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bio &
farma
Michael Nothenberg
é Doutor em Química, Mestre em Farmácia,
professor universitário e jornalista
msnothenberg@gmail.com
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Tardia, busca por novos
antibióticos mostra poucos resultados
Em declaração ao Congresso dos Estados Unidos, em 1969, o então
cirurgião-geral norte-americano William Stewart assegurou que, graças ao
advento de novos antibióticos, “havia chegado a hora de fechar o livro das
infecções bacterianas”. Bem sabemos o quanto ele estava equivocado.
Nos cerca de 40 anos decorridos após o final da era de ouro dos
antibióticos, geralmente demarcada entre 1944 e 1972, somente duas novas
classes de antibacterianos – oxazolidinonas, representadas pela linezolida (Zyvox),
e antibióticos lipopeptídicos, representados pela daptomicina (Cubicin)
– chegaram ao mercado norte-americano, em 2000 e 2003, respectivamente (Figura
1 e Tabela 1). Ao mesmo tempo, multiplicaram-se cepas de bactérias
resistentes aos antibióticos disponíveis, causando pânico e mortes em número |
incomparavelmente maior ao de vítimas da recém-chegada gripe suína.
Somente o Staphylococcus aureus, resistente à meticilina (MRSA, em inglês),
identificado há cerca de três décadas nos Estados Unidos e hoje cosmopolita,
mata algo como 18 mil pacientes por ano somente nos EUA. Na Europa,
estima-se que hospitais, origem da maior parte das infecções por
micro-organismos resistentes a antibióticos, infectem anualmente dois
milhões de pacientes, levando 175 mil deles à morte.
A falta de antibióticos eficazes para um número crescente de doenças,
particularmente pneumonia, tuberculose e infecções intestinais, foi objeto
de estudo preparado por professores da The London School of Economics and
Political Science (LSE), apresentado em 17 de setembro último em Estocolmo,
durante conferência sobre antibióticos, patrocinada pela Suécia, país que
assumiu a presidência rotativa da União Europeia em julho passado. O
relatório, com 200 páginas, alerta para a importância da racionalização do
emprego de antibióticos a fim de evitar o surgimento e disseminação de
resistência aos agentes disponíveis. Chama também a atenção para a urgência
no desenvolvimento de fármacos, sugerindo fórmulas para o estímulo de novas
descobertas.

Baixa lucratividade – Entre as principais causas da disseminação da
resistência, o relatório da LSE aponta a inútil e equivocada prescrição de
antibacterianos para infecções virais. A prática decorre da dificuldade e
demora na determinação de diagnósticos diferenciais, bem como do temor de
muitos clínicos de ter de enfrentar ações judiciais por causa de supostos
erros médicos. Para complicar o quadro, ocorre a venda indiscriminada, sem
receita, de antibióticos, praticada por farmácias em diversos países.
A indústria farmacêutica, por sua vez, não esconde um certo desinteresse no
desenvolvimento de agentes anti-infecciosos. Vale mais a pena investir em
produtos de uso diário ao longo de anos ou mesmo décadas, a exemplo de
agentes cardiovasculares antidiabéticos ou psicofármacos, do que em
antibióticos, geralmente administrados por apenas uma ou duas semanas e
cujos ciclos de vida útil são encurtados pelo surgimento de micro-organismos
resistentes.
Para os especialistas da LSE, a solução está em estimular o desenvolvimento
de novos antibióticos por meio de incentivos à indústria, como a concessão
de proteção patentária extendida. Política similar se mostrou bem-sucedida
em 1983, com a implementação do estatuto dos fármacos órfãos nos Estados
Unidos, segundo o qual empresas que desenvolvem agentes ativos contra
doenças raras, geralmente causadas por defeitos genéticos, afetando menos de
200 mil indivíduos nos EUA (doenças órfãs), beneficiam-se de prolongamento
da validade da patente por sete anos, além dos vinte anos de exclusividade
normalmente concedidos. Legislações similares foram desde então
implementadas na Europa, Austrália e Japão. No caso dos antibióticos, a LSE
propõe ainda estímulo patentário cruzado, com a possibilidade de
transferência do bônus para fármacos de diferentes classes, não excluindo os
lucrativos blockbusters, que podem render bilhões de dólares por ano.

Para empurrar a pesquisa básica, geralmente praticada por pequenas ou médias
empresas de biotecnologia, caberia, ainda segundo a LSE, instituir isenções
fiscais e programas de financiamento. Para tanto, recomenda o relatório,
bastaria direcionar mais recursos especificamente para a pesquisa de
antibióticos. A sugestão passa ao largo dos modestos US$ 16,9 milhões
reservados pelo governo dos Estados Unidos para programas de combate à
resistência a antibióticos pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças
no orçamento do último ano fiscal norte-americano, encerrado em 30 de
setembro passado. O montante representa menos de 1% do US$ 1,5 bilhão
solicitado pela administração Obama ao Congresso para o combate ao vírus
H1N1.
Ceftobiprol – Atualmente contando com a vancomicina, antibiótico
glicopeptídico introduzido em 1958 pela Eli Lilly, como a última trincheira
no combate aos estafilococos resistentes à meticilina, a medicina aguarda a
aprovação de novas armas para o combate deste e de outros micro-organismos
Gram-positivos.
Entre as novidades, está o ceftobiprol (Zeftera), cefalosporina dita de
quinta geração, indicada para o tratamento de infecções por MRSA,
Strepcoccus pneumoniae, Pseudomonas aeruginosa e enterococos resistentes a
penicilinas. O novo antibiótico foi descoberto pela suíça Basilea
Pharmaceutica, fundada em 2000 após a desistência da Roche em atuar no
mercado de antibióticos, e desenvolvido pela Cilag International, do grupo
Johnson & Johnson. É disponível no Canadá, Ucrânia e na Suíça e encontra-se
em diferentes estágios de licenciamento nos Estados Unidos, Comunidade
Europeia, Austrália, Rússia e África do Sul.

Mixopironina – Com potencial para substituir as hoje quase obsoletas
rifamicinas dos anos 60 no tratamento de tuberculoses multirresistentes,
anuncia-se nova classe de antibióticos inibidores da RNA polimerase, enzima
responsável pelo processo de transcrição da informação genética do DNA para
o RNA mensageiro. Segundo pesquisadores da Universidade Rutgers (New
Brunswick, NJ), em artigo publicado na revista Cell, de 17 de outubro de
2008, três membros da classe, mixopironina, coralopironina e ripostatina,
obtidos de material isolado de bactérias do solo em 1983, atuam sobre a RNA
polimerase em sítio distinto daquele visado pelas rifamicinas, também
inibidores da enzima, evitando a ocorrência de resistência cruzada entre os
antibióticos. Após a síntese química integral de membros das alfa-pironas –
nome coletivo conferido à classe –, relatada em 1998, os pesquisadores já
obtiveram doze derivados sintéticos mais ativos que o protótipo mixopironina.
Depois de bem-sucedidos em ensaios de toxicidade em animais, alguns poderão
chegar ao estágio de ensaios clínicos dentro de cinco anos.
Triazinas – Outra nova classe de antibióticos, com poder para abater
bactérias Gram-positivas multirresistentes, foi descrita na edição de 27 de
setembro último da revista Nature Chemical Biology. O protótipo, MAC-13243,
é derivado triazínico, selecionado após triagem de cerca de 50 mil moléculas
de pequeno porte, em busca de inibidores de crescimento em culturas de
Escherichia coli. Segundo pesquisadores da universidade canadense McMaster
(Hamilton, Ontario), autores da descoberta, o composto demonstrou a
capacidade de inibir a funcionalidade da proteína LolA, envolvida no
transporte de lipoproteínas através da membrana celular bacteriana,
mecanismo inédito entre os antibacterianos conhecidos. Estudos sobre a
relação estrutura-atividade da nova classe de antibacterianos mostraram a
essencialidade do grupo tiobenzila com átomo de cloro ou bromo em posição
para. O grupo dimetoxifenetila, situado no lado oposto do anel triazínico
parece supérfluo, podendo ser substituído por uma simples metila, sem perda
da atividade antibacteriana (Tabela 2).
Hipermutação – Um mecanismo observado em bactérias, que mostram
capacidade de acelerar a geração de mutações genéticas em busca de formas
resistentes a antibióticos que ameacem sua sobrevivência, poderá se tornar
outra futura fonte de antimicrobianos. Publicada na edição de abril de 2006
da revista Scientific American, a descoberta de Floyd E. Romesberg e equipe,
do Instituto de Pesquisas Scripps (La Jolla, CA), parte da capacidade
previamente demonstrada de bactérias estressadas, depois de tentarem reparar
os danos causados por antibióticos às quais são sensíveis, de disparar um
processo de mutações defensivas aceleradas. O processo envolve a ativação de
genes que expressam proteínas em cuja presença a taxa de mutações se torna
até 10 mil vezes mais rápida do que durante processos normais de replicação.
É como se as bactérias subitamente tentassem mudar de identidade, descreve o
pesquisador, que exemplifica o processo na ação do antibacteriano
ciprofloxacino sobre a bactéria Escherichia coli. Na presença do “cipro” e
de outras fluorquinolonas, bactérias podem assumir mutação que impede o
fármaco de cumprir sua missão letal, inativando o alvo, a enzima girase,
responsável pela estabilização do DNA no familiar formato helicoidal.
O mérito de Romesberg está na proposta de desligar o processo que dispara as
mutações. No caso da E. coli, determinou-se que a hipermutação é
desencadeada pela ativação de uma proteína denominada LexA, que, por sua
vez, induz DNA polimerases a produzir mutações. Desenvolvida a molécula
capaz de bloquear a ativação da LexA, estaria criado um fármaco que,
administrado em associação com antibacterianos, como fluorquinolonas,
inibiria a formação de cepas resistentes.
O desafio está a cargo da Achaogen, fundada em São Francisco em fins de 2004
por iniciativa de Romesberg e dois colegas. A empresa espera solicitar a
concessão da licença IND (Investigational New Drug) para candidatos a
fármacos inibidores de hipermutação no FDA ao longo de 2010, o que permitirá
o início de pesquisas clínicas, sob o patrocínio do Departamento de Defesa
dos Estados Unidos. Paralelamente, a Achaogen se dedica ao desenvolvimento
de “neoglicosídios”, nova classe de antibióticos com desempenho
antibacteriano considerado superior ao dos aminoglicosídios ora em uso. O
principal membro da nova classe, ACHN-490, é objeto de ensaios clínicos em
fase I desde o início de 2009. |
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