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bio &
farma
Michael Nothenberg
é Doutor em Química, Mestre em Farmácia,
professor universitário e jornalista
msnothenberg@gmail.com
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Efeitos colaterais e
indústria farmacêutica:
relação de amor e ódio
Efeitos colaterais, aqueles que se manifestam em paralelo aos efeitos
terapêuticos desejados, são inevitáveis e onipresentes entre os fármacos
conhecidos. Em geral, sua descoberta é má notícia. Pode significar o fim da
linha para uma molécula que estava em desenvolvimento ao longo de uma
década, gerando prejuízos da ordem de centenas de milhões de dólares.
Desfecho talvez ainda pior, do ponto de vista da indústria, é a obrigação de
retirar do mercado mundial blockbusters bilionários tardiamente
responsabilizados por efeitos indesejáveis.
Não faltam exemplos para ilustrar tais desastres, a começar pelos recentes e
impactantes casos da cerivastatina (Baycol, Bayer, 2001), rofecoxiba (Vioxx,
Merck, 2004), ximelagatrano (Exanta, AstraZeneca, 2006), ou ainda
Torcetrapiba (Pfizer, 2006) e disulfentona (Cerovive, AstraZeneca, 2006),
estes dois últimos abandonados ainda no nascedouro.
Relação mais completa de malogros recentes, com suas respectivas causas,
está na Tabela 1, que já inclui o antipsoriático efalizumabe (Raptiva),
retirado voluntariamente do mercado norte-americano pelo fabricante
Genentech no último dia 8 de abril, após relatos da ocorrência de infecções
virais no sistema nervoso central em pacientes tratados com o medicamento. |
Do outro lado da moeda, é
possível aproveitar efeitos colaterais para a criação de novas aplicações
terapêuticas de medicamentos conhecidos. A estratégia barateia, encurta e
facilita o licenciamento, pois os ensaios de metabolismo, toxicologia e uso
clínico já foram realizados no licenciamento original. Também não é incomum
o aproveitamento de fármacos licenciados como protótipos para o
desenvolvimento, por meio de pequenas modificações químicas em suas
estruturas, de novas moléculas, nas quais determinado efeito colateral,
agora desejável, seja mais manifesto.
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Da
sedação à ereção - Exemplo histórico é o dos antipsicóticos
tricíclicos fenotiazínicos, originados de pesquisa visando o
desenvolvimento de anti-histamínicos e que originou a clássica
difenidramina. Um derivado, prometazina, mostrou marcante atividade
sedativa, com base na qual acabou originando família de antipsicóticos,
a começar pela clorpromazina, em 1950 (Figura 1a).
Outro caso é o dos antidepressivos serotoninérgicos (inibidores de
recaptura de serotonina no sistema nervoso central), como paroxetina e
fluoxetina, cujos efeitos colaterais incluem ejaculação retardada (em
homens) e/ou anorgasmia (supressão de orgasmo, em ambos os sexos).
Mais uma vez, o efeito foi otimizado, originando a dapoxetina (Priligy,
do laboratório Alza, grupo Johnson & Johnson), atualmente em ensaios
clínicos de fase III nos Estados Unidos, embora comercialmente já
disponível em alguns países europeus, como Suécia e Finlândia (Figura
1b).
O diazóxido, óbvio derivado do diurético clorotiazida, teve sua
capacidade de bloquear canais de sódio no túbulo distal de néfrons
modificada a fim de aumentar seu poder de elevar a permeabilidade de
canais de potássio e, ao mesmo tempo, bloquear canais de cálcio na
vasculatura arterial. Criou-se assim potente relaxante de vasculatura,
usado como anti-hipertensivo
(Figura 1c). |
Um dos mais ilustres dentre
os fármacos desenvolvidos com base no efeito colateral de outro é o citrato
de sildenafil, o popular Viagra, da Pfizer, originalmente projetado como
vasodilatador antianginoso, do antialérgico potencial zaprinast (Figura 1d).
Sua propriedade de promover a ereção peniana foi relatada como efeito
colateral por participantes de ensaio clínico, visando seu emprego no
controle de angina do peito. O efeito chamou a atenção de pesquisadores da
Pfizer, que, a partir de março de 1998, transformaram a molécula em mina de
ouro.
Mais pelos - Minoxidila, anti-hipertensivo desenvolvido nos anos 70,
mostrou-se contraindicada para mulheres pela sua indesejável, para elas,
capacidade de promover o desenvolvimento de pelos (hipertricose), quando
administrada por via oral. Daí surgiu sua bem-sucedida utilização tópica, no
controle da calvície, que hoje supera em importância comercial a indicação
original.
De modo aparentemente similar, o Bimatoprost, análogo de prostaglandina
(PGFa2), aprovado pela FDA em 2006 para o controle de glaucoma, mostrou
inesperada propriedade de escurecer, prolongar e engrossar os cílios dos que
utilizam o produto na forma de solução oftálmica. Rebatizado pelo
laboratório Allergan (Irvine, CA) de Latisse em lugar de Lumigan, nome
original da especialidade antiglaucoma, o bimatoprost recebeu licença da FDA
para a aplicação cosmética em dezembro de 2008, tornando-se o primeiro
fármaco indicado para produzir efeito hiperciliar da história. O produto é
disponível nos EUA sob prescrição médica.
Novos recursos
permitem prever efeitos colaterais
Preocupada com os altos custos e riscos do desenvolvimento de novos
fármacos, a indústria farmacêutica deposita esperanças em estudos que
propiciem a capacidade de detetar efeitos colaterais no início do processo
de criação de fármacos, evitando gastos desnecessários no desenvolvimento
ulterior. Um desses projetos é o do, assim chamado, nariz molecular,
planejado em conjunto pelas universidades escocesas de Glasgow e Stratclyde.
Pesquisadores, liderados por Walter Kolch, do Beatson Institute for Cancer
Research, de Glasgow, planejam injetar sensores nanométricos, capazes de
quantificar alterações bioquímicas, incluindo aquelas promovidas pela
presença de fármacos, em culturas de células de mamíferos. Alterações nos
sensores seriam posteriormente avaliadas com a aplicação de raios laser
sobre as células estudadas e a leitura do espectro Raman emitido pelas
nanopartículas nestas circunstâncias. Numa etapa mais adiantada, o projeto
propõe a incorporação de DNA codificando sensores bioquímicos ao material
genético em células-tronco de camundongos. Estas poderiam, por sua vez,
permitir a geração de cobaias transgênicas capazes de responder diretamente
à presença de xenobióticos (moléculas estranhas ao organismo).
Subestruturas - Um grupo de pesquisadores ligado ao Instituto Indiano
de Ciências, sediado em Bangalore, por sua vez, explora estratégia
computacional para alcançar o mesmo objetivo. Os cientistas indianos
analisam bancos de dados contendo informações estruturais tridimensionais de
fármacos conhecidos, em busca de subestruturas (toxicóforos) que possam ser
responsabilizadas por determinados efeitos colaterais. Exemplo prático
aparece em artigo em prestigiada revista da American Chemical Society(1), no
qual os autores correlacionam a ocorrência da torsade de pointes, variedade
de arritmia cardíaca, com a presença e posicionamento de determinados grupos
químicos na molécula. Núcleo aromático ligado a um átomo de nitrogênio
protonizado, através de ponte etilênica, foi identificado como um dos grupos
suspeitos de induzir a ocorrência da anomalia cardíaca, ao lado de grupos
mais simples, como anéis aromáticos ligados a substituintes, como flúor ou
1-hidroxietila. Tais subestruturas são, de fato, encontradas em fármacos,
como cisaprida, quinidina, dofetilida e sotalol, entre outros, todos
considerados torsadogênicos. A técnica empregada, aplicada a um conjunto de
350 moléculas com atividade farmacológica, gerou taxa de acertos da ordem de
97%.

Semelhanças - Outra pesquisa, promovida por Peer Bork e equipe, do
European Molecular Biology Laboratory, Heidelberg, Alemanha, utilizou
computadores para descobrir características estruturais em fármacos
comerciais, objetivando a detecção de efeitos colaterais que possam abrir
novas possibilidades de emprego para as moléculas. Em artigo publicado em
2008(2), os pesquisadores relatam correlações entre vinte pares de fármacos
comerciais, prevendo novos empregos com base na similaridade de seus efeitos
colaterais. Ensaios in vitro realizados com nove destes pares confirmaram as
previsões.
Um dos pares encontrados abrange o antidepressivo fluoxetina (Prozac) e o
antiulcerogênico rabeprazol (Pariet). Embora os fármacos sejam empregados em
função de suas capacidades inibitórias sobre a reabsorção de serotonina no
SNC e sobre bombas de prótons no estômago, respectivamente, ambos
demonstraram propriedades estimulantes sobre o receptor dopaminérgico D3,
alvo de agentes antiparkinsonianos, como a hoje proibida pergolida (Celance).
Da mesma forma, descobriram que o antidepressivo mirtazapina (Remeron) e o
sedativo zaleplona Sonata), cujos mecanismos de ação básicos envolvem
interação com o receptor de ácido ?-aminobutírico (gaba) e com o receptor
adrenérgico a2 no sistema nervoso central, respectivamente, também são
capazes de complexar com o receptor H1 da histamina, sugerindo uso potencial
como antialérgicos.
(1)Chandra, N. et al. J. Chem. Inf.
Model. 46(6):2478-86, 2006.
(2)Bork, P. et al. Science 321:263-6, 2008. |
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