| |
GLICERINA
 |
Crescimento do biodiesel
provoca inundação no
mercado de glicerina,
incentivando a descobrir
novas aplicações
Frascos contêm
glicerina bruta
e bidestilada |
Texto: Marcelo Fairbanks
Fotos: Cuca Jorge
O desenvolvimento atabalhoado da produção de biodiesel no Brasil vitimou o
mercado de glicerina. O excesso de oferta derrubou os preços do triálcool e
forçou os produtores do subproduto do biodiesel a aceitar propostas
indecorosas para esvaziar seus tanques por meio de exportações. Felizmente,
estão sendo desenvolvidos vários processos químicos e aplicações para
absorver esses excedentes, valorizando-os. Ao mesmo tempo, os usuários
passaram a perceber as diferenças qualitativas entre os produtos obtidos
pelos processos tradicionais de hidrólise e saponificação dos obtidos da
transesterificação com metanol, atribuindo a eles preços diferenciados.
A maior possibilidade de consumo de glicerina que está em estudos consiste
na produção de propeno “verde”, para ser polimerizado em polipropileno. Essa
resina terá fonte renovável, característica que lhe assegurará um prêmio no
preço final de venda. Essa ideia surgiu na Quattor, que buscou apoio no
Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IQ-UFRJ) e
está em etapa piloto, com expectativa de iniciar logo a fase
semi-industrial.
Anunciado com estardalhaço e pouco rigor de planejamento, o Programa
Nacional de Biodiesel alcançou as metas previstas, até mesmo antecipando-as.
A partir de 1º de julho, o diesel vendido nos postos de abastecimento no
Brasil terá 4% de biodiesel (a mistura B4), etapa programada para entrar em
vigor apenas no próximo ano. A antecipação aumentará a demanda do biodiesel
puro em cerca de 400 milhões de litros por ano. Dessa forma, o consumo
nacional de biodiesel puro (B100) passará dos atuais 1,5 bilhão de litros
para quase 1,9 bilhão de litros/ano. Segundo a Agência Nacional de Petróleo
(ANP), a demanda estimada será de 1,72 bilhão de litros, para um consumo de
diesel de 43 bilhões de litros. Ainda assim, a capacidade instalada do éster
passa de 3,5 bilhões de litros. A alta ociosidade e o fraco desempenho
econômico mantêm várias usinas hibernando ou paralisadas. No final de junho,
a ANP anunciou que a mistura B5 será implementada em 2010, três anos antes
da previsão original. Ou seja, mais glicerina chegará ao mercado.
O programa do biodiesel começou em 2005, sem contar com especificações
oficiais nem com uma diretriz quanto às matérias-primas a processar. Até a
discussão sobre a rota metílica ou etílica foi ignorada inicialmente, com a
atual preferência pela primeira. Hoje, a soja representa 85% da
matéria-prima consumida e o restante é obtido principalmente de gorduras
animais.
O planejamento, falho do berço, também deixou ao relento a glicerina. A
produção de cada 90 metros cúbicos de biodiesel é acompanhada por 10 m3 de
glicerina pura. Dessa forma, considerando a mistura B4, em um ano serão
produzidos 1,9 milhão de m3 de biodiesel e 210 mil m3 de glicerina. Ou,
aproximadamente, 260 mil toneladas a procurar um destino. Esse número é
teórico, saliente-se. Há perdas a considerar, além do fato de parte da
glicerina de biodiesel ser consumida na forma de energia nas próprias
usinas. Além disso, também ocorrem lançamentos criminosos nos cursos d’água,
como já se verificou nos estados do Ceará e da Bahia.
| “Estima-se que o Brasil tenha uma produção de 250 mil t/ano de glicerina
loira de biodiesel, em um ambiente de consumo da mistura B3”, comentou
Felipe Camargo, responsável pela unidade de negócios de soapstock e acid
oils da Aboissa Óleos Vegetais. Essa glicerina carrega grande quantidade de
água, cuja remoção provoca perdas de até 30% de volume. “Calculamos um
excedente disponível de 125 mil t/ano de glicerina bidestilada de biodiesel
no mercado nacional”, disse. |
 |
| Camargo: glicerina pode gerar dano ambiental |
O mercado tradicional de glicerina no Brasil teve um comportamento
conservador nos últimos anos. Dados da Associação Brasileira da Indústria
Química (Abiquim) registram a demanda nacional entre 35 mil e 40 mil
toneladas (da bidestilada, com 99,5% de pureza mínima), atendida pela
ocupação parcial de uma capacidade produtiva entre 55 mil e 60 mil t/ano.
Essa glicerina, obtida de sebo ou óleos vegetais, sempre foi direcionada
para a indústria de alimentos, cosméticos e produtos farmacêuticos, mas
também tem clientes na produção de fumo e, dependendo dos preços, na
indústria de tintas.
“A indústria de tintas sempre foi um comprador ocasional de glicerina; agora
está usando mais porque o preço compensa”, comentou Arigo Guido Miotto,
gerente de vendas da Indústria Agroquímica Braido, produtora há mais de
cinquenta anos de glicerina e ácidos graxos pela hidrólise de gorduras de
origem animal. “Para nós, esse mercado era apenas eventual, nossos maiores
clientes são da indústria farmacêutica, que trabalha com especificação USP [United
States Pharmacopea].”
Miotto explicou que, embora a glicerina obtida nos processos de hidrólise ou
de saponificação tenha características diferenciadas, a entrada do
subproduto do biodiesel provocou uma queda geral das cotações. “São coisas
diferentes, mas o mercado acaba por nivelar por baixo os preços”, disse.
Desde 2007, quando começaram a aparecer os primeiros lotes de glicerina de
biodiesel, as cotações despencaram de R$ 4 para R$ 0,80 por kg. Segundo
informou, desde maio as cotações voltaram para perto de R$ 1,80/kg. O
melhor: a glicerina bidestilada grau USP está sendo reconhecida pelos
clientes como produto superior, fazendo jus a uma remuneração mais alta.
“Com os preços baixos demais, alguns produtores deixaram de atuar no
mercado.”
 |
A Braido processa apenas gorduras animais coletadas em quatro mil pontos,
geralmente açougues e frigoríficos no estado de São Paulo. “São resíduos de
produtos que passaram pela inspeção sanitária e foram aprovados para consumo
humano”, salientou Daniel Guimarães, coordenador de qualidade da companhia.
Essas gorduras são colocadas em um reator onde sofrem cisão por hidrólise a
alta pressão (23 bar) e alta temperatura (220ºC). Do reator saem a água
doce, rica em glicerina, e os ácidos graxos (esteárico e oleico) que são
enviados para separação. |
| Guimarães: hidrólise de sebo alcança grau USP |
Os principais produtos da Braido são os ácidos graxos, mas a glicerina a
40%-50% vai para destilação, seguida de clarificação e de nova destilação,
chegando à pureza mínima de 99,5%. “Estamos produzindo consistentemente
entre 99,7% e 99,8%”, afirmou Guimarães. Essa glicerina atende aos
requisitos USP.
“A tendência é diferenciar as glicerinas, com faixas de preços diferentes”,
afirmou Eduardo Oliva, coordenador da área de óleos vegetais e produtos
fracionados da Uniamerica. “A glicerina de biodiesel carrega resíduos de
metanol e outros produtos e não deveria ser usada em alimentos, cosméticos e
medicamentos.” As aplicações industriais podem aceitar produtos com teores
de glicerol mais baixos, entre 90% e 98%, porém a presença de contaminantes
pode interferir na coloração.
| Segundo Oliva, a exportação de glicerina foi uma solução adotada por muitos
produtores de biodiesel, cujos tanques estavam lotados de glicerina nos
últimos meses de 2008. “Só com a participação da Uniamerica foram vendidas
vinte mil toneladas de glicerina para a China entre dezembro e junho deste
ano”, informou. A empresa faz a aproximação entre vendedores e compradores,
além de oferecer suporte logístico para as operações. “Oferecemos uma
solução completa para as duas pontas da cadeia.” Ele informou que os
compradores exigem teor de glicerol acima de 80% e baixos índices de metanol
residual. Ele adverte, porém, que os estoques das usinas já estão baixos
novamente, fato que contribui para elevar as cotações. Os preços em São Paulo também subiram por conta da paralisação de uma grande
saboaria, por motivos técnicos. Segundo Oliva, a cotação de meados de junho
de R$ 1,80/kg tende a subir para R$ 2. “Porém, o custo de extração e
destilação da glicerina está próximo disso”, calculou. |
 |
| Oliva: soluções para produtor interessado em exportar |
Outra diferenciação de mercado se relaciona com a matéria-prima usada para a
obtenção da glicerina. “Atualmente, a glicerina de origem vegetal consegue
melhor preço, por conta do apelo ambiental”, informou Oliva. Os preços mais
altos são pagos pela glicerina com certificado Kosher, para uso em produtos
alimentícios da comunidade judaica.
“A glicerina Kosher é muito valorizada, mas sua demanda é pequena, tanto que
deve existir um ou dois produtores no Brasil, no máximo”, disse Felipe
Camargo, da Aboissa. Mesmo a produção de glicerina vegetal é restrita,
porque os produtores não querem dispensar o uso eventual de gorduras
animais.
Camargo confirma a redução de estoques da glicerina loira de biodiesel, mas
adverte que a entrada da mistura B4 acelerará a sua recomposição. “A
glicerina pode se tornar um problema ambiental, caso não se encontrem
aplicações viáveis para ela”, afirmou. O resíduo da transesterificação,
chamado de glicerina bruta, não tem mercado porque contém muita água (quase
60%). São poucas as usinas equipadas com unidades de destilação. “Mesmo
assim, a água que sai do destilador também precisaria ser tratada antes do
descarte”, afirmou.
O especialista da Aboissa informou que vários produtores de biodiesel estão
investindo em destilarias de glicerina para valorizá-la. “Uma opção é
arrendar instalações desativadas de fábricas de sabonete ou similares,
capazes de separar a água da glicerina”, disse.
O mercado mundial de glicerina está equilibrado, principalmente com o
crescimento da demanda de produtos cosméticos, ainda longe de qualquer
crise. Além disso, a queda de demanda de combustíveis reduziu a oferta do
derivado de biodiesel, aliviando a pressão, especialmente na Alemanha. A
Malásia concentrou sua produção de glicerina de óleo de palma nos produtos
mais valorizados, com todas as certificações, alcançando preços de US$ 697/t
CIF Santos-SP. O maior consumidor mundial é a China, que enxugou o mercado.
“Os chineses fecharam contratos de suprimento até o fim do ano, embora os
preços não sejam exatamente maravilhosos”, informou. A Aboissa atua como
representante no Brasil e no exterior da glicerina bidestilada, mediante
contratos. Na loira, atua como broker, em operações spot e sem
exclusividade.
|
|