Tecnologia aprimora tanto instrumentos sofisticados quanto itens tradicionais

Texto de Maria Silvia Martins de Souza e fotos de Cuca Jorge

A décima Analitica Latin America agrupou nos 18 mil metros quadrados do Transamerica Expo Center, em São Paulo, uma pletora de inovações tecnológicas para laboratórios, análises, biotecnologia e controle de qualidade. Fabricantes multinacionais de equipamentos de maior complexidade e custo, como cromatógrafos, espectrômetros, difratômetros e outros, marcaram presença com destaque especial para a rapidez de análises e limites de detecção cada vez mais baixos. Fornecedores de vidraria, reagentes e prestadores de serviço também estiveram presentes. A exemplo da edição anterior, a feira exibiu os produtos alemães e chineses em pavilhões específicos. As empresas germânicas contaram com o apoio do Ministério Federal Alemão de Economia e da Associação das Indústrias da Alemanha. Segundo essa entidade, o mercado latino-americano está cada vez mais significativo para seus filiados, já que em 2008 as exportações para a região aumentaram 32%, ultrapassando 270 milhões de euros.

Numa visita ao citado pavilhão foi possível constatar que equipamentos de laboratório tradicionais também se modernizaram. As bombas de vácuo, muito usadas em laboratórios de pesquisa, receberam da empresa KNF Neuberger, localizada em Freiburg, melhorias significativas. “O modelo SC920, comandado por controle remoto, é a realização do sonho de muitos profissionais que usam rotoevaporadores”, disse o diretor para a América Latina, Gunter Bostelmann. O equipamento oferece vácuo preciso e uma grande variedade de funções ajustáveis com o controlador. Além disso, o sistema SC920 minimiza o problema de espaço no laboratório, contendo, em um só bloco, condensador, separador e controlador, além da bomba. “Para utilização em capelas, isto é muito vantajoso”, enalteceu Bostelmann. O terminal portátil permite operar o equipamento de qualquer parte do laboratório, ou da mesa do pesquisador, eliminando a necessidade das inúmeras idas e vindas, feitas quando o controle é realizado no próprio conjunto. Pressão ou sucção, tempos, unidade de medida e vários outros parâmetros de processo podem ser ajustados no terminal móvel. “O sistema pode monitorar o processo de acordo com uma curva de pressões programadas pelo usuário”, exemplificou. Caso a unidade portátil seja perdida, poderá ser encontrada pressionando-se um botão na parte fixa que faz o controle remoto emitir um som audível. “Outra novidade importante é que nossas bombas são livres de óleo”, contou Bostelmann. “Usando diafragma, minimizam-se os custos de operação e as possibilidades de contaminações”, disse. A rapidez de operação também foi ressaltada. “A bomba possui um sistema patenteado de estabilização de diafragmas que permite uma alta velocidade de sucção, inclusive a baixas

pressões.” É possível alcançar um vácuo de 2 mbar e bombear até 20 litros de gás por minuto.
Todas as partes em contato com os gases são fabricadas em materiais resistentes ao ataque químico. “Além disso, opera de maneira silenciosa”, acrescentou. Especializada em bombas, é a primeira vez que a KNF expõe na Analitica, mas seus produtos já estão disponíveis no Brasil há vários anos por intermédio da Marte Instrumentos Analíticos, de São Paulo.


Bostelmann controla bomba de vácuo a distância

O tradicional método de Kjeldahl para determinação de proteínas foi alvo de melhorias introduzidas pela empresa Behr Labor Technik, de Dϋsseldorf. O método consiste em aquecer a substância em análise com o ácido sulfúrico, etapa chamada de digestão. Nessa fase, os componentes orgânicos se decompõem por oxidação, para liberar o nitrogênio reduzido na forma de sulfato de amônio. Quando a reação se completa, o meio, de início bem escuro, torna-se

incolor. A solução é então destilada, após a adição de pequena quantidade de hidróxido de sódio, que converte o sal de amônio em amônia. O condensado é recolhido numa solução de ácido bórico. A amônia reage com o ácido, sendo o excesso deste titulado com carbonato de sódio, usando alaranjado de metila como indicador. A figura 1 apresenta as reações envolvidas no método.

Rodrigo Fagundes Correia, técnico da DiagTech, de São Paulo, representante da Behr no país há mais de três anos, dava esclarecimentos sobre os produtos no estande da empresa parceira, minimizando os problemas com o idioma. “As unidades de digestão da linha behrotest InKjel para seis amostras são muito rápidas”, disse. “Estão equipadas com um potente aquecedor infravermelho, que elimina a fase de aquecimento demasiado longa associada aos sistemas de blocos convencionais”, complementou. Segundo Correia, a qualidade e o posicionamento do

irradiador de infravermelho garantem fases de aquecimento e temperaturas de digestão iguais em todas as amostras. O mesmo se aplica à unidade de digestão de 12 recipientes, dispostos em duas filas de seis. “Os tubos de digestão ficam suspensos na estrutura e não apoiados sobre o fundo; deste modo, correm menor risco de se partirem, o que acontece com alguma frequência quando se usa um bloco de aquecimento de alumínio”, explicou. A empresa também oferece outros modelos com diferentes capacidades, como o 450, com quatro frascos de reação de 500 ml, e o 475, também com quatro recipientes, porém de 750 ml. Todos os modelos dispõem de dez programas de configuração para temperatura e tempo de digestão. A operação por botão único permite programação fácil e rápida, com opção de menu em português. “Além da determinação de nitrogênio pelo método de Kjeldahl, outras digestões a alta temperatura podem ser feitas no equipamento”, lembrou Correia.


Analisador Behr facilita a aplicação do método Kjeldahl

Também são oferecidas unidades de destilação para a realização da sequência do método. “Temos cinco modelos diferentes”, ofereceu Correia. “São idênticos na aparência, mas diferem em grau de automação”, disse. O Behr S5, mais avançado, permite acoplar um titulador externo. “Todos os modelos combinam praticidade, simplicidade, segurança e confiabilidade” elogiou. A caixa de aço inoxidável é resistente ao ataque químico, e o equipamento conta com prático dispositivo de fixação rápida que permite ao analista manter as mãos livres.

Ressaltando a preocupação com segurança, Correia disse que o aparelho não funciona se a porta estiver aberta. “Apesar de todas essas vantagens, o custo não é muito maior do que as unidades de digestão com sistema de aquecimento tradicional”, informou.

Especializada em fornos, a empresa Nabertherm, de Bremen, exibiu muflas de última geração. “Há vários modelos para utilização em laboratório”, informou o gerente da filial localizada na Espanha, José Carlos Fernandez Orta. “Os fornos podem ser fornecidos com porta basculante ou de elevação; o custo é o mesmo”, acrescentou. A porta basculante pode ser utilizada como

Usuário determina o aquecimento da mufla (esq.) com facilidade no controlador (acima)

bandeja. Nos modelos, com porta de elevação, o lado quente fica afastado do usuário. Dependendo do modelo, a temperatura máxima é 1.100ºC ou 1.200ºC. O aquecimento é feito por placas cerâmicas com resistência integradas, protegidas contra respingos e gases liberados. No interior há um módulo de fibras moldado a vácuo, com elevada resistência e a carcaça é de aço inoxidável. “O corpo tem paredes duplas propiciando isolamento térmico”, comentou Orta. As muflas têm abertura para exaustão de ar na parede traseira. Podem ser equipadas com tubulação de escape. De acordo com Orta, os modelos diferem nas possibilidades de programação para aumento da temperatura. “Pode ser escolhido aquecimento em rampa ou escada, com os tempos de cada fase definidos pelo usuário”, esclareceu. Os dados são inseridos no pequeno painel frontal. “O led piscando indica o parâmetro a ser digitado”, explicou Orta. “Fácil e rápido”, concluiu, demonstrando o procedimento numa das muflas expostas.

Por sua vez, a Funke Ger­ber, de Berlim, apresentou vários equipamentos para análise de leite, caso do LactoStar, um analisador com limpeza, lavagem e calibração automatizadas. Segundo o responsável por exportação, Daniel Segenbusch, com uma única medição se determinam de forma rápida e confiável os teores de gordura,

Segenbusch exibiu o analisador automático de leite e derivados

proteína, lactose, resíduo seco isento de gordura, além dos minerais, por condutância. “Também se pode determinar densidade e ponto de congelamento por cálculo”, acrescentou. Contendo um sistema de medição de múltiplos sensores, o Lactostar se caracteriza por uma alta tolerância de matriz. “A resolução é de 0,01% e a precisão depende da calibração correspondente”, complementou. De acordo com Segenbusch, todos os parâmetros são calibrados em apenas um passo. Um menu com apresentação clara facilita a entrada dos valores de referência. “Até 20 conjuntos de dados de calibração podem ser salvos. Assim, pode-se trocar de um produto para outro, como de leite para nata, sem que uma nova calibração seja necessária”, informou.

O software é constantemente melhorado, objetivando a determinação de outros parâmetros. As atualizações são transmitidas de forma rápida e simples pelas interfaces. O LactoStar contém bombas para medição, lavagem e limpeza, conectadas com os respectivos recipientes. As bombas se encontram abaixo da cobertura de aço inoxidável, do lado esquerdo do aparelho. Seus cabeçotes podem ser trocados sem dificuldade ou ajuda de ferramentas.

A figura 2 esquematiza o LactoStar. Segundo Segenbusch, é possível escolher dentre diversos idiomas de menu. “A quantidade é aumentada em cooperação com nossos parceiros nos respectivos países”, informou.

Participando do evento pela primeira vez, Segenbusch estava otimista com os contatos feitos, a fim de localizar um distribuidor local.

Empresas brasileiras também investiram na sofisticação de equipamentos básicos, como a Gehaka, de São Paulo, que lançou o DSL 910, densímetro para líquidos e sólidos. Com tecnologia nacional, o equipamento possui mostrador de fácil leitura, com textos em português. Efetua medidas de densidade com baixa dependência do analista, pois todas as operações são assistidas por um microcontrolador, garantindo precisão e prevenindo erros. Oferece três dispositivos de medida diferentes: para sólidos com densidade maior que a da água; sólidos com densidades inferiores à da água, e líquidos. Conta com termômetro integrado, permitindo corrigir o efeito da temperatura na densidade, e balança eletrônica com sistema de calibração semiautomático. A densidade pode ser indicada com uma a três casas decimais, a critério do usuário. A


Densímetro nacional oferece operação fácil e sem erros

medição é feita em menos de dois minutos e o DSL 910 pode emitir relatórios por meio de impressora integrada.

Reagentes e padrões – A Merck destacou em seu estande a adoção das novas recomendações da Organização das Nações Unidas (ONU) para uniformizar a classificação e rotulagem de produtos químicos, denominadas Globally Harmonized System (GHS). Segundo a analista de marketing Tatiana Corasso, cerca de 50% dos reagentes já são comercializados com rótulos e FISPQs (ficha de informação de segurança de produto químico) alterados. “Gradativamente, adaptaremos os rótulos de toda a nossa linha para atender ao sistema harmonizado”, complementou.

Alguns países possuem legislações específicas para a classificação de produtos químicos. Isso faz com que alguns itens sejam classificados de formas diferentes dependendo do local, exigindo nova rotulagem quando são exportados. Essas diferenças causam problemas ainda maiores em países sem uma legislação própria, caso do Brasil. Os produtos químicos chegam ao país com os dados originais do país onde foram produzidos. Assim, nossas indústrias podem receber substâncias iguais classificadas de formas distintas e, não raro, com símbolos de alerta diferentes no rótulo. A ideia do GHS é eliminar essas diferenças, buscando aumentar o grau de informação desses produtos. Como o sistema foi concebido pela ONU, todos os países associados deverão adotá-lo. Na União Europeia, o sistema já está em vigor, mas se tornará obrigatório apenas no final de 2010. No Brasil, foi introduzido pela publicação da NBR 14725 (partes 1 a 4), no fim de agosto. Sua implantação introduz um conjunto de critérios para a classificação de riscos físicos, perigos para a saúde e riscos ambientais e, ainda, estabelece uma forma única para a comunicação, com modificações nos pictogramas de perigos, palavras de advertência, frases de perigo e precaução.

“Com o GHS, espera-se um aumento significativo na segurança durante o manuseio e transporte de produtos químicos, com o consequente impacto na saúde dos trabalhadores e na proteção ao meio ambiente”, ressaltou Tatiana.

No novo rótulo, os símbolos de perigo e suas respectivas indicações, assim como as frases de risco e segurança, foram substituídos pelos pictogramas, por uma palavra de advertência e por frases de perigo e precaução. “Existem também


Frascos rotulados conforme norma global

alterações importantes na linguagem utilizada: muito tóxico foi substituído por fatal”, exemplificou Tatiana. A palavra de advertência fornece informação sobre a periculosidade relativa de uma substância ou mistura. Assim, “Perigo” indica categorias de risco mais graves e “Cuidado” é usado

 

 

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