|
|

|

bio &
farma
Michael Nothenberg
é Doutor em Química, Mestre em Farmácia,
professor universitário e jornalista
msnothenberg@gmail.com
|
Terapias sob medida cada
vez mais
próximas da rotina
Quando um medicamento não produz os resultados desejados ou,
pior, provoca manifestações tóxicas, pacientes e médicos geralmente atribuem
o fracasso ao próprio fármaco. Reações inesperadas podem, contudo, ser
originadas por peculiaridades genéticas do paciente, sendo essas
responsáveis por comportamentos metabólicos atípicos e distintos daqueles
observados na maioria dos indivíduos. Assim, aqueles dotados de enzimas
capazes de degradar determinado fármaco em maiores quantidades ou com maior
eficiência não sentiriam efeitos terapêuticos, enquanto outros, nos quais a
meia-vida plasmática do medicamento fosse prolongada em função de menor
eficácia metabólica, estariam propensos a sofrer efeitos tóxicos devidos ao
acúmulo do fármaco no organismo.
A influência dos genes sobre a ação de fármacos, denominada farmacogenômica
ou farmacogenética, em estudo desde os anos 50, ganhou força com a
elucidação do genoma humano. É desta |
ciência que se originou o atraente conceito de medicina personalizada,
segundo o qual as receitas médicas do futuro serão prescritas levando em
conta o perfil genético do paciente, seja na escolha do tipo de fármaco,
seja no estabelecimento de sua dose.
Alvos restritos - A tendência pela adoção da terapia individualizada
é irreversível, opina o diretor-presidente da Eli Lilly, Sidney Taurel. Em
palestra proferida na Universidade Estadual do Arizona (Tempe, AZ), relatada
na edição de 20 de novembro de 2008 do diário Arizona Republic, o executivo
declarou que os fármacos atualmente disponíveis, em sua maioria, funcionam
bem em apenas 50% dos pacientes aos quais são administrados. A indústria
farmacêutica – prossegue – tem interesse em focalizar ensaios clínicos com
grupos menores e mais representativos de pacientes-alvo, acarretando
reduções nos custos de licenciamento, maior eficácia dos fármacos
desenvolvidos e menor probabilidade de remoção do mercado em face dos
efeitos colaterais graves. Eventual economia nos ensaios clínicos seria,
contudo, facilmente neutralizada por gastos adicionais na descoberta e
desenvolvimento de biomarcadores, moléculas usadas na avaliação das
respostas de pacientes às novas terapias.
Husseini K. Manji, vice-presidente da divisão de pesquisa e desenvolvimento
em neurociências e dor da Johnson & Johnson, por sua vez, também considera
inevitável o planejamento de fármacos úteis para grupos específicos de
pacientes, tomando lugar dos atuais medicamentos de uso universal. A J&J e a
Eli Lilly são associadas à Personalized Medicine Coalition (PMC),
organização não-governamental fundada em novembro de 2004 e cujos objetivos
incluem a disseminação da terapia sob medida nos Estados Unidos. É
sintomático que a PMC inclua, entre centenas de membros como hospitais,
universidades e instituições de pesquisa, laboratórios de ensaios clínicos,
fabricantes de produtos e instrumentos para diagnósticos, seguradoras de
saúde e nove das principais indústrias farmacêuticas e de biotecnologia,
incluindo, além das duas farmas já citadas, Abbott, Amgen,
Bristol-Myers-Squibb, GlaxoSmithKline, Endo e Genzyme.
Perfil genético – Após concluir, em 2003, a elucidação do genoma
humano, envolvendo o sequenciamento de cerca de três bilhões de pares de
nucleotídios e a identificação, até agora, de 22 mil a 23 mil genes,
cientistas enfrentam desafio ainda maior: estabelecer correlações entre o
código decifrado e manifestações de doenças. Se lograrem êxito – e estão
logrando, embora a passos lentos, pelo fato de boa parte das moléstias
estarem associadas a mais de um gene –, terão criado uma ferramenta
diagnóstica com implicações notáveis, uma delas, a possibilidade de
diagnóstico, ao nascer, de doenças que um indivíduo talvez só apresente no
terço final de sua vida.
Assim, justifica-se, por exemplo, que mulheres na Inglaterra, onde cerca de
5% dos cânceres de mama e ovário é atribuída a defeitos nos genes BRCA-1 e
BRCA-2, optem pela remoção preventiva dos órgãos caso detectem a mutação
destes genes em seus perfis genéticos. Desta forma, evitam o aparecimento da
doença, cuja aquisição tem probabilidade de 50% a 80% de ocorrer, só não
sendo maior porque a mutação também ocorre em homens. Atualmente, o Serviço
Nacional de Saúde britânico (NHS, em inglês) oferece testes para diagnóstico
para mutações em genes BRCA para mulheres cujos parentes tenham sido vítimas
de cânceres associados a estes genes. Já para a comunidade londrina de
judeus asquenazi (originários da Europa Ocidental, em contraste com os
judeus sefaraditas, de origem oriental), sabidamente vitimada por alta
incidência de tumores de mama, ovário e próstata, o órgão estatal faculta a
realização do teste de diagnóstico da mutação independentemente de histórico
familiar.
Quimioterapia pioneira – Perfis genéticos também influenciam a
natureza e a intensidade da quimioterapia antineoplásica de forma crescente.
Pacientes submetidos, por exemplo, a terapias com mercaptopurina, empregada
no tratamento de algumas leucemias e doenças autoimunes, podem ser
previamente avaliados quanto à sua capacidade de metabolizar o fármaco,
levando-se em conta que alguns indivíduos apresentam variação genética que
os impede de produzir a enzima tiopurina metiltransferase, responsável pela
degradação do agente. O teste, realizado em amostra de sangue, pode, assim,
prevenir efeitos tóxicos graves produzidos por acúmulo de doses que seriam
terapêuticas para a grande maioria dos pacientes.
Ensaio similar é recomendado a indivíduos tratados com irinotecano (Camptosar,
Evoterin), quimioterápico utilizado na terapia de câncer coloretal. Neste
caso, estabelece-se previamente a presença de polimorfismo no gene que
expressa a enzima UDP-glicuronosiltransferase (UGT1A1), responsável pela
metabolização do fármaco. Personaliza-se daí a dose, evitando acúmulo da
droga no organismo, o que poderia resultar em depressão de medula óssea,
infecções e morte. Ainda um último exemplo aplicado à oncologia é o teste da
diidropirimidina desidrogenase, aplicado aos candidatos a tratamento com a
popular fluoruracila (5-FU). A enzima, que responde pela degradação do
fármaco, é, por vezes, subexpressa, resultando em intoxicação potencialmente
fatal pelo quimioterápico.
Metabolismo hepático – A farmacogenômica começa a atuar em outras
áreas, incluindo cardiologia, distúrbios do sistema nervoso central e
tratamentos de doenças, como autismo e diabetes. Em alguns casos, o
polimorfismo genético tem origens étnicas. Indivíduos oriundos do extremo
oriente tendem a apresentar capacidade de metabolização reduzida para a
rosuvastatina (Crestor, AstraZeneca), elevando o risco de ocorrência de
miopatias e rabdomiólise, efeitos colaterais graves, por vezes fatais, de
estatinas hipocolesterolêmicas. Nos Estados Unidos, a FDA passou a exigir em
2005 que bulas do medicamento recomendem a limitação da dose inicial para 5
mg/dia, em lugar dos habituais 10 a 20 mg/dia, para pacientes de origem
asiática.
Em sua maior parte, estudos farmacogenômicos modernos focalizam o desempenho
do citocromo P450, complexo enzimático sediado no fígado e responsável pela
bioativação e/ou degradação da maioria dos fármacos conhecidos. Embora
tenham sido identificadas mais de 50 enzimas integrantes do sistema, são
relativamente poucas – conhecidas pelas siglas CYP2C9, CYP2C19, CYP2A6 e
CYP2D6 – as relevantes e cuja super ou subprodução, determinada por
variantes genéticas, possam provocar baixa atividade ou toxicidade,
respectivamente, de fármacos em doses terapêuticas. Alguns exemplos estão
listados na Tabela 1.

O anticoagulante varfarina(*), causador de elevado número de acidentes
hemorrágicos, teve sua bula modificada em 2007, com a incorporação, imposta
pela FDA, de advertência sobre o risco da administração de doses não
individualizadas para indivíduos portadores de variantes nos genes
responsáveis pela expressão da enzima CYP2C9, metabolizadora do
anticoagulante, e da vitamina K epóxidoredutase, enzima cuja inibição
compreende o mecanismo de ação do fármaco (Figura 1).
 |
Varfarina,
pela semelhança estrutural com o substrato natural (KO), interage com
a KO redutase, inibindo o processo de coagulação mediado pela vitamina
K. Polimorfismo no gene que expressa a enzima se reflete sobre a
eficiência do processo inibitório, reduzindo ou aumentando a
sensibilidade da enzima com relação ao inibidor e estabelecendo a
necessidade de doses maiores ou menores do anticoagulante,
respectivamente. Variante polimórfica da enzima hepática CYP2C9, por
sua vez, retarda a metabolização, requerendo a administração de doses
reduzidas do fármaco. |
Outra macromolécula sujeita a polimorfismo genético é a glicoproteína P,
que, além de atuar como proteína de transporte, modulando a absorção de
fármacos, como digoxina, ciclosporina e inibidores de proteases no trato
gastrintestinal, renal e na barreira hematoencefálica, também atua como
bomba de efluxo, favorecendo a remoção de metabólitos tóxicos do interior de
células. A superexpressão da glicoproteína P pode tanto reduzir a absorção
de fármacos quanto acelerar sua expulsão das células, resultando em malogro
dos tratamentos. Por outro lado, a subexpressão do transportador pode
ocasionar toxicidade por acúmulo intracelular dos agentes, caso estes não
sejam administrados em doses menores.
|
Perfil
genético: popularização aumenta, privacidade cai |
Perfis genéticos, excetuadas as finalidades distintas, são análogos às
análises de DNA já quase rotineiras nos meios forenses. Os preços dos testes
desabaram nos Estados Unidos nos últimos dois anos. Atualmente, uma
varredura de genoma, contendo informações relevantes sobre a saúde e doenças
do interessado, custa cerca de US$ 500,00, cerca de dez mil vezes menos do
que custava por volta do ano 2000. Como os preços continuam caindo,
espera-se que o exame possa ser feito pelo equivalente ao que hoje se cobra
por uma tomografia computadorizada dentro de alguns anos. Empresas como
23andme (Mountain View, CA), Navigenics (Foster City, CA) e deCode Genetics,
(Reikiavic, Islândia), entre outras, oferecem o serviço sem restrições,
diretamente ao usuário. É bom lembrar que o exame de genoma nestas condições
ainda não é regulamentado nos Estados Unidos, havendo algum risco de
ocorrência de interpretações errôneas ou mesmo de erros causados, a título
de exemplo, por contaminação de amostras com DNA alheio.
Entretanto, o risco maior talvez esteja na ameaça à privacidade. Há quem
pergunte se os perfis genômicos não sejam um passo a caminho de um
“admirável mundo novo”, no qual informações sobre doenças e suas
predisposições possam cair nas mãos de companhias de seguro e convênios
médicos, que poderiam recusar coberturas, ou, ainda pior, do seu empregador
atual ou futuro, levando a demissões e desemprego.
A possibilidade não passou despercebida do congresso norte-americano, que
produziu legislação específica – Genetic Information Nondiscrimination Act –
sancionada pelo presidente George W. Bush em 2008, proibindo o levantamento
e uso de informações genômicas para fins de seguro e emprego. Resta saber se
leis desta natureza seriam respeitadas em países onde CDs contendo dados
sigilosos da Receita Federal sobre milhões de contribuintes são abertamente
vendidos por camelôs nas esquinas das metrópoles.
| (*) O nome oficial do
anticoagulante no Brasil deveria ser mudado para warfarina por dois
bons motivos: (1) a letra w foi introduzida no alfabeto oficial
brasileiro a partir de 1 de janeiro de 2009; (2) O nome original
warfarin foi conferido ao fármaco em 1946 pelo seu descobridor, Karl
Paul Link (1901-1978), em retribuição ao patrocínio das pesquisas pela
Wisconsin Alumni Research Foundation, sendo, pois, descabido
aportuguesar uma abreviatura. |
|
|