Cuca Jorge

PU leva vantagens na repintura por
dispensar alta temperatura

Poliuretano cresce nas aplicações industriais e automotivas por combinar desempenho superior com sustentabilidade

Marcelo Fairbanks

A química dos poliuretanos oferece aos formuladores de tintas a vantagem de criar novos produtos pela combinação adequada dos ingredientes. Uma vez dominada a tecnologia, revestimentos mais resistentes, ou mais flexíveis, podem ser obtidos. A par do desempenho, esses materiais também avançam na redução de emissões de compostos orgânicos para o ambiente, com opções para as linhas de altos sólidos ou

de base aquosa. No campo dos polióis, o uso de óleos vegetais e derivados, a exemplo da glicerina, surge como alternativa de fonte renovável, melhorando o indicador de sustentabilidade.

A vitalidade dos negócios de revestimentos poliuretânicos se traduz nas iniciativas dos fornecedores de insumos. A Bayer MaterialScience, líder regional nos isocianatos, investiu US$ 500 mil durante os dois últimos anos para modernizar seu laboratório de aplicações da divisão de coatings e adesivos, em São Paulo. Dotado de instalações e instrumentos avançados, além de ampliar o quadro de especialistas, o laboratório se tornará um dos cinco centros técnicos mundiais da companhia.

A sueca Perstorp, importante player mundial, começa a caminhar sozinha no Brasil, montando escritório administrativo e comercial que responde pela América Latina. Em 2008, a companhia comprou a joint venture entre Rhodia e Lyondell para isocianatos, assumindo a linha Tolonate de alifáticos. Além do hexametileno diisocianato (HDI), a Perstorp também possui grande participação nas linhas de isoforona (IPDI) e toluileno (TDI), que fazem parte do amplo cardápio de produtos complementares, entre eles os propanodióis (butil e etil), trimetilolpropano, pentaeritritol e caprolactama.

A Dow e sua divisão Dow Coatings Materials se preparam para ingressar nos isocianatos cicloalifáticos, mais promissores para tintas e vernizes que os seus aromáticos (TDI e MDI), estes melhores nas espumas. Além disso, a companhia começou a oferecer aos clientes polióis obtidos de óleos vegetais, unindo o bom desempenho com o atrativo ambientalmente correto. Polióis de óleos naturais serão o tema de duas das quatro palestras da companhia no 11º Congresso Internacional de Tintas, na Abrafati 2009 (de 23 a 25 de setembro, no Transamerica Expo Center, em São Paulo).

Mercado evolui – As vendas de isocianatos no Brasil cresciam a uma taxa média de 7% ao ano, antes de setembro de 2008, o marco inicial da crise global. As empresas do setor avaliam que o desempenho dos alifáticos era ainda melhor, superando os 10% anuais. “Com a crise, quem ia lançar novidades em tintas se retraiu, temendo que o mercado não as absorvesse; isso vale também para os ajustes de formulação”, comentou Danilo Zanin, gerente regional de vendas para a América Latina da Perstorp. Ele espera uma retomada nas negociações com clientes a partir da Abrafati 2009, para efetivar vendas no início de 2010.

As vendas de isocianatos alifáticos foram conduzidas por mais de doze anos pela Rhodia no Brasil, tendo conseguido em posição de quase 40% nesse mercado, segundo Zanin. A participação mundial nos biuretos e trímeros era estimada em 26%. “Contávamos com o apoio do portfólio de solventes orgânicos da Rhodia”, reconheceu. Apesar disso, ele considera que a Perstorp possui outros complementos químicos na linha do PU e, por ser mais focada nas especialidades, a atuação solo não representará um impacto negativo nas vendas.

Até o momento, as vendas de produtos para PU da Perstorp são feitas por meio da distribuidora exclusiva M.Cassab, embora as negociações sejam acompanhadas pela fabricante. “Ainda não definimos se investiremos para reforçar a estrutura local, mas já temos armazenagem e transporte contratados, até para sermos uma plataforma de abastecimento regional”, informou.

O problema renitente dos poliuretanos continua sendo o custo mais elevado em relação a outros materiais. Em algumas aplicações, mesmo sendo francamente superior aos demais, o PU fica restrito ao top coat (camada externa de pintura) ou ao primer (em contato direto com o substrato), quando poderia compor todo o sistema. Na pintura automotiva, camadas de epóxi e poliéster são quase sempre recobertas por vernizes poliuretânicos de alta resistência. Na indústria moveleira, o PU recobre camadas alquídicas ou de nitrocelulose. “Essa criatividade brasileira, porém, indica possibilidade de crescimento para o PU, único material capaz de apresentar alto desempenho com camada fina e de fácil aplicação”, comentou Zanin.

Os poliuretanos alifáticos exibem maior vigor de demanda que os aromáticos, fato justificado pela sua maior resistência ao

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Zanin: só PU pode oferecer alta proteção com camada fina

amarelamento e por serem menos agressivos à saúde humana. “Mesmo no Brasil, os poliuretanos alifáticos crescem mais do que a média de todo o mercado de tintas”, salientou Alberto Hassessian, gerente da divisão de revestimentos e adesivos para a América Latina da Bayer S.A. Ele comentou que a maior participação dos aromáticos reside na fabricação de espumas poliuretânicas.

Hassessian aponta uma diferença básica entre o uso do PU em espumas e tintas: no primeiro caso os formuladores incentivam a liberação do gás carbônico; no segundo, a formação de espuma é um problema e deve ser evitada a qualquer custo. A aplicação em espumas nasceu no começo do século vinte, enquanto o uso em tintas é mais recente, tendo surgido na década de 60. “O PU alifático é o único sistema que consegue reproduzir na temperatura ambiente as mesmas características de uma pintura feita em estufa”, comentou. Isso permitiu ao PU conquistar cerca de 70% do mercado de tintas de repintura automotiva. O mesmo vale para grandes estruturas, impossíveis de colocar em estufas, como plataformas de petróleo e tanques de armazenamento.

A estratégia mundial da Bayer para o negócio de PU em tintas aponta para o fortalecimento nos isocianatos, sem deixar de lado os polióis especiais (a linha Desmophen, que inclui, por exemplo, policarbonatos hidroxilados). Os polióis básicos, os acrílicos hidroxilados e os poliésteres insaturados, considerados commodities, tiveram sua produção concentrada em uma moderna e eficiente fábrica na Alemanha. “A Bayer criou uma empresa, a Viverso, que opera no e-commerce de forma bastante competitiva nesses produtos standard”, explicou.

Segundo ele, a companhia incentiva o desenvolvimento de PU em base água, de sistemas para cura por ultravioleta (também de base aquosa) e aplicações para as linhas de poliureia e poliaspárticos, derivados de isocianatos de altíssima resistência química e à abrasão. “Os sistemas de base água têm tecnologia desenvolvida, o problema está no preço”, considerou. Como grande parte desses produtos é importada, o custo de transportar um material contendo 60% de água acaba sendo pesado. Além disso, a estabilidade desses sistemas é menor, reduzindo o tempo de prateleira para seis meses, dos quais pelo menos dois são consumidos na importação. Mesmo assim, os plásticos foram muito receptivos para a tecnologia, aproveitando a flexibilidade compatível com a desse substrato. Atualmente, a companhia inicia a divulgação dos base água para aplicações nas tintas anticorrosivas no Brasil.

“Temos recebido um número muito grande de consultas de toda a América Latina sobre os PUs base água”, comentou. “Em um tempo de crise, os clientes têm mais tempo para conversar sobre inovação tecnológica, embora comprem menos.” Ele explicou que a água fica na parte do poliol. Sua secagem é mais lenta e ocorre antes de entrar em contato com os isocianatos, situação que resultaria na liberação indesejada de gás carbônico.

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Hassessian recebe mais consultas sobre PU base água

A linha de diisocianatos da Bayer compreende derivados de isoforona (IPDI), difenilmetano (MDI), toluileno (TDI), hexametileno (HDI) e o H12MDI, um MDI hidrogenado produzido em pequena escala como insumo para a linha base água. “A fábrica de Belford Roxo-RJ é a única da América do Sul que faz isocianatos alifáticos obtidos de monômero importado”, ressaltou Hassessian, referindo-se ao HDI. A planta também fabrica o MDI, usado em revestimentos de alta espessura para formar pisos autonivelantes e pintáveis. Por não conter solventes, o revestimento formado não libera cheiro, podendo o ambiente ser ocupado imediatamente após a cura. A unidade local compõe dímeros (biuretos), trímeros e mesclas de isocianatos.

Contando com portfólio extenso de produtos com uso nas formulações de PU, a Evonik Degussa acompanha a evolução dos negócios na área. “As tintas e vernizes poliuretânicos vêm crescendo no Brasil, embora as aplicações industriais já possam ser consideradas maduras”, avaliou Alex Fabretti, gerente de negócios para a América do Sul de coatings e adesivos. A pintura automotiva original, um mercado importante para o PU, avança com o aumento das vendas de carros novos, que tem se mantido positivo no país. Ele vê no panorama nacional uma clara tendência de substituição dos isocianatos aromáticos pelos alifáticos (cíclicos ou não), fato que constitui uma oportunidade de negócios.

“O PU ainda participa pouco no mercado local porque os óleos naturais ainda são muito baratos, favorecendo as linhas alquídicas”, comentou Mario Fernando de Souza, diretor-

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Febretti: aromáticos perdem terreno para os alifáticos

comercial da Galstaff Multiresine do Brasil. As tintas e vernizes poliuretânicos crescem mais facilmente nas aplicações industriais em que comprovam sua superioridade na resistência da película, no aspecto final do produto pintado e, principalmente, na produtividade da pintura. “A secagem pode ser muito rápida, especialmente nos sistemas à base de isocianatos-acrílicos”, comentou. Ele também salientou a facilidade de combinação dos isocianatos com resinas alquídicas e poliésteres, estes preferidos quando se deseja alta resistência. A Galstaff produz no exterior polímeros de TDI em várias concentrações e também formula seus poliésteres, a preços competitivos, segundo comentou.

 

 

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