Cadeia produtiva se reúne na sede das atividades operacionais do pré-sal
na Bacia
de Santos


Denis Cardoso


Maior cidade do litoral paulista, Santos tem como principal cartão-postal os seus mais de sete quilômetros de praia, característica que atrai

milhares de turistas durante os feriados e nas férias de verão. No futuro próximo, porém, a principal fonte de renda do município não estará mais à beira-mar e no formigueiro sazonal de banhistas, mas nas águas ultraprofundas situadas a 300 quilômetros da orla, onde estão localizados os mais promissores campos de petróleo da chamada camada pré-sal, na Bacia de Santos. Um sinal dessa tendência de transformação da Baixada Santista de um polo turístico e portuário – o município abriga o maior porto da América Latina – para uma região também industrial, beneficiada pelos royalties do petróleo e pela presença maciça de empresas ligadas à cadeia petrolífera, pôde ser sentido pelo grande número de expositores participantes da terceira edição da Santos Offshore Oil & Gas Expo and Conference, a ser realizada entre os dias 20 e 23 de outubro, no Mendes Convention Center, em Santos-SP.

São esperadas cerca de 320 empresas na feira deste ano, 45% a mais que o registrado em 2008. Durante esses três dias, a organização prevê a circulação de 18 mil pessoas pelos 15 mil metros quadrados ocupados pelos estandes, perfazendo um crescimento de 20% sobre os 15 mil visitantes computados na feira do ano passado. Os números são bastante significativos se for considerado o fato de a nova fronteira do pré-sal estar ainda em fase embrionária, com perspectivas para

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Visitação deve crescer quase 20% neste ano

começar a produzir petróleo em grande escala somente a partir de 2017. “A Santos Offshore é vista como uma oportunidade única para os expositores estarem próximos de futuros potenciais clientes”, afirmou Valmir Semeghini, diretor da AGS3 Promoções & Eventos, responsável pela organização do evento.

As operações na camada pré-sal abrangem uma grande área geográfica, que engloba quatro estados brasileiros, estendendo-se da costa de Cabo Frio, no Rio de Janeiro, a Florianópolis, em Santa Catarina. No entanto, para o diretor da AGS3, não há dúvidas da importância da Baixada Santista e do estado de São Paulo dentro do mapa dessa bacia sedimentar de 350 mil km². “São Paulo acabou sendo abençoado pelo pré-sal”, disse Semeghini, referindo-se às descobertas de campos gigantes como os de Tupi e Iara, situados mais próximos da parte paulista da Bacia de Santos. “Durante anos me acostumei a visitar regiões petrolíferas do Rio de Janeiro e da Bahia, e agora estou vendo nascer essa grande área de petróleo no quintal de casa”, comemorou o diretor da AGS3, um paulistano e neto de italianos que está envolvido com o setor há mais de vinte anos, grande parte deles dedicados à promoção de eventos.

Apesar de São Paulo ainda não produzir petróleo, o estado responde por 40% do parque nacional de fabricantes de equipamentos para o segmento petrolífero, além de abrigar quatro refinarias da Petrobras, que juntas respondem por 42% da capacidade de refino do país. São essas empresas que ajudarão a engrossar o quadro de expositores da Santos Offshore, que contará também com companhias vindas de outras regiões do Brasil e do exterior. “A cadeia produtiva do petróleo acaba mexendo com todos os outros segmentos do mercado e engloba desde a produção de um simples parafuso até a fabricação de uma moderna sonda de perfuração”, afirmou Semeghini. “Teremos na feira companhias interessadas em fornecer produtos e serviços não só para os setores de petróleo e gás, mas petroquímico, químico, siderúrgico, entre outros”, acrescentou.

No entanto, o principal termômetro para medir a importância das cidades da região metropolitana da Baixada Santista – além de Santos, São Vicente, Cubatão, Guarujá, Mongaguá, Itanhaém, Praia Grande, Peruíbe e Bertioga – para os negócios futuros envolvendo o pré-sal está na planilha de investimentos futuros da Petrobras, que é uma das patrocinadoras da feira Santos Offshore. Com as novas descobertas, a estatal brasileira decidiu construir, na cidade litorânea, a sede definitiva de sua Unidade de Negócio de Exploração e Produção da Bacia de Santos (UN-BS), responsável pelo desenvolvimento dos projetos na região. Hoje, a UN-BS, que funciona em Santos desde 2006, ocupa quatro endereços na cidade, em prédios alugados, com áreas técnicas, de coordenação de operações e administrativas, um contingente total de 800 funcionários.

“Todas as atividades da Bacia de Santos são coordenadas a partir de Santos. Por isso, optamos por construir a sede definitiva da unidade, que terá ao todo três edifícios com capacidade para abrigar até seis mil pessoas”, afirmou o gerente-geral da UN-BS, José Luiz Marcusso. Entende-se por “todas as atividades” da Bacia de Santos, o controle atual de nada menos que 11 sondas de perfuração e duas plataformas de produção em operação (uma delas no valioso campo de Tupi). Nos próximos dois anos serão mais 20 sondas na região. Até o final deste ano, entra em operação mais uma plataforma da estatal e, em 2010, outras quatro unidades. De 2011 a 2016, entrarão em operação outras 12 plataformas na Bacia de Santos, sendo 11 delas na área do pré-sal. Em 2010, ainda será inaugurada a

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Marcusso: bacia extensa exige mais bases de apoio na costa

Unidade de Tratamento de Gás Monteiro Lobato (UTGCA) em Caraguatatuba, no litoral Norte de São Paulo, que receberá gás natural de várias áreas da Bacia de Santos.

Segundo o executivo, à época da criação da Unidade da Bacia de Santos, no segundo semestre de 2005, um grupo de trabalho analisou diversos municípios que poderiam receber a sede. Após longas análises técnicas e estratégicas, Santos foi o escolhido. “Foram considerados diversos fatores, como a sua posição geográfica central dentro da bacia, a proximidade do porto, a sua infraestrutura, o fato de estar perto da capital paulista e a existência de universidades”, explicou Marcusso.

Em 2010 será iniciada a construção do primeiro prédio da sede, que terá capacidade para duas mil pessoas e deverá ficar pronto em meados de 2012. “Espera-se que, a partir de 2012, com a disponibilidade do primeiro prédio, tenhamos um efetivo em terra da ordem de 1.500 pessoas, incluindo empregados próprios e terceirizados, além dos prestadores de serviços (contabilidade, jurídico, entre outros). E, até 2017, os outros dois prédios da sede deverão estar concluídos”, prevê o gerente.

As três novas torres da Petrobras serão erguidas no bairro do Valongo, na área central de Santos. Marcusso disse que a estatal, juntamente com a prefeitura da cidade, está desenvolvendo um plano diretor especialmente dedicado ao bairro, que contempla melhorias em seu entorno, como um projeto especial de trânsito, que prevê a extensão do VLT (veículo leve sobre trilhos), além da análise de outros modais, como transporte marítimo para as cidades do Guarujá, Bertioga e Cubatão. “Também está em estudo a extensão de ciclovias até o bairro do Valongo e a possibilidade de se instalar delegacias comunitárias, com a presença na região da polícia civil e militar”, afirmou o gerente.

Além da nova sede, a Petrobras pretende ampliar o aeroporto de Itanhaém e também está finalizando estudos para instalar mais duas bases de apoio logístico ao longo da costa marítima, uma no estado do Rio de Janeiro e outra no estado de São Paulo. Os locais, porém, ainda não foram definidos, embora seja grande a chance de Santos ser a cidade escolhida, considerando os investimentos que já estão sendo aplicados nessa região.

Sabe-se que a instalação de uma base de apoio de uma petrolífera do porte da Petrobras será de extrema importância para os municípios que serão escolhidos, pois onde há esse tipo de operação acaba surgindo a demanda por negócios num raio de até seis quilômetros, como os serviços de manutenção para as atividades marítimas. Atualmente, para o apoio das operações da Petrobras na Bacia de Santos, são utilizados os aeroportos de Jacarepaguá-RJ, Itanhaém e Navegantes-SC, além dos portos localizados em Macaé-RJ, no Rio de Janeiro (capital) e em Itajaí-SC.

A capacitação de mão-de-obra local – não exclusivamente para atender à demanda da Petrobras, mas sim de toda a cadeia de prestadores de bens e serviços – é uma das preocupações da Petrobras e dos organizadores da Santos Offshore. “Santos tem de se programar para comportar toda essa demanda de empresas e de pessoas que surgirá na esteira do pré-sal. Do jeito que está hoje, a cidade não conseguirá atender a essa demanda”, afirma Semeghini. “Não adianta querer desenvolver o setor industrial, mas não dar suporte para ele crescer. Um exemplo ruim disso foi visto na região de Macaé, que teve um crescimento muito rápido por causa da evolução da Bacia de Campos e não estava preparada para isso”, completou o responsável pela feira.

O gerente da Petrobras lembrou que a estatal criou na região da Baixada Santista, em setembro de 2006, o Fórum Regional da Bacia de Santos, do Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural (Prominp), para desenvolver projetos locais de fomento da indústria de bens e serviços do mercado de petróleo e gás, além de promover a capacitação de mão-de-obra para atendimento a esse mercado em expansão. “Entendemos que, dessa forma, os impactos em Santos e cidades vizinhas existirão, mas serão mais positivos, com a geração de empregos, do que negativos”, aposta Marcusso. “Em Caraguatatuba, por exemplo, cerca de 800 pessoas foram empregadas por meio de convênio com o Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial] e, dos cerca de 2.100 trabalhadores que estão na obra, cerca de 60% foram selecionados naquela região”, acrescentou o executivo, referindo-se à construção de nova base de gás natural que atenderá projetos como o do campo de Mexilhão, instalado a 140 quilômetros da costa marítima.

Ainda segundo o executivo da estatal petrolífera, não se pode comparar a situação de Santos com a de Macaé. “Em termos de concentração de atividades, há uma situação muito diferente. Em Macaé, está toda a base de apoio às operações na Bacia de Campos; já na Bacia de Santos, por ser muito mais extensa, teremos bases de apoio ao longo da costa”, comparou o gerente.

Os primeiros testes para avaliar o atual apetite das empresas e investidores pelo mercado do pré-sal poderão ser medidos durante os três dias da Santos Offshore. Além das exposições, a feira abrirá espaço para rodadas de negócios e conferências. “A grande novidade desta

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Semeghini: conferência reforça o lado técnico da feira

edição será a realização de uma conferência internacional, que pretende incentivar debates entre profissionais de diversas áreas da cadeia de petróleo e gás. Assim, a partir deste ano, a feira começa a assumir um lado um pouco mais técnico, mais acadêmico”, afirmou Semeghini.

 

 

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