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U B A D O R A S |
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Cuca Jorge
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Entidades
ajudam empresas
de alta tecnologia
a dar seus primeiros passos
José Paulo Sant’Anna e
Antonio Carlos Santomauro
Com a ajuda das
incubadoras de empresas, profissionais com sólida formação e escassos
recursos financeiros conseguem abrir empresas e investir em pesquisa e
desenvolvimento. Os quesitos imprescindíveis para iniciar a aventura
são apenas dois: uma boa ideia e muito entusiasmo para concretizá-la.
Tudo em nome de uma palavra fundamental para o progresso de um país: a
inovação. No setor químico, a experiência tem resultado no surgimento
de produtos de elevado desempenho, capazes de competir com os lançados
pelas milionárias multinacionais. Vale a pena registrar: em torno de
55% do PIB norte-americano provém da alta tecnologia. |
Como definir as incubadoras? São entidades montadas para ajudar empresas
em seu estágio embrionário. Elas têm como objetivos selecionar projetos
promissores e ajudar os empreendedores a driblar a burocracia para abrir
as empresas. Oferecem espaços adequados para abrigá-las e prestam apoio na
tarefa da administração. Em paralelo, ajudam a obter os recursos
necessários para transformar os projetos em empreendimentos lucrativos.
Quase sempre próximas às universidades, permitem a obtenção dos
equipamentos de laboratório necessários para a realização dos estudos.
Ao se falar em inovação, também merecem destaque os parques tecnológicos.
Estes abrigam as empresas em fase de consolidação, quase sempre oriundas
das incubadoras. Além do acesso à estrutura das instituições de ensino e
pesquisa, eles permitem a interação das empresas que abrigam com outras de
alta tecnologia, criando ambiente favorável às parcerias. “Por isso,
grandes empresas – como Microsoft e Nokia – têm unidades em parques
tecnológicos”, conta Josealdo Tonholo, diretor da Anprotec (Associação
Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores).
De acordo com a Anprotec, hoje existem quatrocentas incubadoras e
dezessete parques tecnológicos espalhados pelo Brasil. Outros 34 parques
estão projetados e devem ser instalados em breve. O Sebrae (Serviço
Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) calcula em seis mil o
número de empresas instaladas nas incubadoras nacionais. O número de
empregos gerados nas incubadas é de 32 mil e o faturamento estimado em
2008 foi de R$ 3 bilhões.
Química – Entre as incubadas, as mais numerosas estão ligadas à
área de tecnologia da informação, seguidas pelas de produtos médicos e
hospitalares. As empresas da área de química são menos numerosas. Nem por
isso, pouco significativas. “Mais de 90% das empresas inovadoras do setor
químico hoje se desenvolvem em incubadoras. O setor abriga algumas das
mais promissoras e rentáveis empresas embrionárias”, diz Tonholo.
“Com a ajuda das incubadoras, com algo entre US$ 2 mil e US$ 3 mil,
gera-se um emprego de nível superior. Fora desse ambiente, são necessários
mais de US$ 100 mil”, estima o diretor da Anprotec. Muitas incubadoras
estão localizadas junto a regiões conhecidas como polos industriais
regionais especializados, como os das indústrias de calçados, têxtil e
cerâmico.
Vertentes mais novas do desenvolvimento da química, como nanotecnologia e
biotecnologia, estão entre as de maior possibilidade de sucesso para os
empreendedores. “Existem outros segmentos promissores, como os de
biocombustíveis e de geoquímica associada a petróleo”, informa Tonholo. O
diretor aponta outros mercados diferenciados. O dos fitoterápicos, no qual
já atuam diversas novas empresas da Região Norte, tem projetos baseados em
ingredientes retirados da biodiversidade da Amazônia. No Ceará, há
empreendimentos focados nos chamados nutricêuticos, alimentos com
características de medicamentos. Em Alagoas, existe uma incubadora
dedicada à produção de feromônios, substâncias ligadas ao mundo dos
agronegócios e capazes de atrair animais.
Nessa lista também podem ser incluídas empresas de adesivos, novos
materiais e equipamentos, entre outras. Nem todos os projetos são voltados
para o desenvolvimento de novos produtos. Algumas substâncias já no
mercado há algum tempo, mas ainda não fabricadas no país, são alvos de
projetos de nacionalização. Também existem empresas voltadas à produção de
versões mais econômicas de produtos comercializados.
Estímulo – Contar com apoio oficial é imprescindível para o sucesso
das empresas incubadas. Autoridades de diferentes esferas governamentais
têm mostrado sensibilidade e lançado alguns programas destinados a
estimular a inovação. Um exemplo de porte é o da Lei da Inovação, editada
pelo governo federal no final de 2004.
É preciso ressaltar a ação de órgãos como a Finep (Financiadora de Estudos
e Projetos), instituição vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia,
e a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), ligada
à Secretaria de Ensino Superior do Estado de São Paulo. As duas
instituições contam com vários programas para incentivar empreendedores.
Também merece ser mencionado o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico), órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia,
com atuação considerável ao ministrar bolsas de estudos para pesquisadores
contratados pelas incubadas.
Entre os programas recentes, um foi lançado pela Finep no início do ano.
Trata-se do Prime (Programa Primeira Empresa Inovadora), dirigido às
empresas cuja existência jurídica não ultrapasse 24 meses. A empresa
participante pode ser formalizada no momento de inscrição do programa. As
selecionadas pelo Prime recebem R$ 120 mil em recursos não reembolsáveis.
Com essa verba podem, por exemplo, contratar consultores para análises de
custos ou para ajudar em questões jurídicas ou relativas à propriedade
intelectual.
Em 2009, o Prime prevê alocar R$ 230 milhões em aproximadamente duas mil
novas empresas. Em quatro anos, o volume de recursos previstos é de R$ 1,3
bilhão, destinados a cinco mil empresas nascentes e com alguma
característica de inovação. “Os empreendimentos, além de apostar na
inovação, precisam ser muito bem desenhados. Em algum momento de suas
trajetórias, essas empresas se confrontarão com grandes organizações; não
é um desafio para amadores”, adverte Gina Paladino, superintendente da
área de pequenas empresas inovadoras da Finep.
Dinheiro da iniciativa privada também é bem-vindo. Alguns fundos de
investimentos têm se mostrado interessados em projetos de inovação capazes
de gerar retornos financeiros interessantes para seus cotistas. Um desses
fundos, a CRP Participações, instalada no Rio Grande do Sul, investe em
mais de vinte empreendimentos ligados aos mais variados setores. Entre
eles, por enquanto, não há nenhuma incubada ligada à indústria química.
O fundo, no entanto, se mostra disposto a estudar oportunidades no setor.
“A química é hoje olhada com atenção pelos investidores e sempre citada
como alvo de investimentos”, diz João Marcelo Eboli, sócio da CRP. Para o
dirigente, projetos do gênero devem ter alguma característica de inovação,
mesmo que a pesquisa não se destine a algo 100% novo. “Essa é a única
maneira de atuar em um mercado no qual atuam grandes corporações
multinacionais”, avalia.
Apesar de ainda não apoiar incubadas, a empresa conta em sua carteira com
uma empresa ligada ao universo da química. É a Brasquip, no mercado desde
1993 e dedicada ao tratamento dos resíduos líquidos gerados por outras
indústrias. Localizada em Jandira, a empresa tem capacidade de processar
algo entre três e quatro mil metros cúbicos de resíduos e em 2008 faturou
cerca de R$ 5,8 milhões. O mercado favorável aos empreendimentos voltados
para a defesa do meio ambiente tem ajudado a empresa. “Ainda este ano, a
Brasquip vai inaugurar unidades no Rio Grande do Sul e na Bahia”, conta
José Augusto Albino, sócio da CRP dedicado a este projeto.
Cotidiano – Não são poucas as atribuições presentes no cotidiano
das incubadoras de empresas. “Trabalhamos muito por aqui”, revela Sergio
Risola, diretor do Cietec (Centro de Inovação, Empreendedorismo e
Tecnologia), entidade instalada dentro do campus da USP (Universidade de
São Paulo). A incubadora, considerada a maior do gênero no país, foi
criada em 2002 e já graduou 84 empresas.
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Em dezembro de 2008 contava com 76 empreendimentos
instalados. Esse número vem crescendo rapidamente este ano, hoje se
encontra na casa das 120 incubadas. A maioria das empresas é
especializada em projetos de TI (tecnologia da informação). A área de
produtos para o setor médico-hospitalar vem em seguida. O número de
empresas ligadas ao universo da química é estimado em de oito a dez. |
Cuca Jorge

Risola abriga, hoje, 120 empreendimentos |
“Atuamos em três pilares”, conta Risola. O primeiro é voltado para
selecionar os melhores projetos e instalar as empresas. “Lançamos editais
de seleção de quatro em quatro meses”, diz. Os interessados em participar
devem se encaminhar à incubadora com um projeto e participar de um
processo de seleção com júri formado por especialistas. Os aprovados fazem
um curso de um mês – quinze dias em sala de aula e quinze dias com
consultores – para entender como o seu projeto pode vir a se tornar
realidade.
Um requisito bastante apreciável é a ideia contar com caráter inovador.
“Mas nem sempre. Podemos apoiar quem deseja passar a produzir no Brasil um
produto importado, mesmo que não seja inovador”, ressalta. Também deve ser
traçado um plano de negócios detalhado, que norteie os passos do
empreendimento. Uma vez aprovado, a incubada ganha um espaço de 30 a 400
metros quadrados.
O segundo pilar de atuação do Cietec prevê a introdução dos incubados no
universo da tecnologia. O centro ajuda a nova empresa a tomar contato com
companhias âncoras de médio ou grande porte, colabora com a busca de
tecnologia em universidades e institutos de pesquisa. Também presta
consultoria para a resolução de problemas variados, entre eles, como
seguir as regulamentações emitidas pelos órgãos de defesa do meio
ambiente, de vigilância sanitária ou como atuar para obter patentes.
A incubadora também orienta os novos empresários a obter financiamentos em
órgãos de fomento à tecnologia, casos da Finep, Fapesp e CNPq. De quebra,
faz a ponte com os grupos de investimentos interessados em aplicar
recursos nos projetos mais promissores. “Recebemos muitas visitas de
representantes de investidores”, comenta.
O terceiro pilar de atuação do Cietec deve ser inaugurado em setembro,
quando o centro planeja inaugurar seu próprio parque tecnológico. Ele deve
passar a abrigar algumas das empresas hoje lá incubadas.
Muitos casos de talento e dedicação podem ser encontrados entre as
empresas incubadas. Um exemplo é o de uma taiwanesa naturalizada
brasileira, a engenheira química Wang Shu Chen. Há alguns anos, ela
trabalhava no departamento de desenvolvimento de produtos numa empresa de
adesivos. Um exame de sangue feito à época apresentou um resultado
assustador: ela estava com 30% a menos do normal de glóbulos brancos em
seu organismo.
Chen creditou ao ambiente da fábrica, poluído pelos solventes utilizados
nas linhas de produção, o seu problema de saúde. Ela fez uma pesquisa no
exterior e descobriu que em muitos países os solventes eram produtos já
obsoletos. Foi então que tomou uma resolução. Deixou a vida de empregada e
apostou no desenvolvimento de um negócio próprio.
Dessa forma, nasceu a Adespec, empresa incubada no Cietec, cujo objetivo
era o de desenvolver adesivos com fórmulas isentas de solventes. Algum
tempo depois, conseguiu um sócio, Flávio Teixeira Lacerda, com vasta
experiência em empresas de adesivos e com quem ela havia trabalhado no
passado.
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A Adespec hoje é exemplo de sucesso. Os adesivos
desenvolvidos pela empresa usam água ou o polímero poliéter siloxano
como solventes. São livres de solventes, isocianatos e compostos
orgânicos voláteis. Um dos produtos, o Fixtudo, já comercializado em
redes de varejo, não tem cheiro e é capaz de colar todos os materiais.
“Menos a pele”, ressalta Chen. Além de ser resistente a temperaturas
de até 120ºC, o dobro da temperatura das colas instantâneas
disponíveis no mercado, apresenta notável resistência à água. “Dá para
consertar o vazamento de um aquário sem retirar a água de dentro
dele”, ressalta.
A Adespec se graduou no Cietec em 2003. No início, Chen investiu R$ 60
mil do próprio bolso. Nos primeiros anos, ela e Lacerda chegaram a
investir cerca de R$ 1 |
Cuca Jorge

Chen: adesivos sem solventes ganharam corpo na incubadora |
milhão. A empresa chamou a atenção de grupos de investidores, que em
seguida fizeram aportes de capital. Seu faturamento deve saltar de R$ 3
milhões, em 2007, para mais de R$ 50 milhões até 2012.
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