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Tratamento ganha reforço
tecnológico para recuperar
correntes e diminuir custos
Texto: Marcelo Furtado
Fotos: Cuca Jorge
Falar hoje em tratamento de água industrial pensando apenas em se garantir
com fontes de abastecimento convencionais, captando de rios ou poços ou
firmando caros contratos com companhias de saneamento, deve em breve ser
considerada coisa do passado. Custos altos para tratar os mananciais
poluídos, escassez e dificuldades na obtenção de outorgas para novas plantas
e ampliações são fatores conhecidos e cada vez mais verdadeiros. Assim como
o encarecimento das tarifas cobradas pela água tratada e pelo efluente
descartado nas redes públicas.
Nesse panorama, reusar correntes internas nas fábricas, com o emprego de
tecnologias mecânicas ou químicas, ou com operações de conservação e
reaproveitamento, virou palavra de ordem. Isso vale, em uma primeira fase,
principalmente para as empresas mais avançadas em gerenciamento ambiental,
que não vêem os investimentos, por vezes altos, como algo absurdo ou de
difícil convencimento para a diretoria. Corporações que trabalham com
grandes volumes de produção, e demandas de água igualmente consideráveis,
facilmente encontram lógica em bancar projetos de porte. E a tendência é em
um futuro próximo o conceito se espalhar por todas as cadeias produtivas, de
forma gradativa e proporcional ao agravamento da disponibilidade hídrica de
cada empresa.
O exemplo mais importante da atualidade de empresa que está transformando
suas estações de tratamento de água (ETAs) em unidades totalmente ligadas a
circuitos de reúso é sem dúvida a Petrobras. Promovendo um plano nacional de
ampliação do seu parque de refino, a estatal decidiu fundamentar o
abastecimento de água das ampliações e novas refinarias com o máximo
possível de correntes de reúso. Suas ETAs, algumas delas em projeto e outras
já em construção, passaram a se confundir com ETEs (estações de tratamento
de efluentes), tamanhas as tecnologias que passarão a reaproveitar e polir,
até o ponto máximo de tratamento, ou seja, de produção de água
desmineralizada, várias correntes que anteriormente eram apenas descartadas
ou evaporadas nas refinarias.
Há no momento diversas obras nas refinarias da estatal que contemplam
sistemas inovadores e audaciosos de reúso de grandes correntes de água das
refinarias. Os projetos têm em comum a adoção de tecnologias ainda pouco
usadas no Brasil – como os MBRs (membrane bio-reactors), EDRs (eletrodiálise
reversa) e sistemas de recuperação de condensado – e as complexidades das
operações de engenharia que resultam em investimentos nunca inferiores a
centenas de milhões de reais. Não por menos, estimativa dá conta de que, até
2014, a Petrobras planeja investir em torno de R$ 600 milhões por ano em
projetos de reúso, com o propósito de economizar em uma primeira etapa por
volta de 650 milhões de litros por mês de água, diminuindo consideravelmente
a pressão para conseguir novas outorgas de captação nos corpos d’água
brasileiros.
Há obras em estágio avançado na Refinaria Henrique Lage (Revap), de São José
dos Campos-SP, na Reduc, de Duque de Caxias-RJ, e outras recém-acordadas na
Refinaria Getúlio Vargas (Repar), em Araucária-PR, e na nova refinaria Abreu
e Lima, a Rnest, em Ipojuca-PE. As duas primeiras obras estão em andamento
(ver QD-470, de fevereiro de 2008), sendo que a primeira contempla reúso de
efluentes e de condensado para reutilização nas utilidades da refinaria e a
segunda apenas envolve o tratamento de água poluída de rio, com membranas de
ultrafiltração de um sistema de MBR e posterior desmineralização com colunas
de troca iônica.
Já as duas mais recentes concorrências, na Repar e na Rnest, levam o
conceito do reúso ao extremo, considerando as correntes recuperadas como
prioritárias no desenho das refinarias. O primeiro caso, em uma fase de
projeto já mais adiantada, envolve dois consórcios responsáveis pela
execução das obras e instalação e comissionamento dos sistemas: um para a
estação de tratamento de água (ETA), a cargo das empresas Veolia e Enfil, e
outro para executar a construção da estação de tratamento de despejos
industriais (ETDI), do consórcio GEO-Passarelli, cujo pacote tecnológico é
fornecido pela Centroprojekt.
| Projeto orçado em mais de R$ 500 milhões e com contrato assinado em setembro
de 2008, a ETA na Repar será a responsável especificamente pelo reúso das
correntes de água da nova unidade, que será abastecida por três fontes: a
água bruta da barragem do Rio Verde; o efluente tratado fornecido pela ETDI
feita pela Centroprojekt; e o vapor condensado da refinaria. De acordo com o
diretor da Enfil, Juan Carlos Natali, o objetivo da estatal com a nova
empreitada é recuperar o máximo possível de água com o propósito principal
de alimentar suas caldeiras de alta pressão.
Com todo o fluxograma da unidade pronto, e em fase de compra de equipamentos
e início de obras, as tecnologias foram previamente definidas na
concorrência com grande nível de detalhamento. A corrente do efluente
tratado da ETDI, por sua vez tratado por uma estação de biorreator a
membranas em instalação pela Centroprojekt (cuja tecnologia será com
membranas de fibra oca, provavelmente da Siemens), passará por uma unidade
de eletrodiálise reversa (EDR) da GE Water, para remoção de sais
dissolvidos, a ser instalada pela Enfil. |
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| Natali: Petrobras prioriza o reúso em suas novas ETAs |
A escolha pela EDR e não por outros sistemas mais tradicionais de
desmineralização de água, segundo o diretor Natali, se deveu a alguns anos
de pesquisa da equipe de técnicos da Petrobras do Cenpes, que definiram as
tecnologias para cada necessidade do reúso. “Ela é mais fácil de limpar,
mais robusta e apropriada para a operação em refinaria”, explicou. “Quando
começa a saturar, basta abri-la e limpá-la mecanicamente, ao contrário da
osmose reversa, que, além de muito sensível a contaminações orgânicas,
precisa de dosagem constante de produtos químicos, um bom pré-tratamento e
periódicas limpezas químicas”, completou o diretor da Enfil. Isso sem falar
que a EDR é tolerante ao cloro, ao contrário das membranas de osmose
reversa.
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