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Foto: Agência Petrobras

Plataforma começa a extrair petróleo do campo de
Tupi, na Bacia de Santos |
Estimativa de grandes reservas na
região
do pré-sal faz governo propor
mudanças no marco regulatório
Bia Teixeira
Ao completar 56 anos, a
Petrobras enfrenta enormes desafios não só em terra e mar, mas também na
bacia de interesses da política. Maior exploradora em águas profundas,
detendo 23% das operações mundiais nesta área, a estatal terá participação
garantida em todos os projetos do pré-sal. Esse é o desejo do governo
federal, que mandou ao Congresso Nacional um pacote com quatro projetos de
lei para mudar as regras atuais da exploração e produção de petróleo, nas
quais vigora o instrumento de concessão desde a quebra do monopólio
estatal, em 1997.
Pela proposta apresentada, a estatal deverá ser a única operadora, com uma
participação de no mínimo 30%, nos blocos ainda a ser licitados que
estiverem na área de abrangência do pré-sal – uma província petrolífera de
nada menos que 149 mil quilômetros quadrados, dos quais 107,228 mil km²
(72%) ainda não estão sob regime de concessão. Ou seja: pertencem à União.
Estes são os números do “Novo Marco Regulatório Pré-sal e Áreas
Estratégicas”, elaborado pelo CNPE, que define a província como toda a
área onde há possibilidade de ocorrências de reservas no pré-sal, sem
indicar, em nenhum momento, a possibilidade de um reservatório único.
Estes 72% da área, quando licitados, serão explorados sob o regime de
partilha – mudança regulatória que se aplicará a outras áreas consideradas
estratégicas, ainda não licitadas. E tampouco definidas. É bom lembrar que
a Petrobras detém participação hoje equivalente a 24% da área total do
pré-sal, ficando apenas 4% nas mãos de outras companhias.
Na realidade, a Petrobras poderá ter mais de 30% de cada bloco do pré-sal
a licitar, uma vez que as novas regras estabelecem que a União poderá
contratar exclusivamente a estatal ou, se quiser, fará licitações para dar
acesso às demais companhias petrolíferas aos 70% restantes de
participação.

A proposta é fruto de catorze meses de discussão dentro do Conselho
Nacional de Política Energética (CNPE), um órgão de assessoramento do
Presidente da República que tem como principal função formular políticas e
diretrizes na área de energia. E deverá ter um período muito maior de
discussão no Congresso Nacional, pois trata não somente do papel da
Petrobras no pré-sal e da criação de uma segunda estatal para gerenciar
essa riqueza – a Petrosal (nome provisório). Também está em jogo a questão
dos royalties e das participações especiais, disputadas não somente pelos
estados produtores como também por aqueles que não têm reservas de
petróleo e, em alguns casos, nem mesmo costa marítima.
É nesse cenário que a Petrobras se movimenta, tanto no Brasil como no
exterior, onde os executivos da companhia vêm apresentando o novo marco
regulatório, assegurando ter condições de explorar o pré-sal. Mas deixando
sempre uma porta aberta para investidores e eventuais parceiros
contribuírem para bancar os altos custos de exploração de uma riqueza
ainda não totalmente mensurada, mas que já indica que o país dobrará suas
reservas (hoje, de 14 bilhões de barris) e também sua produção até 2020.
“Vamos fazer em doze anos o que a Petrobras fez em 54 anos”, tem repetido
inúmeras vezes o presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli. Uma vez que
a Petrobras completou 54 anos em 2007, esta contabilidade se refere ao
período de 2008 a 2020. Portanto, leva em consideração a produção média
diária, no ano passado, de 1,854 milhão de barris de petróleo e LGN
(liquefeito de gás natural), chegando a 2,4 milhões de barris de óleo
equivalente (boe/dia), computados também o gás natural e a produção
internacional da Petrobras.
A média deste ano está em 1,958 milhão de barris de petróleo e LGN, e mais
de 2,5 milhões de boe/dia. No entanto, acredita-se que quando liberar os
resultados de setembro, a Petrobras terá entrado no seleto clube de
empresas que produzem 2 milhões de barris em casa. Mas Gabrielli olha mais
além, nas metas da companhia, que pretende produzir mais de 5,7 milhões de
boe/dia em 2020, mais do que o dobro da produção atual, que está projetada
para superar os 2,7 milhões de barris até o final do ano. Um crescimento
médio de 8,8% ao ano, o maior da indústria mundial.
Deste total, a produção brasileira será de mais de 5 milhões de boe/dia,
dos quais 1,853 milhão de barris de petróleo por dia (bpd) virão do
pré-sal. “Não temos a expectativa de uma grande produção nestes primeiros
anos e sim a partir de 2013”, afirma Gabrielli. Na ponta do lápis, se isso
se realizar, a estatal estará atingindo, somente no pré-sal, a sua atual
produção nacional de petróleo.
Mistério no fundo do mar – Para atingir essa meta ambiciosa, a
Petrobras prevê investimentos de US$ 111,4 bilhões, dos quais US$ 98,8
bilhões na Bacia de Santos e o restante na Bacia Capixaba. Está prevista a
entrada em operação de 15 plataformas até 2013 e mais 30, até 2020. No
mínimo dez plataformas serão alocadas para o pré-sal, podendo chegar a um
terço do total de unidades produtoras, ou até mesmo metade, dependendo dos
resultados obtidos no período.
No momento, está em curso o teste de longa duração (TLD) de Tupi, além da
produção do pré-sal no Parque das Baleias, na costa do Espírito Santo, no
campo de Jubarte. E já houve sinais de que as coisas não serão fáceis. Não
somente pelos desafios tecnológicos da empresa, como também de seus
fornecedores de bens e serviços.
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Quatro dias depois de anunciar o início do refino de
óleo de Tupi, na refinaria de Capuava (Recap), na Grande São Paulo, a
empresa informou ter detectado “um problema de fabricação nos
parafusos de fixação” da árvore de natal molhada (equipamento
submarino de controle de fluxo de poços), fornecida pela multinacional
Cameron. Ressalvando que uma inspeção submarina não detectou vazamento
de óleo ou dano, a companhia decidiu substituir de imediato o
equipamento, incluindo a base |
Foto: Agência Petrobras

Refinaria de Capuava processa o óleo leve de Tupi |
adaptadora, que fica na cabeça do poço. O curioso é que a Petrobras não
fez grande alarde sobre essa falha ou defeito de fabricação de um projeto
que custou vários milhões de dólares. Técnicos afirmam que isso se deve ao
fato de a falha não ter sido encontrada em Tupi, mas em uma operação na
costa capixaba – Jubarte ou Golfinho –, fazendo tremer a estatal, que
optou por parar tudo.
Afinal, o óleo vem sendo extraído em condições bastante severas:
profundidade de água de 2.140 metros, mais de 3.000 metros a partir do
fundo do mar, abaixo de 2.000 mil metros de camada de sal e a uma
distância de 300 km da costa do estado de São Paulo.
O poço foi fechado para início da intervenção no dia cinco ou seis de
julho, pouco mais de dois meses após entrar em operação. Correndo contra o
relógio a Petrobras conseguiu retomar o TLD em dois meses, no dia cinco de
setembro, com a instalação de novos equipamentos, previamente testados.
Reiniciou assim a produção de um petróleo leve, de 28,5º API, baixa acidez
e baixo teor de enxofre, que é primordial para ampliar o conhecimento da
Petrobras e das parceiras (BG Group, com 25%; e Galp Energia, com 10%)
sobre este tipo de reservatório. “O processamento desse petróleo será
importante para avaliar o rendimento e a qualidade dos derivados
produzidos”, informou a estatal.
Equacionado o ‘problema de parafuso’, a estatal espera não se deparar com
novos defeitos de fabricação, uma vez que a cadeia de fornecedores foi
alertada para intensificar seu controle de qualidade em todas as etapas de
produção de bens e serviços. Esta poderá ser uma das atribuições do grupo
técnico do pré-sal que a Petrobras vai integrar, a convite da Agência
Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
O convite foi comunicado pela estatal no dia 7 de agosto, mesmo dia em que
fez comunicado afirmando desconhecer qualquer proposta que a colocasse
como operadora única do pré-sal. Na realidade, isso só seria confirmado no
final do mês, no dia 31 de agosto, quando o governo apresentou seu pacote
regulatório – inicialmente em regime de urgência, pleito logo abandonado
em virtude da resistência encontrada dentro e fora do Congresso, por se
tratar de uma proposta que afeta tantos interesses: econômicos e
políticos, nacionais e estrangeiros.
Ao mesmo tempo, a empresa espera manter seu nível de acerto no pré-sal: o
documento apresentado pelo governo confirma que na região do pré-sal, que
se estende da Bacia do Espírito Santo até a Bacia de Santos, a Petrobras
perfurou 31 poços, com 87% de taxa de sucesso. Ou seja, pelo menos quatro
poços não deram em nada.
Com uma ressalva: foi de 100%, de acordo com o governo, a taxa de sucesso
da estatal na Bacia de Santos, onde foram perfurados 13 poços. Quem se deu
mal foi a norte-americana Exxon e a britânica BG, que perfuraram os dois
únicos poços secos confirmados na Bacia de Santos. É bom lembrar que ambas
são parceiras da Petrobras nesses projetos, mas detêm a responsabilidade
pela fase exploratória.

Mas há boatos de um poço seco perfurado pela Petrobras, no bloco BM-S-17,
jamais confirmado – a empresa alega apenas que interrompeu, por duas
vezes, a perfuração por problemas técnicos. A Petrobras prefere atentar
para o seu sucesso em novas descobertas, a última delas, em meados de
setembro, no bloco BM-S-9, por meio do poço Abaré Oeste, na área de
avaliação de Carioca. Foi o quarto poço perfurado com sucesso neste bloco.
Também está em avaliação a área de Guará. Esta, por sua vez, já havia
confirmado na semana anterior uma altíssima produtividade dos
reservatórios: vazões da ordem de sete mil bpd, volume limitado pela
capacidade dos equipamentos do teste. A estimativa de produção inicial de
um poço está sendo estimada em cerca de 50 mil barris de óleo por dia. Os
dados confirmam reservas recuperáveis na faixa de 1,1 bilhão a 2 bilhões
de barris de óleo leve e gás natural, com densidade em torno de 30º API.
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Refinarias complexas – Se na exploração e
produção do pré-sal o ambiente é tenso, o mesmo acontece na área do
refino, que perdeu espaço nas páginas dos jornais por causa do
estrondo provocado pelas contínuas descobertas no pré-sal. Enquanto o
parque de refino, com onze refinarias em operação, continua em obras,
seja para expansão da capacidade produtiva ou modernização, os novos
projetos demoram a decolar, como é o caso do Complexo Petroquímico do
Rio de Janeiro (Comperj) e da Refinaria Abreu e Lima. E já atraem os
olhos do Tribunal de Contas da União (TCU).
A refinaria de Pernambuco (nomeada Abreu e Lima) teve seus custos
praticamente triplicados em uma revisão não anunciada, mas que estaria
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nas entrelinhas dos planos de negócios da estatal, revistos anualmente.
Esses números ganharam o noticiário quando o TCU solicitou informações
sobre diversas obras, entre as quais as desta unidade.
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