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bio &
farma
Michael Nothenberg
é Doutor em Química, Mestre em Farmácia,
professor universitário e jornalista
msnothenberg@gmail.com
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FDA aprova estatina
japonesa
Pitavastatina (Livalo), estatina antilipêmica disponível no Japão, China,
Coreia do Sul, Índia e Tailândia desde 2003, deverá estrear no mercado
norte-americano no primeiro trimestre de 2010. A previsão decorre da
autorização concedida pela agência de controle de medicamentos dos EUA, em 3
de agosto último, em benefício da Kowa Pharmaceuticals America (Montgomery,
AL), subsidiária da Kowa Company, complexo industrial japonês sediado em
Nagoya, detentor original da patente do fármaco.
A pitavastatina chegou a frequentar a pipeline da Novartis até 2005, quando
a indústria farmacêutica suíça optou por cancelar o projeto depois de nele
investir US$ 266 milhões, com base em resultados pouco animadores, incluindo
a ausência de diferenciação clínica digna de nota em relação à rosuvastatina
da concorrente AstraZeneca, aprovada pela FDA em 2003. A Novartis, que havia
herdado direitos sobre a pitavastatina ao incorporar uma pequena indústria |
farmacêutica francesa, Hazal Finance, em 2001, acabou devolvendo a licença à
Kowa. A comercialização da nova estatina na Europa, onde os trâmites para
licenciamento foram iniciados em agosto de 2008, deverá ficar para a empresa
italiana Recordati SpA.
Metabolismo diferenciado – Previamente conhecido pelas siglas NK-104,
NKS-104 e P-872441, e pelos nomes itavastatina e nisvastatina, o novo agente
demonstra possuir alta potência inibitória sobre a 3-hidroxi-3-metilglutaril-coenzima
A (HMG-CoA) redutase, alvo de todas as estatinas conhecidas. A eficácia mais
elevada é atribuída, segundo a literatura divulgada pelo fabricante, à
presença do grupo ciclopropila no lugar dos grupos isopropila ou metila
encontrados nas moléculas concorrentes. Como que confirmando a maior
potência, o novo fármaco será disponível para administração diária em
comprimidos contendo apenas 1, 2 ou 4 mg de pitavastatina, doses inferiores
às empregadas para as estatinas tradicionais, recomendadas em doses entre 5
e 80 mg diárias (Tabela 1). Outra de suas qualidades está na maior segurança
propiciada pela metabolização diferenciada. Ao contrário do que ocorre com
as demais estatinas, em sua maioria é metabolizada pela enzima CYP3A4, do
complexo hepático citocromo P450, a pitavastatina é primariamente
metabolizada pelas enzimas CYP2C9 e CYP2C8, propiciando a elevada
biodisponibilidade de 80% da dose administrada. A baixa afinidade da
pitavastatina pela CYP3A4 evita interações com outros fármacos metabolizados
por esta enzima e que, quando administrados concomitantemente, podem
provocar acúmulo de estatinas no plasma e as decorrentes manifestações
tóxicas.

Ensaios clínicos atribuem à pitavastatina maior eficiência em elevar a
concentração plasmática de HDL, o colesterol bom, em comparação com a da
atorvastatina, embora esta última aparente alguma superioridade na
capacidade de reduzir taxas plasmáticas da vilã LDL.
Novo antidiabético
estreia na Europa
A nova estratégia de tratamento de diabetes do tipo 2 por meio de derivados
do peptídio análogo ao glucagon, inaugurada em 2005 com o lançamento da
exenatida (Bietta, Eli Lilly) nos EUA, foi reforçada em julho último com o
licenciamento, para o mercado europeu, da liraglutida (Victoza, Novo Nordisk).
O novo fármaco já está à venda na Inglaterra, Alemanha e Dinamarca e deverá
ser disponibilizado progressivamente nos demais 24 países membros da
Comunidade Europeia até o final do primeiro semestre de 2010.
O peptídio análogo ao glucagon (GLP-1, do inglês glucacon-like peptide-1) é
membro do grupo de hormônios denominados incretinas, produzidos por células
endócrinas do intestino em resposta à ingestão de alimentos. O GLP-1 tem
entre suas funções a de estimular a secreção de insulina pelas células beta
das ilhotas de Langerhans, no pâncreas, secundada pela igualmente útil (para
pacientes diabéticos) capacidade de inibir a liberação do hormônio
hiperglicêmico glucagon pelas células alfa, também localizadas nas referidas
ilhotas pancreáticas. Tais propriedades, somadas à capacidade de reduzir o
apetite, promovendo emagrecimento, além de diminuir os níveis plasmáticos de
triglicérides, só não fazem do GLP-1 um fármaco atraente pelo fato de sua
meia-vida de apenas dois minutos inviabilizar seu emprego como tal.
Origem monstruosa – A baixa estabilidade da GLP-1 no organismo
reforçou a importância da descoberta do endocrinologista John Eng, do Centro
Médico da Administração de Veteranos do Bronx, em Nova York, que, em
pesquisas realizadas no deserto do Arizona em 1992, isolou um peptídio, que
denominou exendina-4, da saliva de um lagarto local, o monstro de Gila (Heloderma
suspectum). Em pesquisas posteriores, Eng descobriu que o composto isolado
apresenta propriedades semelhantes às do GLP-1, com uma diferença
fundamental: resiste às enzimas plasmáticas por quase uma hora, ainda
insuficiente para um bom antidiabético, mas um excelente ponto de partida
para seu desenvolvimento. Ante o desinteresse da instituição para a qual
trabalhava, Eng licenciou sua descoberta para a modesta Amylin
Pharmaceuticals (San Diego, CA) em 1996. Esta, por sua vez, associou-se, em
2002, à Eli Lilly, escolhida entre diversas empresas candidatas a participar
do projeto. Do desenvolvimento conjunto resultou a exenatida, peptídio
sintético composto de 39 aminoácidos, 50% dos quais apresentando homologia
com o GLP-1, com meia-vida de aproximadamente duas horas.
Associações – A exenatida é administrada por via subcutânea por meio
de um autoinjetor fornecido pelo fabricante, duas vezes ao dia,
imediatamente antes das refeições, elevando e sustentando a taxa plasmática
de insulina após dez minutos e durante uma a duas horas. Segundo a FDA, a
exenatida deve ser usada em associação com hipoglicêmicos tradicionais, como
biguanidas, sulfonilureias e tiazolidinodionas, entre outros, promovendo
efeito hipoglicêmico acima daquele possível com as doses seguras destes
agentes. Ensaios clínicos também atribuem ao fármaco a capacidade de
prevenir a ocorrência de choques hipoglicêmicos, risco associado ao uso dos
demais antidiabéticos, uma vez que o efeito farmacológico dos análogos ao
GLP-1 se manifesta de forma proporcional à taxa glicêmica dos pacientes.
A liraglutida, o novo análogo de GLP-1, supera a exenatida na meia-vida – 11
a 15 horas – permitindo administração de apenas uma dose diária aos
pacientes. Para obtê-la, a Novo Nordisk partiu do GLP-1 nativo (30
aminoácidos) modificando apenas um aminoácido (arginina em lugar da lisina)
e incorporando cadeia graxa de 16 átomos na posição 16 do peptídio, por meio
de uma ponte formada por glutamato (Figura 1).

A maior lipofilicidade conferida pela extensão da cadeia permite à molécula
associar-se à albumina em tecidos e na circulação, propiciando prolongamento
na atividade do fármaco em função da liberação gradual pela proteína
plasmática e da eliminação mais lenta pelos rins.
Embora tenha demonstrado eficácia superior à de outros hipoglicemiantes,
inclusive exenatida, em ensaios clínicos, a liraglutida poderá enfrentar
dificuldades para ser licenciada nos Estados Unidos. Um possível obstáculo
reside na ocorrência de casos de pancreatite aguda em pacientes submetidos à
exenatida, levando a FDA a exigir a incorporação de uma advertência sobre o
risco nos rótulos do produto em agosto de 2007. Há também alguma preocupação
com relação à possibilidade de a liraglutida induzir tumores na glândula
tireóide. Tais ocorrências parecem, contudo, associadas a mecanismo
bioquímico exclusivo de camundongos e demais roedores empregados em ensaios
pré-clínicos.
Uma por semana - A família de antidiabéticos análogos ao GLP-1 deverá
evoluir nos próximos anos. A Eli Lilly, em associação com a já citada Amylin
e a Alkermes, Inc. (Cambridge, MA), especialista no desenvolvimento de
produtos de liberação retardada, desenvolve um sucessor para a exenatida. O
novo medicamento, já em ensaios clínicos, poderá ser injetado uma vez por
semana, além de oferecer o dobro da eficácia hipoglicêmica do antecessor,
maior poder de emagrecer seus usuários e menor probabilidade de causar
efeitos gastrintestinais indesejáveis, particularmente náuseas.
Outro análogo de GLP-1 de administração semanal em ensaios clínicos é a
taspoglutida (R1583). Os direitos mundiais sobre o fármaco, desenvolvido
pela parisiense Ipsen Pharma, foram cedidos à F. Hoffman-LaRoche (Basileia,
Suíça) em 2006, com exceção do Japão e da França, onde haverá
compartilhamento comercial com os grupos Teijin e a Ipsen, respectivamente.
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