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Divulgação

Time brasileiro formado por Levindo,
Arthur, João e Thalys
(da esq. para a dir.) |
Delegação
brasileira ganha destaque em evento na Inglaterra
José Paulo Sant’Anna
A
participação brasileira nos jogos olímpicos tem sido bastante tímida
ao longo da história. Raros são os atletas brasileiros a subir no
pódio. Poucos no país sabem, no entanto, da excelente participação
brasileira em uma competição quase nada divulgada por aqui, a
Olimpíada Internacional de Química. Na 41ª edição, realizada entre os
dias 19 e 27 de julho na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, a
delegação nacional fez bonito. Três dos nossos quatro integrantes
conquistaram medalhas. |
Levindo José Garcia Quarto trouxe na bagagem uma medalha de prata. Arthur
Braga Reis e João Victor Rocha Magalhães Caminha conquistaram bronze. Além
dos medalhistas, a equipe brasileira contou com a participação de Thalys
Sampaio Rodrigues. Todos têm dezessete anos e participaram pela primeira
vez da competição. Ao todo, concorreram 286 estudantes de 72 países, com
idades entre 14 e 19 anos. Cada delegação é formada por, no máximo, quatro
representantes.
Um pouco de história ajuda a compreender a presença do Brasil nesta
Olimpíada. O torneio foi criado em 1968, na Checoslováquia. Desde então,
todos os anos, no mês de julho, ele é disputado em diferentes países. Os
participantes passam por uma bateria de provas elaboradas por um júri
internacional. Os exames, teóricos e práticos, são submetidos aos
estudantes durante um período de dez dias. No próximo ano, a competição
será realizada no Japão.
As delegações nacionais começaram a participar do evento internacional
anos mais tarde. Antes foi necessário criar a Olimpíada Brasileira de
Química, pela qual são selecionados os estudantes a ser enviados para o
certame internacional. Uma primeira ação nesse sentido teve origem em São
Paulo, no ano de 1986, por iniciativa do professor Shigueo Watanabe, do
Instituto de Física da USP. Por dificuldades financeiras, o torneio
nacional foi suspenso em 1989. Cinco anos mais tarde, foi reiniciado,
graças ao esforço da Universidade Federal do Ceará, em parceria com a
Fundação Cearense de Apoio Científico (Funcap). De 1994 para cá, vem sendo
realizado sem interrupção no Brasil.
Coordenador geral da competição nacional, Sérgio Maia Melo, professor
doutor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e assessor da presidência da
Funcap, conta os motivos da iniciativa tomada há quinze anos. “Havia uma
pequena procura pelo curso de Química da UFC. Além da baixa qualidade dos
ingressantes, a maioria apresentava pouca afinidade pela ciência”, revela.
O quadro gerava elevado índice de evasão escolar. “Ao final de quatro
anos, dos quarenta alunos que passavam no vestibular, só dois ou três
concluíam o curso”, lembra.
Foi iniciado, então, um trabalho na rede escolar. Com o argumento da
participação na competição, professores da UFC passaram a visitar
instituições de ensino locais, privadas e públicas, para estimular
estudantes. A iniciativa gerou a criação, em 1994, da Olimpíada
Norte/Nordeste de Química. No ano seguinte, surgiu a Olimpíada Brasileira
de Química.
O projeto evoluiu e hoje se chama Programa Nacional Olimpíadas de Química.
Ele apoia a realização de competições municipais e estaduais em todo o
território nacional. Também ajuda a capacitar docentes de química do
ensino médio e na realização de cursos de aprofundamento para os
estudantes. A primeira edição da Olimpíada Norte/Nordeste contou com 187
participantes. Na edição mais recente, competiram 164 mil estudantes,
número considerado muito positivo em um país onde a ciência é tão pouco
estimulada. “Ao longo dos anos, muitos alunos que participaram da
Olimpíada se especializaram em Química. Nós já temos vários ex-alunos
fazendo mestrado nas melhores faculdades do país, como o ITA e a Unicamp,
e outros dando aulas”, orgulha-se Melo.
A participação do Brasil no torneio internacional se iniciou há dez anos.
Ao longo desse período, o país já conquistou 16 medalhas, sendo três de
prata e treze de bronze. Ainda não foi conquistada uma de ouro, tarefa
nada simples dada a excelência dos alunos oriundos dos países asiáticos.
“Quase todas as medalhas de ouro vão para japoneses, chineses, coreanos.
Eles se preparam de forma excepcional”, diz Melo.
Vale ressaltar a excelente participação dos alunos brasileiros na
Olimpíada Ibero-Americana, cuja 12ª edição será realizada neste mês de
outubro em Cuba. Na edição de 2008, realizada em Portugal, obtivemos o
destaque maior. Por equipe, o Brasil ficou em primeiro lugar.
Individualmente, os estudantes brasileiros conquistaram o primeiro,
segundo, quarto e oitavo lugares. Dos quatro estudantes que compuseram a
delegação, três foram agraciados com ouro e um com prata. O país coleciona
48 medalhas na competição.
O torneio nacional passa por seis etapas. Começa reunindo os vencedores
estaduais, que vão passando por seleções cada vez mais rigorosas. Na
quarta etapa, dedicada a estudos em laboratórios, são escolhidos 40
competidores. Na quinta restam dezesseis alunos, para os quais é oferecido
um curso de duas semanas na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Na última são selecionados os quatro alunos enviados para os torneios
internacionais.
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Uma equipe muito
esforçada
Os “atletas” brasileiros vencedores de medalhas na
Olimpíada Internacional não pouparam esforço para representar o Brasil
de forma digna. A preparação exige a participação de cursos fora do
currículo escolar e muito estudo nas horas vagas. Algo em torno de
oito horas por dia na véspera da competição. O amor pela química é
sentimento comum.
Com duas medalhas de prata no torneio em sua estante de prêmios,
conquistadas em 2007 e 2008, a aluna cearense Thaís Jorge tem o melhor
desempenho entre os participantes nacionais até hoje. Com apenas
dezessete anos, ela conseguiu outra façanha este ano. Acaba de ser
admitida no Massachusetts Institute of Technology (MIT), centro
mundial de excelência em estudos de química. Foi aprovada depois de
passar por rigoroso processo de seleção.
O interesse de Thaís pela ciência começou cedo. Aos nove anos, ela se
encantou com as experiências realizadas no Clube de Ciências de sua
escola, o Colégio 7 de Setembro. “Quando eu era pequena queria ser
paleontóloga, depois quis fazer medicina. Em 2004, decidi fazer
Química. Minha família ficou triste. Meu avô chegou a dizer que eu
morreria de fome porque não arrumaria emprego”, conta Thaís.
Levindo José Garcia Quarto, vencedor de prata em 2009, não era um bom
estudante de química. Por causa da deficiência, quando cursava a
oitava série, resolveu participar da competição. A ideia era
aproveitar a chance de frequentar aulas de reforço. “Comecei a estudar
mais, a me aprofundar, a gostar da matéria”, diz. Ele não acreditava
que chegaria tão longe. “Nunca imaginei que iria ganhar uma medalha de
prata”, conta. No final do ano, vai se dedicar ao vestibular. Quer
cursar Química na Universidade Federal do Ceará ou na Unicamp, ou na
USP.
Uma simpatia especial pela matéria levou Arthur Braga Reis a se
inscrever nas Olimpíadas. Ele também foi influenciado pelos colegas
que conquistaram prêmios. “Eles foram um espelho, queria ser igual”,
conta. Conseguiu seu objetivo, ganhou uma medalha de bronze em julho,
na competição realizada na Inglaterra. “O esforço é grande, estudamos
até altas horas, mas dá para levar”, explica.
Situação semelhante vive João Victor Rocha Magalhães. Desde pequeno,
quando ganhou um livro de ciências, ele tomou gosto pela Química.
Quando chegou à oitava série, não teve dúvidas de se inscrever nas
Olimpíadas. Muitas e muitas horas de estudo depois, também “beliscou”
um bronze na Inglaterra. “O clima entre os participantes é muito
legal, um incentiva o outro”, diz. Ele garante que ainda sobra tempo
para outras coisas. “Participo de um grupo de teatro, outra coisa que
gosto muito”, diz. O futuro, no entanto, pertence à Química. “Vou
prestar vestibular este ano”, ressalta.
Cearenses, Levindo, Arthur e João Victor fazem parte da delegação
brasileira que neste mês de outubro vai participar das Olimpíadas
Ibero-Americanas, que serão realizadas em Cuba. O quarto elemento será
o paulista Daniel Kakiuthi, único representante a quebrar a hegemonia
do estado nordestino. Daniel é paulista. “Meu gosto pela Química
começou no primeiro ano do ensino secundário, quando entrei no Colégio
Etapa”, conta. Com a esperança de trazer uma medalha de Cuba, ele já
definiu sua carreira. “Quero fazer química ou engenharia química”,
conta. |
Atual pró-reitor de pesquisa, o professor Ronaldo Pilli dirigia o
Instituto de Química da Unicamp em 2008, quando viajou a Teresina-PI para
ministrar um curso preparatório para os finalistas da Olimpíada de
Química. “Fiquei tão animado com a experiência que ofereci as nossas
instalações e pessoal para o aperfeiçoamento deste ano”, comentou. Como
avaliou, os exames teórico-práticos aplicados no certame mundial alcançam
um nível de complexidade comparável aos do último ano de graduação em
Química.
Além disso, o interesse desses alunos pela ciência não se esgota nas
competições. “No início deste ano letivo, recebemos quatro calouros que
participaram das olimpíadas passadas e eles se mostram excelentes alunos”,
informou Pilli. A presença desses calouros incentiva os colegas e até os
professores a aprofundar as aulas, melhorando o nível geral do curso. “A
função da universidade é estimular talentos; podemos oferecer muita coisa,
mas os alunos precisam explorar todo esse conhecimento.” Pilli manifestou
o desejo de a Unicamp sediar novamente a preparação final em 2010.
A força do Ceará – Todos os estudantes premiados na Olimpíada
Internacional deste ano e os representantes do país na versão
Ibero-Americana de 2008 têm uma característica em comum. Eles representam
o estado do Ceará. O fato consolida o forte predomínio do estado
nordestino na competição e chega a incomodar o professor Melo. “Pode
transparecer que pelo fato de a coordenação do concurso nacional ser feita
no Ceará haja algum tipo de favorecimento”, explica. Ele garante a lisura
do concurso e torce pela melhora do desempenho de representantes de outros
estados. “São Paulo e Minas Gerais estão crescendo”, avalia.
O sucesso cearense se deve muito ao ambiente propício presente em algumas
escolas. “Temos muito apoio de instituições de ensino, elas dão aulas de
reforço para os alunos, investiram na montagem de laboratórios e de
bibliotecas com livros de química de qualidade”, exemplifica. Os prêmios
conquistados pelos “atletas” locais também estimulam os estudantes da
região. “Os ganhadores servem de exemplo para outros alunos se dedicarem
ao estudo”, revela.
O professor Pilli, da Unicamp, concorda com o colega e vai além. “Em São
Paulo sentimos a falta de apoio da Secretaria de Educação, que precisa
colocar as olimpíadas no calendário oficial de eventos das escolas”,
recomendou. Ele comentou que a primeira fase de seleção é feita com mais
de 160 mil alunos em todo o país. Essa fase inicial precisa de mais
divulgação, principalmente entre os professores do ensino médio, que
precisam apoiar a iniciativa. “Não adianta ficar só reclamando que o
ensino é ruim, é preciso participar de programas desse tipo para melhorar
o quadro”, afirmou Pilli. As empresas, especialmente do setor químico,
deveriam ajudar a divulgar e patrocinar com mais ênfase as olimpíadas,
porque elas têm repercussão direta na qualidade dos profissionais que
nelas atuarão no futuro.
Um fato lamentado pelo coordenador nacional do prêmio é a pífia
participação dos alunos das escolas públicas. “O ensino público é um
desastre, seus alunos estão sempre nas últimas colocações”, revela. O
professor estuda encontrar alguma maneira de tentar reverter esse quadro.
Outro problema se encontra na falta de apoio. “A partir de 2002 passamos a
contar com a ajuda do CNPq. O Banco do Nordeste financia todos os anos a
impressão de 15 mil exemplares de um livreto em que apresentamos as provas
realizadas e suas resoluções, e comentários”, diz. Fora isso, o patrocínio
é quase inexistente. Entidades ligadas à indústria, caso da Associação
Brasileira da Indústria Química (Abiquim), mostram boa vontade, mas alegam
falta de verba para ajudar de maneira mais consistente. “Este ano
esperamos contar com algum auxílio da Petrobras”, acredita.
Martim Afonso Penna, diretor-executivo da Associação Brasileira da
Indústria de Álcalis, Cloro e Derivados (Abiclor), admite que a
contribuição financeira da indústria química para as olimpíadas é modesta.
“A Abiclor patrocina há nove anos essa iniciativa, mas sua contribuição
fica por volta de R$ 12 mil por ano”, comentou. A Abiquim divulga o
certame por meio de banners em todos os encontros e cursos que promove,
além de levar os vencedores do certame nacional para apresentá-los durante
o seu encontro nacional realizado todos os anos em dezembro.
Apoiador entusiasmado do certame, Penna elogia a dedicação e o trabalho
dos coordenadores nacional e regionais, ressaltando o elevado grau de
dificuldade das provas. “Nossa equipe é a melhor das Américas nessa faixa
etária”, comentou. Ao mesmo tempo, ele se esforça para incentivar as
empresas ligadas à Abiclor e à Abiquim a oferecer estágios e programas de
treinamento para esses alunos. “Nossa indústria concorre com outros ramos
pelas melhores cabeças entre os jovens e ainda sofre com mitos e
preconceitos contra a Química”, disse.
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São Paulo promete
melhorar
O Estado de São Paulo, o mais populoso e líder na
economia nacional, promete reagir ao domínio cearense nas Olimpíadas
de Química. Para isso, conta com a colaboração de algumas escolas que
nos últimos anos se mostraram interessadas em melhorar o preparo de
seus alunos. “Algumas escolas agora estão dando suporte adicional aos
alunos”, diz Ivano Gutz, coordenador da Olimpíada no Estado de São
Paulo, professor titular do Instituto de Química da USP e diretor da
Academia de Ciência do Estado de São Paulo.
Mais do que gerar vencedores para a competição, Gutz diz ser
importante incentivar jovens para a ciência. “O Brasil conta com
número muito reduzido de cientistas”, destaca. Ele ressalta que nenhum
país pode se desenvolver com esse perfil e lembra do progresso
alcançado pelos países asiáticos, fortes investidores em educação.
“Essa competição é uma forma de chamar a atenção dos estudantes”,
avalia.
O concurso realizado em São Paulo conta com algumas particularidades.
A primeira aparece no filtro inicial da competição. “Nossa seleção se
inicia com uma redação sobre um tema ligado à Química”, conta Gutz. O
coordenador acredita que dessa forma é possível alcançar alunos pouco
interessados na matéria. “O tema é discutido em sala de aula e a
redação pode ser desenvolvida em grupo. Depois é escolhido o aluno do
grupo com maior facilidade para entender a matéria”, diz. Em 2010, o
tema do prêmio será “Química Verde: Rumo a Produtos e Processos sem
Impacto Ambiental”.
Os aprovados passam por atividades como cursos, palestras e visitas a
laboratórios. No final são selecionados quarenta estudantes, indicados
ao estágio nacional. O concurso paulista conta com patrocinadores
exclusivos: Conselho Regional de Química, Associação Brasileira da
Indústria de Álcalis, Cloro e Derivados (Abiclor), Basf, Universidade
Mackenzie e Quattor. |
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