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Estado paulista inova ao tentar debelar
poluição por meio de política de
compensações e de negociação de créditos
Marcelo Furtado
A
nova política para controle da poluição do ar do estado de São Paulo
deveria ser mais bem observada pelo restante do país. Instituída desde o
final de 2007 por um decreto estadual (52469), e de fato apenas no momento
colhendo os seus primeiros frutos, a nova estratégia do órgão ambiental
paulista, a Cetesb, pode servir de modelo para outros estados interessados
em adotar uma forma inteligente de fiscalização, com potencial para
melhorar as emissões atmosféricas da indústria.
O grande primeiro mérito da regulamentação foi ter deixado de lado um
vício das legislações mais convencionais: basear suas exigências por
padrões de emissões. Ao contrário de determinar limites
indiscriminadamente aos fiscalizados, o decreto equilibrou as
determinações conforme o tipo de bacia aérea em que a indústria está
instalada. E isso depois do monitoramento da qualidade do ar feito pela
Cetesb definir que a “atmosfera” paulista está dividida em três bacias: as
saturadas, aquelas em que a poluição já atingiu nível máximo; as em via de
saturação, de nível intermediário; e as não-saturadas, ou seja, as com
padrões de poluentes ainda aceitáveis.
E é nessa organização que mora o diferencial da regulamentação. Com o
mapeamento, o órgão tem condições de determinar condutas conforme o grau
de “periculosidade” para o ar de cada indústria fiscalizada, as chamadas
fontes fixas poluidoras. Isto é, as exigências serão diferentes: mais
severas para os situados nas bacias saturadas e menos rigorosas, de forma
gradativa, para os outros dois tipos de bacias aéreas.
Segundo o gerente do departamento de tecnologia do ar da Cetesb, Carlos
Eduardo Komatsu, a regulamentação está na primeira etapa, com suas
diretrizes valendo por enquanto apenas para os novos empreendimentos e as
ampliações de fábricas. Na segunda fase, a partir de janeiro de 2013, as
regras passarão a valer também para as empresas já existentes, que
precisarão se adequar a um novo plano de controle, com metas de redução de
emissões específicas por empresas e criado em cima de inventário regional
de fontes fixas e móveis de poluição em elaboração pela Cetesb.
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O surgimento da nova
política, ainda de acordo com Komatsu, reflete-se nas mudanças
proporcionadas pelo sistema de licenciamento ambiental renovável que
entrou em vigor em 2003 no estado. Isso porque, com a obrigatoriedade
das empresas de requisitar nova licença de operação ao órgão em
períodos de dois a cinco anos (dependendo do tamanho e da atividade
industrial), foi possível estreitar a relação com os fiscalizados. “A
renovação compulsoriamente chama a empresa até nós, o que permite que
estabeleçamos regras e metas para elas”, afirmou Komatsu. Bom lembrar
que antes desse sistema a empresa apenas precisava de uma licença
ambiental para iniciar sua operação. Depois disso, o controle de suas
atividades dependia da visita dos fiscais, o que nem sempre é possível
de forma efetiva. |
Cuca Jorge

Komatsu: órgãos públicos devem gerar mais créditos de emissão |
Créditos – As
regras do decreto estadual já válidas para os interessados em instalar
novas unidades ou promover ampliações, e que ainda nortearão o controle no
futuro, baseiam-se em uma política de compensações e de negociação de
créditos de emissão. No momento, isso significa que a empresa, ao querer
se instalar ou aumentar sua capacidade em uma área considerada saturada
(como a região metropolitana de São Paulo), precisará gerar 110% de
medidas de compensação. “Se ela emitirá, por exemplo, 100 t por ano de
poluentes a mais na bacia aérea, precisará tomar medidas para mitigar 110
t”, explicou Komatsu. Agora, se a mesma operação for feita na bacia em via
de se tornar saturada, a relação será de 100% de medidas corretivas.
As compensações poderão ser feitas de várias maneiras. Nessa primeira
etapa, se o objeto de controle for uma ampliação produtiva, a empresa
poderá investir em melhorias de suas emissões existentes, gerando créditos
de emissão que serão revertidos na ampliação. Mas caso se trate de uma
nova fábrica, as alternativas serão um pouco mais ousadas. A empresa
poderá gerar créditos financiando e promovendo melhorias nas emissões de
indústrias vizinhas da região. Há a possibilidade ainda de se fazer
compensações com reduções de emissões veiculares. Nesse caso, a
fiscalizada pode melhorar ou renovar sua frota cativa ou patrocinar
operações semelhantes em empresas de transporte público municipal.
Aliás, a introdução de órgãos públicos nas operações de crédito parece ser
uma aposta da Cetesb para facilitar a partida da engrenagem da nova
regulamentação. Segundo informa o gerente Komatsu, há conversações entre a
agência ambiental paulista e empresas estatais como o Metrô de São Paulo e
até mesmo com a prefeitura municipal. Isso porque há como se calcular, por
exemplo, a quantidade de carros que uma nova linha do metrô (por sinal, em
expansão na cidade) pode remover das ruas e, por conseguinte, o quanto de
emissões poluentes seria removido do ar da cidade. Da mesma forma, pelo
lado da prefeitura, um corredor de ônibus, por melhorar o fluxo dessa
matriz de transporte, também reduz a quantidade de poluentes. Em ambos os
casos, portanto, há a possibilidade de gerar créditos, que seriam
comprados por empresas interessadas em dar continuidade a seus planos no
estado paulista.
Komatsu acredita que a introdução desses novos atores no mecanismo de
controle tem mais chances de fazer a nova regulamentação rodar. Isso
principalmente em comparação com a alternativa de comercialização de
créditos entre as próprias empresas. “Nesse primeiro ano, percebemos que
as empresas que geram créditos não demonstram muito interesse de
vendê-los. Preferem guardá-los para futuras expansões”, explicou. Já as
autarquias ou empresas estatais não teriam motivos para manter os créditos
e ainda poderiam gerar uma receita extra com a venda deles.
Ozônio é vilão – O mapeamento do estado por saturação se baseia no
monitoramento dos poluentes primários (material particulado, monóxido de
carbono, NOx e SOx) e dos secundários, cujo destaque é o ozônio (O3)
troposférico, formado pelas presenças de NOx, VOCs (componentes orgânicos
voláteis) e luz solar. O caso do ozônio é considerado o mais crítico e sua
presença por enquanto fez cem municípios ficarem em área de saturação.
Aliás, o fato de ser complexo e perigoso para a saúde tornou o critério de
qualificação do ozônio mais rigoroso. Se sua presença em nível elevado for
alta em um local, num raio de 30 quilômetros todas as cidades da bacia
aérea serão enquadradas como saturadas. Já a presença elevada de algum dos
poluentes primários apenas torna saturada a cidade em que houve a
detecção.
Esse zoneamento do ar paulista estimula indiretamente as empresas a deixar
de superpovoar áreas degradadas porque a sua ocupação passará a ser mais
onerosa. “Os investimentos para a empresa se instalar serão mais altos,
contemplarão, além do controle próprio, a compra de créditos ou as
compensações em terceiros”, disse. “E nada mais justo: se a empresa mesmo
assim quiser ficar na região metropolitana e usufruir da infraestrutura
local e da proximidade do consumo, precisará pagar mais por isso. Do mesmo
modo que uma pessoa que deseja morar em um bairro melhor”, completou
Komatsu.
Por outro lado, se a empresa decidir se mudar de uma área saturada para a
não-saturada, além de sair do custo mais oneroso demandado para se manter
sob mais exigências, ela ainda vai gerar créditos de emissão. O problema é
que muitas não têm interesse de se manter afastadas da região
metropolitana, já que o custo logístico também subiria em áreas
longínquas. E isso sem falar que a tendência é as áreas saturadas e em via
de saturação se tornarem cada vez mais preponderantes no mapa estadual.
No próximo levantamento da qualidade do ar do estado, a ser divulgado em
junho, a previsão, segundo Komatsu, é de que muitas regiões do interior
paulista, apenas a partir de 2008 sob monitoramento contínuo, sejam
incluídas no mapa como saturadas ou no caminho da saturação. Isso muito
por causa da grande atividade sucroalcooleira dessas regiões, cuja
combustão da produção e das queimadas gera NOx em abundância, e também por
conta da crescente poluição provocada pelas fontes móveis, ou seja,
carros, caminhões e ônibus. Juntem-se os óxidos de nitrogênio e os VOCs
(principalmente gerados nas cidades pela combustão da gasolina e do
diesel) com a abundante luz solar do interior paulista e está formada mais
uma grande quantidade do “vilão” ozônio.
A preocupação com o ozônio, cujo poder oxidante afeta as vias aéreas das
pessoas, facilitando infecções e a transmissão de doenças, vai nortear as
próximas exigências da Cetesb com as fontes fixas poluidoras. Mas isso
ocorrerá, segundo Komatsu, levando-se em consideração também a poluição
provocada pelos principais causadores da má qualidade do ar: os
automóveis, com destaque ônibus e caminhões movidos pelo péssimo diesel
fornecido pela Petrobras, com 500 ppm de enxofre na sua composição. Nos
inventários das fontes poluidoras, será possível conhecer melhor a parcela
de contribuição das indústrias e, com as informações, as metas terão menos
chances de ser descabidas.
“Não adianta exigir que uma indústria zere suas emissões em uma área em
que 90% dos poluentes têm origem veicular. As melhorias seriam
imperceptíveis na bacia aérea”, disse o gerente. Na região metropolitana
de São Paulo, por exemplo, cerca de 90% do NOx é gerado pela combustão
veicular, assim como os VOCs pela evaporação da gasolina e do diesel. E o
pior, nesse sentido, é saber que a Cetesb tem pouco a fazer em termos de
estratégia de combate. “Em veículos leves, o que dava para controlar já
foi feito. O problema principal é o diesel usado pelos pesados”, explicou.
Segundo Komatsu, poderia ser exigida a instalação de catalisadores nos
escapamentos de caminhões e ônibus, o que minimizaria em muito as
emissões. Mas isso só é possível com o diesel com 50 ppm de enxofre,
aquele que a Petrobras se recusou a produzir no Brasil, descumprindo
antigo acordo de metas.
A maior responsabilidade dos carros na área metropolitana, porém, não
remove a indústria da estratégia de controle. Além de ela ter sua parcela
de culpa na formação do ozônio, com a combustão provocada por seus fornos
e caldeiras e pela emissão de VOCs (solventes e combustíveis), há áreas
industrializadas em que seu percentual de poluição da bacia aérea é maior,
como Cubatão e Paulínia, por exemplo. Nesse contexto, Komatsu afirma que a
Cetesb estabelecerá a partir de 2013 metas de redução de NOx e de VOCs
para as empresas já instaladas (sem estipular padrões de emissão), que
serão verificadas a cada renovação de licença. Isso sem falar que os novos
empreendimentos e as ampliações feitas no momento já seguem orientações de
controle desses poluentes. Segundo o gerente, há até casos de empresas
instaladas fazendo melhorias voluntárias para gerar créditos de emissão
para uso na segunda fase da política de controle.
Fornecedores de olho – Esse ambiente propício para o uso futuro de
tecnologias para controlar NOx e VOCs cria clima de expectativa entre os
fornecedores de sistemas de controle de poluição do ar. Muitos deles já
começam a incluir em suas carteiras equipamentos e técnicas para tratar
esses poluentes. No caso dos óxidos de nitrogênio, para atender ao novo
panorama a perspectiva é de que comecem a ser empregados queimadores
low-NOx, sistemas catalíticos de redução e de injeção de amônia. Para os
VOCs, abre-se campo para a adoção de tecnologias de oxidação térmica ou de
recuperação de solventes, por exemplo.
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Embora poucas empresas
tenham já adotado algum tipo de controle de NOx, e o mercado ainda não
tenha de fato se iniciado, dificilmente uma empresa da área de
controle ambiental não irá se preparar para as previstas novas
encomendas. Uma das líderes nessa área, a Enfil Controle Ambiental, de
São Paulo, segundo informou seu diretor, Franco Tarabini, em breve
fechará um contrato de licenciamento tecnológico de sistema catalítico
DeNOx com uma empresa dinamarquesa.
Com a experiência de já ter fornecido centenas de sistemas de controle
de material particulado (precipitadores eletrostáticos e filtros de
manga) na indústria siderúrgica, além de recentemente
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Cuca Jorge

Tarabini: nova onda de obras será para
combater os NOx |
estar entregando sistemas
de dessulfurização de gases em usinas térmicas a carvão, Tarabini não tem
dúvidas sobre a nova onda do mercado, que vai atingir a indústria pesada.
“Fornos de cimento, gases de combustão da indústria siderúrgica, de
petróleo, todos eles vão precisar partir para sistemas DeNOx”, explicou o
diretor da Enfil, hoje também uma das empresas que lideram o mercado de
engenharia e projetos de tratamento de água e efluentes, com grandes obras
nas principais refinarias da Petrobras (Revap, Repar, Rnest e Reduc).
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