estuda ampliar o uso desse verniz na linha geral, pela sua maior produtividade. Ele prefere usar tintas UV do tipo radical livre, que oferecem alta resistência com baixo custo. As tintas catiônicas só são preferidas em aplicações de alto repuxo, como nas latas expandidas.

As tintas de base preparam a superfície para as camadas seguintes, mas também têm importante papel na proteção da chapa contra o ambiente externo. São usados esmaltes alquídicos (modificados com acrílico ou não), acrílicos e poliésteres, além de sizes (tintas com baixa relação pigmento/resina) de poliéster ou epóxi, entre outros.

Nogueira comenta que o size acrílico é muito aplicado na linha geral por ancorar bem a camada seguinte e por garantir a retenção de cor (não amarelar). Por sua vez, o size epóxi tende a amarelar, mas resiste à esterilização e proporciona resistência química elevada. “Nesse caso, recomendamos usar uma cor forte no acabamento”, disse.

O esmalte poliéster apresenta boa retenção de cor e compatibilidade com as diversas tintas de acabamento, entre elas as curáveis por UV. Segundo o especialista, deve ser evitado o esquema de pintura que use esmalte acrílico com acabamento curável por UV.

“Estamos desenvolvendo a aplicação de tintas UV diretamente na chapa, como base para tintas de acabamento por UV”, comentou. Cada cor precisa ser curada imediatamente, antes da aplicação da cor seguinte. Tintas convencionais podem ser aplicadas em até duas cores antes de cada secagem. Mesmo assim, ele prevê que as tintas alquídicas serão as mais afetadas pela chegada das linhas UV. Nogueira salienta que a Prada não usa tintas com metais pesados.

Vernizes – Protetores da face externa contra riscos e contra os rigores de tratamentos como a esterilização, os vernizes também são destacados elementos da face interna das embalagens metálicas. Nesse caso, devem suportar e impedir a contaminação dos embalados, além de impedir a reação destes com a chapa. Aliás, segundo Nogueira, a seleção das chapas de aço é um passo fundamental para o bom desempenho das embalagens. O mercado local consome basicamente três tipos: chapas não-revestidas (ou nuas); folha-de-flandres, ou chapa de aço com revestimento de camadas de estanho variando entre 1 a 11,4 g/metro quadrado; ou folhas cromadas, revestidas em ambos os lados com 60 g/m² de cromo. A folha-de-flandres ancora bem as tintas, mas as folhas cromadas são menos custosas e apresentam elevada resistência. No entanto, elas não aceitam a soldagem, devendo ser agrafadas para a conformação do corpo. “Além disso, por ser muito dura, a chapa cromada precisa ser revestida dos dois lados para não desgastar os equipamentos”, explicou.

A aplicação do verniz interno é feita antes da litografia externa, pelo fato de sua cura ser mais demorada. Nessa aplicação, os epóxis (modificados com ureia ou com resina fenólica pura, com alumínio ou óxido de zinco) apresentam vantagens. “O epóxi cinza com ureia é o favorito na linha geral, pela sua alta resistência química e mecânica”, informou. Por ser mais resistente, esse verniz leva menos agentes deslizantes em sua formulação. Esses ingredientes, geralmente ceras e óleos, podem migrar para a face oposta de outras chapas durante o empilhamento, interferindo no resultado final.

Além dos epóxis, há alternativas variadas, desde os antigos vernizes sanitários oleorresinosos (simples ou com óxido de zinco), organossóis (dourados ou com alumínio), e o esmalte branco acrílico/epóxi. Estes deixam o interior das latas com aspecto porcelanizado, muito bem-aceitos pelos consumidores de molhos de tomate. A linha de solda exige uma proteção final com aplicação por spray de vernizes adequados, epóxi-uréicos ou organossóis. Tintas em pó feitas de poliéster também são recomendadas.

 

 

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