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DESÁGUE DE
LODO |
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Cuca Jorge

Lodo da ETE São Miguel, após deságue, abastece
carreta |
Fornecedores de
sistemas para deságue de lodo vivem era de grandes projetos, com obras
em saneamento e na Petrobras
Marcelo Furtado
Alguns segmentos
industriais, durante os piores meses da recessão econômica em 2009,
podem afirmar que estavam no lugar certo, na hora certa, e bem longe
da crise. Ou seja, estavam no |
Brasil em um momento em que o setor público – leia-se aí a estatal do
petróleo, a Petrobras, e as companhias municipais e estaduais de
saneamento básico – colocava em prática vários grandes projetos. Para
esses bem-afortunados, ao contrário dos fornecedores muito concentrados no
setor privado, o qual permanece em marcha lenta, o ano pode já ser
considerado como um dos melhores de suas histórias.
Nesse universo de privilegiados, o segmento que fornece sistemas e
equipamentos para desidratação de lodo tem lugar garantido. Nos dois casos
principais de investimentos, petróleo e saneamento, houve grande demanda
por seus produtos. A Petrobras, para começar, dentro da onda bilionária de
investimentos em meio ambiente em suas refinarias, constrói várias novas
estações de tratamento de água e efluentes que precisam de decantadoras,
filtros-prensa, adensadores, enfim, todo o portfólio voltado para fazer o
deságue de lodo.
Já no caso do saneamento básico, além das várias obras em andamento por
todo o Brasil, que corre para tentar diminuir um pouco seu déficit na
prestação do serviço de água e esgoto, concorre a favor do segmento a
tendência entre muitas companhias de passar a cuidar melhor também do lodo
de estações de tratamento de água (ETAs). Mais antigas e em maior número
no país, em comparação com as de tratamento de esgoto, as ETAs foram
concebidas no passado sem a preocupação com o lodo gerado para preparar a
água para o abastecimento. Para corrigir o gargalo, companhias de
saneamento, principalmente as mais avançadas tecnológica e
operacionalmente, começam a incluir etapas de deságue nas estações e
muitas planejam fazer o mesmo no futuro.
O cenário de prosperidade tem atraído até o interesse de novos
competidores, que começam a aparecer em concorrências e cotações de preços
de EPCistas e, em alguns casos, em licitações públicas. São na sua maioria
empresas espanholas que, segundo alguns de seus concorrentes locais,
conseguem preços bastante competitivos em virtude de incentivos fiscais
dados pelo governo espanhol com forma de conquistar novos mercados
mundialmente. Esses grupos estariam participando como fornecedores de
equipamentos e em alguns casos até como integradores de projetos
completos.
Mas o parâmetro mais evidente do clima de negócios é a análise dos
fabricantes já instalados no Brasil há algum tempo. O caso da Pieralisi,
produtora de decanters centrífugas e secadores térmicos de origem italiana
e com fábrica em Jundiaí-SP, é provavelmente o mais emblemático. Há quinze
anos no Brasil e especializada no mercado de saneamento, a empresa já
vendeu até setembro de 2009 mais do que em 2008 inteiro, este considerado
por muitos um dos melhores da indústria. Foram comercializadas 188
decantadoras, contra 180 do ano anterior.
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“Estamos em um ritmo frenético, com pedidos tanto para
saneamento como para a Petrobras, e a atual fábrica já nem dá mais
conta da rota de crescimento em que entramos”, comemorou a diretora da
Pieralisi, Estela Testa. A feliz constatação, aliás, fez a empresa
programar para 16 de novembro de 2009 a mudança da atual unidade de
Jundiaí (inaugurada recentemente, em 2006, e com 2 mil m2) para outra
na cidade de Louveira, na mesma região de Campinas-SP, cuja área útil
será o dobro da atual em desativação, com mais de 4 mil m2. |
Cuca Jorge

Estela: mudança de fábrica para atender aos pedidos |
De acordo com Estela, o plano para a nova fábrica é maximizar a
nacionalização dos componentes de seus equipamentos, aumentando
consideravelmente o percentual atual de 30%. Mais do que um desejo,
trata-se aí até mesmo de uma condição imposta pelo mercado, visto que para
conseguir recursos do Finame/BNDES seus clientes são obrigados a comprar
de empresas nacionais. “Por enquanto, no nosso planejamento, o único
insumo que vamos precisar continuar a importar da Itália será o aço
fundido centrifugado, que ainda não encontramos no Brasil”, explicou a
diretora, complementando que este tipo de aço é necessário para a
decantadora suportar a alta rotação de operação, sempre superior a 3 mil
rpm.
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Do parque fabril lotado de pedidos na atualidade, boa
parte das encomendas segue para a Petrobras. Para deságue de lodo
físico-químico em ETAs das refinarias da estatal, há decanters em
obras novas na Recap, Reduc, Replan, Revap, RPBC, Regap e na UTE
(usina térmica) de Canoas-RS. Para lodo biológico, lama oleosa, lodo
físico-químico e anaeróbio das chamadas ETDIs (estações de tratamentos
de despejos industriais), as vendas foram para Refap, Regap, Replan,
Revap, RPBC, Rlam e para Macaé (exploração). |
Cuca Jorge

Decantadoras tratam lodo na ETE Barueri da Sabesp |
Já o saneamento, segundo Estela Testa, passa por ótima fase. Há obras em
profusão por companhias estaduais, autarquias municipais e concessões
privadas, que incorporam ou modernizam suas estações com sistemas de
desidratação de lodo. Mas o melhor, para a diretora, é a mudança no perfil
das demandas. Até o ano passado, segundo ela, era muito nítida a maior
quantidade de vendas de decanters para desaguar lodo de estações de
tratamento de esgotos. Isso tanto por causa das maiores exigências nesse
segmento, que lida com um resíduo teoricamente mais perigoso, como também
porque há mais obras novas em esgotamento sanitário, setor em que ainda há
o maior gap nacional em praticamente todas as regiões do país.
Em 2009, continua Estela, ficou mais claro que muitos operadores se
tornaram mais preocupados em cuidar dos lodos de ETAs, provenientes do
tratamento físico-químico da água de abastecimento. “Houve um aumento de
50% nesses pedidos”, afirmou. Essa mudança tardia, mas bem-vinda de
conceito, moderniza muitas estações, que passam a fazer o deságue do lodo
para enviá-lo a aterros. Segundo Estela Testa, a Pieralisi conta com mais
de 30 instalações. Possui um sistema na ETA Taiaçupeba, da Sabesp, que
passa por ampliação em regime de PPP (parceria público-privada). São
quatro decantadoras com vazão de tratamento para 30 m3/h cada.
De volta para o rio – A crescente preocupação com os lodos das ETAs,
se de fato se alastrar pelo mercado brasileiro de saneamento, minimiza um
contrassenso que ocorre indiscriminadamente pelo país. As companhias
captam água dos rios cada vez mais poluídos, tratam com floculantes,
coagulantes, cal e carvão ativado, geram quantidades imensas de lodos e,
após isso, em vez de destiná-los desaguados e de forma correta para
aterros, devolvem-nos aos rios. Isso não só ajuda a assorear os corpos
d´água como piora a sua qualidade com a quantidade de produtos químicos
presentes no lodo. Trata-se de situação perto do absurdo: a companhia
polui mais o rio que ela precisa na sequência despoluir ao captar água
para garantir abastecimento.
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Um dos mais importantes exemplos de estação de
tratamento de água pública com uma seção específica para desidratar o
lodo ocorre nas ETAs 3 e 4 da companhia municipal de saneamento de
Campinas-SP, a Sanasa, localizadas no distrito de Sousas, responsáveis
pelo abastecimento de 75% (ou 3 mil litros por segundo) da população
da cidade. Desde 2005 a estação colocou em operação uma unidade para
tratar a grande quantidade de lodo gerada, cerca de 1.100 t/mês, pelas
três decantadoras empregadas para reduzir a umidade do material para
uma média de 30% a 50% de sólidos secos.
Segundo explicou o coordenador do setor de ETAs da Sanasa, Sidnei Lima
Siqueira, a decisão pelo tratamento atende ao fato de a água captada
do Rio Atibaia ser extremamente poluída, demandando uma grande
quantidade de produtos químicos. “Não faz sentido voltarmos o lodo
ainda mais contaminado para um rio tão maltratado”, disse Siqueira.
Segundo ele, várias cidades na região descartam esgoto in-natura no
rio. Só para se ter uma ideia da gravidade, trata-se do mesmo
manancial que alimenta em São Paulo o sistema Cantareira da Sabesp (ETA
Guaraú). “Mas em razão da poluição na região de Campinas há a
necessidade de se dosar dez vezes mais produtos do que em São Paulo”,
completou o coordenador.
O lodo da estação une a grande quantidade de contaminantes do rio com
todo o residual do tratamento, que contempla pré-oxidação com cloro, a
dosagem do coagulante policloreto de alumínio e, às vezes, de cloreto
férrico. Depois de gerado nos decantadores primários, todo o lodo, via
tubulação por gravidade, segue para tanques de equalização, onde há
dosagem de polímeros aniônicos para adensamento. A partir daí seguem
para as decanters Westfalia, cada uma com capacidade de vazão de 35
m3/h e de 750 kg/h de sólidos secos (duas em operação e uma em
stand-by), onde na entrada há a dosagem de um polímero catiônico. A
água resultante da centrifugação volta para o processo e o lodo
alimenta quatro carretas por dia, que seguem para o aterro Estre, em
Paulínia-SP. |
Cuca Jorge



Galpão na ETA da Sanasa (acima) em
Campinas-SP conta com três decanters para desaguar 1.100 t/mês de
lodo, que seguem todo dia em carretas para aterro

Siqueira: unidade vai ter secagem
por energia solar |
Apesar de operar de forma eficiente, e com capacidade para suportar 100%
da geração, a estação em períodos de muita chuva não suporta uma geração
até cinco vezes maior de lodo. “Nesses picos pontuais, somos obrigados a
fechar a entrada na unidade de deságue e deixar o lodo seguir para o rio”,
explicou. Para melhorar a operação, até o final do ano devem começar as
obras de ampliação da ETA, quando as três centrífugas serão substituídas
por quatro novas, cada uma delas capaz de gerar 1.500 kg/h de sólidos
secos e para vazões de até 75 m3/h.
Com investimento total de R$ 4,6 milhões – 60% são recursos provenientes
do plano de cobrança pelo uso da água gerido pelo comitê de bacia da
região de Piracicaba, Capivari e Jundiaí –, as obras de reforma e
ampliação ainda envolverão a inclusão de um gradeamento de areia e fino
anterior à centrifugação, para diminuir o desgaste nas máquinas. E também
contemplará a instalação de um galpão de secagem de lodo, que usará a
energia solar para elevar até 60% o teor de sólidos secos do lodo e assim
reduzir o valor do descarte em aterro.
No plano geral da Sanasa, segundo revelou Siqueira, a ideia é fazer nas
outras ETAs, 1 e 2, que ainda não tratam os lodos, um projeto de
interligação desses lodos para serem tratados em ETEs da Sanasa, que já
possuem expertise e estrutura para deságue. “Nesses casos, fica mais fácil
centralizar o tratamento, misturando os dois lodos e dando o mesmo destino
a eles”, explicou.
Nas ETEs – A ideia de aproveitar o expertise das ETEs para fazer o
desague de lodos de ETAs é compartilhada pela maior companhia estadual de
saneamento do país, a Sabesp, de São Paulo. De acordo com o gerente de
operação e manutenção da ETE São Miguel, Helvécio Carvalho de Sena, apesar
de a companhia ter estações de desidratação de lodo em ETAs, como as de
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Taiaçupeba e de Cubatão, o plano é concentrar essas
operações em suas ETEs, onde há anos a empresa realiza o deságue em
filtros-prensa e decanters e, portanto, possui know-how suficiente
para aumentar sua responsabilidade.
Segundo Sena, está praticamente certo, por exemplo, que o lodo da ETA
do Alto da Boa Vista será tratado na ETE Barueri, mesmo destino que
deve ter o gerado na ETA Guaraú. “Onde for possível, a Sabesp fará um
interceptor para levar os lodos das ETAs para uma ETE”, explicou o
gerente. A centralização da operação, além de reduzir custos, pula a
necessidade de adaptação dos profissionais das ETAs para a nova
fase do tratamento, deixando a cargo de pessoas já bastante habituadas
ao deságue de lodo em ETEs. É bom lembrar que algumas ETEs de São
Paulo, como a de Suzano e de Barueri, já realizam o ofício há mais de
vinte anos, desde quando foram fundadas. |
Cuca Jorge

Sena: Sabesp planeja tratar lodos das ETAs nas ETEs |
Para o gerente operacional da ETE São Miguel, que também já exerceu o
cargo na maior estação do Brasil e uma das maiores do mundo, a de Barueri,
não há grandes inconvenientes em receber lodo de ETAs nas estações de
tratamento de esgoto. O único problema é a grande oscilação de
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