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Novos anticancerígenos animam congresso de oncologia
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O encontro anual da Sociedade Norte-Americana de Oncologia Clínica (ASCO, em
inglês), realizado entre 29 de maio e 2 de junho em Orlando, FL, exalou
otimismo. Pesquisadores representando centenas de empresas dedicadas a
pesquisas biofarmacêuticas de ponta buscaram chamar a atenção dos cerca de
30 mil participantes para dados satisfatórios obtidos em ensaios clínicos de
diversas classes de antineoplásicos experimentais, com ênfase para vacinas,
inibidores de quinases, bloqueadores de receptores e novos produtos baseados
em estratégias de terapia genética. Resultados divulgados no encontro reforçam previsão feita em novembro
passado pela ONG britânica Cancer Research UK, responsável pelo patrocínio
de pesquisas sobre câncer envolvendo cerca de 4.500 cientistas europeus,
segundo a qual cerca de 170 fármacos, de um total de 974 antineoplásicos
atualmente em desenvolvimento clínico, mostram possibilidades de chegar ao
mercado. A taxa de êxitos potenciais, da ordem de 18%, surpreende se
comparada com a média anteriormente considerada para antineoplásicos
experimentais, da ordem de 5%. A ONG atribui os bons resultados a
descobertas sobre biologia de células cancerosas, aliadas à adoção de
ofensivas mais seletivas em relação aos tumores, reduzindo a
manifestação de efeitos tóxicos sobre células saudáveis. |
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bio
& farma
Michael
Nothenberg
é Doutor em Química, Mestre em Farmácia, professor universitário e
jornalista
msnothenberg@gmail.com |
Inibidores de quinases, família à
qual pertencem blockbusters como imatiniba (Glivec, Novartis, 2001),
apresentam probabilidade de aprovação três vezes superior em relação a
outras classes de cancerígenos pesquisados, concluiu a ONG em compilação
realizada entre fármacos sob ensaio entre 1995 e 2007.
Também a consultoria londrina URCH Publishing (Unique Reports for Commercial
Help) prevê período de bonança para anticancerígenos. Para a empresa,
detentores de novos antineoplásicos verão seu mercado expandir a taxas de
crescimento composto anual de 9,4% nos próximos cinco anos, alcançando valor
da ordem de US$ 103,9 bilhões em 2012. A URCH prevê crescimento na
participação de empresas como Roche, Genentech e Merck, em detrimento da
Amgen (atual líder de mercado em produtos oncológicos nos EUA),
Sanofi-Aventis, AstraZeneca e Johnson & Johnson. Paralelamente, o número de
doentes – por assim dizer, o mercado dos novos fármacos – deverá crescer de
4 milhões para 4,2 milhões entre 2007 e 2012.
Tríplice negativo – Inibidores da poli(ADP-ribose)polimerase-1 (PARP1), cuja
função é bloquear o reparo natural do DNA promovido pela enzima, fazendo com
que células tumorais se tornem mais sensíveis à ação de quimioterápicos, são
uma nova esperança no combate ao câncer de mama triplamente negativo. A
neoplasia tem este nome porque as células tumorais não possuem receptores
para estrogênio, progesterona e Her-2, mostrando, daí, resistência à terapia
hormonal e ao trastuzumabe (Herceptin, Genentech, 1998), anticorpo
monoclonal projetado para desativar o receptor da proteína Her-2 mutante,
cujo estímulo promove indesejável proliferação celular. No entanto, tal tipo
de tumor parece sensível ao inibidor de PARP BSI-201, em desenvolvimento na
BiPar Sciences, de Brisbane, CA. Ensaio clínico de fase II em 116 mulheres
vítimas de câncer de mama em estágios avançados, tratadas com BSI-201 em
associação com quimioterápicos, como gencitarabina e carboplatina, propiciou
sobrevida média de 9,2 meses em comparação com apenas 5,7 meses naquelas
tratadas exclusivamente com quimioterapia. Em paralelo, os pesquisadores
registraram redução na malignidade e nos volumes dos tumores. Os resultados
foram, sem dúvida, determinantes para a aquisição da BiPar pela
Sanofi-Aventis por US$ 500 milhões, em abril último.
A AstraZeneca, por sua vez, apresentou resultados que atestam a eficiência
da olapariba, outro inibidor de PARP, no controle de câncer de mama causado
por mutações nos genes BRCA-1 e BRCA-2, que normalmente expressam proteínas
antitumorais. Em ensaios realizados em 27 pacientes hospitalizados, tratados
com doses orais de 400 mg/dia de olapariba, 40% experimentaram reduções
significativas nos volumes dos tumores e bloqueio de progressão por seis
meses, em média. Merck e Abbott também mantêm projetos de desenvolvimento de
inibidores da PARP (Tabela 1), classe cujo advento, segundo Powel Brown,
pesquisador em prevenção de câncer da Escola de Medicina Baylor (Houston, TX),
entrevistado pela agência Bloomberg, representa um marco para portadores de
câncer de mama, podendo resultar no lançamento comercial de novos fármacos
para a especialidade em apenas um ou dois anos.

Sobrevida prolongada – Um antineoplásico experimental, o OGX-011, em
desenvolvimento na empresa canadense OncoGeneX Pharmaceuticals (Vancouver,
BC), ensaiado em associação com terapia quimioterápica à base de docetaxel (Taxotere,
Sanofi-Aventis), mostrou-se promissor no tratamento de câncer de próstata.
Resultados, divulgados no congresso, indicaram que ensaio realizado em 82
pacientes terminais permitiu sobrevida de dois anos em comparação com
aproximadamente sete meses propiciados pelo docetaxel isolado.
Se confirmados em ensaio mais amplo, os dados terão forte impacto sobre a
atual terapia de combate ao câncer de próstata, considerando que o uso do
docetaxel foi aprovado pela FDA após demonstrar capacidade de prolongar a
vida dos pacientes por apenas 2,4 meses. Ainda a título de comparação, outro
anticancerígeno potencial, a vacina imunoestimulante sipuleucel-T (Provenge),
em desenvolvimento na Dendreon Corp., de Seattle, WA, e que, segundo
especialistas, poderá render US$ 1 bilhão/ano ao fabricante assim que
receber aprovação do FDA, propiciou sobrevida média de 4,1 meses,
praticamente sem provocar efeitos colaterais.
O OGX-011 foi desenvolvido com tecnologia licenciada da Isis Pharmaceuticals
(Carlsbad, CA), especialista no desenvolvimento de agentes antissentido,
estratégia de terapia genética que compreende o silenciamento de genes e o
decorrente bloqueio da produção de proteínas correspondentes, por meio de
fitas de RNA sintéticas (oligonucleotídios) complementares às de RNA
mensageiros. O novo fármaco tem por missão o bloqueio da síntese da
glicoproteína clusterina, produzida por células tumorais e que, por
mecanismo ainda não de todo esclarecido, inibe o processo natural da
apoptose, a morte de células alteradas sob mediação do próprio organismo.
Mais seletividade - Ensaio em fase II, realizado com a tivozaniba (AV-951),
permitiu que um quarto de 271 pacientes portadores de câncer renal avançado
tivesse o volume de seus tumores reduzido, prevenindo a disseminação da
moléstia ao longo de 11,8 meses, em média. Apresentados pela Aveo
Pharmaceuticals, de Cambridge, MA, os resultados colocam o fármaco, de uso
oral, em competição direta com os demais bloqueadores de receptores de
fatores de crescimento de endotélio vascular, VEGF (de Vascular Endothelial
Growth Factor), cuja inibição previne a proliferação de vasos sanguíneos
junto aos tumores, impedindo o acesso de nutrientes e a criação de rotas
para a migração de células com potencial metastático para outros órgãos.
Segundo o fabricante, a tivozaniba, por ser mais seletiva que
anticancerígenos disponíveis, sunitiniba (Sutent, Pfizer) e sorafeniba (Nexavar,
Bayer/Onix), pode apresentar efeitos colaterais mais amenos. Ensaios já
realizados indicaram apenas aumento da pressão arterial e rouquidão.
Quanto às perspectivas comerciais, basta lembrar os faturamentos da Pfizer e
Bayer com seus respectivos agentes anti-VEGF em 2008: US$ 850 milhões e US$
678 milhões. Tanto Pfizer quanto GlaxoSmithKline anunciaram estar
desenvolvendo anticancerígenos anti-VEGF mais seletivos, batizados como
axitiniba e pazopaniba, respectivamente.
Outro candidato a fármaco ativo contra carcinomas renais apresentado na ASCO
foi a IL-21 (interceucina 21), da ZymoGenetics (Seattle, WA). Ensaios
demonstraram que o fármaco, cópia obtida por engenharia genética de uma
citocina capaz de estimular linfócitos, do sistema imune, a destruir células
estranhas ao organismo, incluindo as cancerosas e as invadidas por vírus, é
útil quando associado a outros fármacos, como a já citada sorafeniba (Nexavar).
Nestas circunstâncias, permitiu que 21% de 33 pacientes, que sofreram
recidivas após ao menos uma série de quimioterapia, apresentassem redução de
tumores e sua estabilização por 5,7 meses, com a vantagem de os efeitos
colaterais – baixos níveis séricos de fosfato e erupções de pele –,
permitirem o tratamento em pacientes não-hospitalizados.
A Infinity Pharmaceuticals, outra empresa sediada em Cambridge, MA, divulgou
dados demonstrando que seu candidato a anticancerígeno retaspimicina
(IPI-504) tem o poder de encolher tumores pulmonares mesmo sem a
administração paralela de quimioterápicos. O mecanismo de ação do fármaco
potencial consiste no bloqueio de síntese da proteína de choque térmico 90
(Hsp90, de heat shock protein 90). A macromolécula pertence a uma classe de
proteínas cuja síntese é induzida por situações de estresse, como calor,
frio ou hipóxia (baixa oxigenação), tendo como função preservar a
integridade estrutural e a disponibilidade de biomoléculas essenciais à
sobrevida de células. Sua ausência, presumivelmente, promoveria a
desestabilização das, assim chamadas, proteínas clientes, tornadas
oncogênicas em função de mutações. A Hsp90, em particular, tem funções
associadas ao receptor do fator de crescimento epidérmico, EGFR (de
epidermal growth factor receptor), e Her-2, cujas mutações induzem
variedades de câncer de pulmão e de mama, respectivamente.
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