c   o   s   m   é   t   i   c   o   s

Cuca Jorge

Combinações adequadas dos
tensoativos deixam a
pele e os
cabelos mais limpos e saudáveis

Marcelo Fairbanks

A peculiar estrutura anfifílica das moléculas dos tensoativos, com uma extremidade solúvel na água e outra solúvel em óleos, os coloca como ingredientes principais dos xampus e condicionadores para cabelo. A escolha adequada desses ingredientes permite a

obtenção de cabelos brilhantes, macios e facilmente penteáveis, sem prejuízo do volume. Produtos inadequados deixam os cabelos secos, eriçados e difíceis de pentear. Ou, ainda, escorridos e com aspecto grudento, um visual “pesado”.

Os xampus precisam de moléculas capazes de tornar as gorduras e sujeiras solúveis ou dispersíveis na água, limpando os cabelos. Essa remoção da gordura e das sujidades, porém, deve ser feita sem danificar os fios e nem o couro cabeludo. Além disso, um xampu moderno deve repor uma parte da gordura retirada, melhorando o brilho e a facilidade de pentear, bem como manter o equilíbrio lipídico da região.

Produtos para a pele contam com os tensoativos para formar emulsões óleo-água estáveis, formando cremes, pastas e loções de fácil aplicação e excelente cobertura da superfície a proteger. É o caso dos protetores solares, nos quais o desempenho do tensoativo é importante para o espalhamento adequado dos componentes protetores sobre a pele.

Do ponto de vista dos negócios, esse segmento de mercado apresenta um dinamismo interessante, apontando para a formação de conglomerados de porte global. Isso pode ser comprovado por negociações realizadas durante os cinco últimos anos, como a compra da Uniqema (ex-ICI) pela Croda, ou a aquisição da McIntyre pela Rhodia. Além disso, por se tratar de um mercado que valoriza a inovação, empresas de porte menor conseguem resultados surpreendentes.

O mercado brasileiro de produtos cosméticos e de higiene pessoal cresce anualmente na casa dos dois dígitos desde o Plano Real, de 1993. A crise econômica de setembro de 2008 não interrompeu a sequência, mas seus efeitos podem redundar em uma desaceleração lenta, apontando para um crescimento próximo a 9% para 2009, marca ainda invejável. O Brasil já é citado como o terceiro maior mercado mundial desse setor, superado apenas pelos Estados Unidos e Japão. E, este último, por pouco.

A pujança do mercado brasileiro atrai investimentos produtivos. É o caso da divisão Novecare da Rhodia, que iniciará em 2010 a fabricação de amidoaminas e alcanolamidas em Santo André-SP, insumos usados como tensoativos secundários em xampus. “Estudamos o mercado e verificamos ser essa a maior demanda dos produtores locais de cosméticos e artigos de higiene pessoal”, justificou Paulo De Biagi, diretor para a América Latina da área de personal care da divisão Novecare.

O investimento é importante para reforçar a participação da companhia no mercado local, muito aquém do share dominado por ela no mercado global. Essa produção usará instalações multipropósito do site, demandando pequenos

Cuca Jorge

De Biagi: ínicio da produção em Santo André segue mercado

investimentos de adaptação. A matéria-prima será o óleo de coco importado, por falta de oferta nacional estável.

Os produtos para cabelos – xampus, condicionadores, cremes e máscaras – são os maiores consumidores de tensoativos. No entanto, os insumos de maior valor são direcionados para as linhas para a pele, que têm o melhor potencial de introdução de itens mais sofisticados e caros. “A suavidade e o baixo potencial de irritação são características mais críticas nos produtos para a pele, tornando mais fácil a aplicação de novos ingredientes de melhor desempenho e com custo mais alto”, explicou Sérgio Gonçalves, gerente de marketing para a América Latina da Croda do Brasil.

Entre as tendências de mercado para os tensoativos de uso cosmético, podem ser citadas a vegetalização e a eliminação ou redução dos compostos etoxilados e dos sulfatados. “Os

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Gonçalves: sarcosinas e sarcosinatos abatem a irritabilidade dos xampus

europeus falam muito, mas isso está distante da realidade porque é difícil conseguir boa detergência e funcionalidade geral sem etoxilados e sulfatados”, ponderou Joãosinho Di Domenico, diretor técnico e industrial da Polytechno, conhecida produtora nacional de produtos químicos para o setor. Dos seus reatores saem ésteres, anfóteros, alcanolamidas, sulfosuccinatos, tensoativos não-iônicos e quaternários de amônio para a indústria de cosméticos e produtos de higiene pessoal. Fornece também bases prontas de tensoativos e doadores de consistência para xampus e emulsões. Além da fabricação própria, oferece óleos e manteigas vegetais especiais da sueca AAK, bem como as especialidades da Bioextract, Dow Personal Care (polímeros celulósicos e quaternários), Exsymol Sam (peptídeos e silício orgânico) e Lucas Meyer (fosfolipídeos e bioativos).

Maior produtora regional de óxido de eteno e derivados, a Oxiteno também se destaca como a principal fornecedora de tensoativos e está em plena fase de ampliação e verticalização da produção. “Entre 2007 e 2009 estamos investindo US$ 550 milhões em expansão e em novas plantas, que resultarão em um acréscimo de 30% na capacidade produtiva de especialidades químicas, entre elas os tensoativos”, comentou Gerson Moacir Secomandi, gerente de mercado para cosméticos, detergentes e agroquímicos da Oxiteno. A companhia produz surfactantes aniônicos (sulfatados), não-iônicos (etoxilados) e anfotéricos (betaínas) para diversos segmentos industriais, que contam com o apoio de dois centros de tecnologia (no Brasil e no México) e de treze laboratórios para o desenvolvimento de novas aplicações.

Neste ano, a Oxiteno inaugurou a unidade oleoquímica, produtora de álcoois graxos pelo método de substituição, alimentada por óleo de palmiste. “Trata-se de um insumo fundamental para a produção de cosméticos que, até então, era totalmente importado da Ásia”, disse Secomandi. A disponibilidade de álcoois graxos permitirá à Oxiteno verticalizar a produção de sulfatados, oferecendo garantia de suprimento e maior competitividade aos clientes.

Essa também é a expectativa de Di Domenico. “O preço deverá seguir os padrões internacionais, mas teremos uma logística mais econômica e confiável, sem perder a qualidade”, avaliou.

Xampus variados – O principal tensoativo usado nos xampus, encontrado na grande maioria dos produtos à disposição dos consumidores, continua sendo o lauril-éter sulfato de sódio, identificado pela sigla SLES ou LESS. “É o mais polivalente dos tensoativos, pode ser usado em diferentes tipos de xampus e alcança os resultados que os usuários finais querem”, disse Di Domenico. Esse surfactante aniônico é obtido pela etoxilação do ácido graxo láurico/mirístico com posterior sulfatação e neutralização com soda cáustica. Essa neutralização, segundo o diretor, pode ser feita com trietanolamina, monoetanolamina ou amônio, porém essas alternativas são pouco adotadas no país.

A “polivalência” do LESS permite aos fabricantes trabalhar com menos itens no inventário, uma vantagem considerável. Também é preciso mencionar que se trata de uma commodity de preço muito atraente, porém esse aniônico apresenta uma considerável irritabilidade para a pele humana. O uso de misturas com outras famílias de tensoativos resolve o problema para o uso a que se destina, de forma mais econômica que a adoção de um surfactante mais sofisticado. “A associação do tensoativo aniônico com anfóteros é bem conhecida, com os últimos apresentando menor irritabilidade, boa detergência e poder antiestático”, comentou Di Domenico. Ele salientou que a associação de isetionatos e/ou isocianatos com derivados de aminoácidos gera tensoativos primários de alto desempenho e isentos de sulfatados, mas com eficiência de limpeza inferior a estes.

“Não dá para fazer xampu com um só surfactante porque os consumidores finais querem muita espuma, embora ela não limpe nada”, explicou Edna Fernandes, especialista em desenvolvimento e aplicação da divisão personal care da Rhodia Brasil. Para ela, a melhor combinação de tensoativos reúne aniônicos, anfóteros e não-iônicos. Os anfóteros produzem espuma rica e densa, enquanto os não-iônicos são muito suaves, embora tenham elevado poder de detergência. A proporção entre esses componentes varia conforme o xampu a ser produzido. “Um produto infantil, por exemplo, leva mais não-iônicos, geralmente succinatos, do que outro para adultos porque se quer evitar a irritação dos olhos”, explicou.

A especialista também salienta uma característica importante: 70% da população brasileira tem cabelos secos. Por isso, um xampu não pode ser apenas um agente de limpeza, mas deve proporcionar algum cuidado capilar. Os formuladores precisam definir um mix de ingredientes, entre eles os polímeros naturais ou sintéticos, além de aminas/amidas, para depositar um pouco de condicionantes para melhorar a penteabilidade. A lavagem com xampus deixa os cabelos com cargas negativas, havendo a necessidade de aplicar um

Marcelo Fairbanks

Edna: diversidade capilar dá trabalho a formuladores

condicionador para neutralizá-las e ao mesmo tempo repor parcialmente a carga graxa. Um dos trabalhos dos formuladores consiste em ajustar a composição de xampus e condicionadores, formando os pares oferecidos aos consumidores.

Ela comentou que a preferência de mercado nos aniônicos se concentra no lauril éter sulfato de sódio, menos agressivo que o lauril sulfato. A Rhodia oferece aos clientes como anfótero o cocoanfodiacetato de sódio (Miranol), muito bem-aceito no Brasil. Esse tensoativo reduz a irritabilidade e produz mais espuma. “As betaínas também são muito usadas em combinação com o LESS, especialmente em xampus transparentes”, informou Edna, embora prefira o cocoanfodiacetato pela sua maior suavidade, o que permite a aplicação em lenços umedecidos para bebês e demaquilantes.

Além disso, esse anfótero aumenta a deposição dos aditivos poliméricos nos fios de cabelo, permitindo economia de aditivos usados para essa função, compensando a diferença de preço em relação às betaínas.

O mercado associa alguns efeitos à aparência do produto, embora isso nem sempre seja verdadeiro. Edna comentou que os fabricantes fazem xampus brancos quando querem enfatizar o tratamento dos cabelos. Xampus perolados enfatizam a alta qualidade. As linhas mais comuns geralmente adotam a transparência, também usada para indicar pureza.

Edna verifica o interesse crescente dos fabricantes de cosméticos e produtos de higiene pessoal em tornar mais racional seus inventários, que podem chegar, com facilidade, a dois mil itens. “Isso exige adotar insumos mais flexíveis, que possam ser aplicados em várias formulações”, comentou.

A Rhodia oferece misturas prontas de tensoativos com aprovação da Anvisa para várias aplicações. Essas misturas facilitam o desenvolvimento de novos produtos finais, bastando colocar fragrâncias e alguns aditivos.

Em relação a outros países, o Brasil tem a peculiaridade de contar com águas geralmente mais leves (com menor teor de sais dissolvidos). Águas duras, como as predominantes nos Estados Unidos e Europa, com forte presença de sais de magnésio e de cálcio, inibem a formação de espuma. Para contornar a dificuldade, os formuladores são obrigados a aumentar a dose de tensoativos. “Enquanto um xampu brasileiro leva 6% de LESS, 2% de betaínas e 2% de não-iônicos, uma carga total de ativos surfactantes de 10% em peso, xampus europeus usam 14% de LESS, 4% de betaínas e 4% de não-iônicos, com total de 22%”, informou.

Também é preciso mencionar que o Brasil é o único país do mundo em que podem ser encontrados todos os tipos de cabelos, do caucasiano ao oriental. Ressalte-se que cada tipo se subdivide em graus de oleosidade, de tingimento e nível de tratamento desejado. Isso explica o comprimento das gôndolas de produtos para cabelos nos supermercados.

Joãosinho Di Domenico, da Poly­techno, também ressalta a diferença de hábitos entre brasileiros e os habitantes da Europa e dos Estados Unidos. “Por viver em um país tropical, o brasileiro toma dois ou mais banhos por dia, enquanto os europeus, que vivem em clima frio, tomam menos banhos”, comparou. Caso o xampu europeu, bem mais concentrado, fosse usado como no Brasil, em dois banhos diários, ele promoveria uma remoção excessiva da oleosidade.

Os tensoativos também são aproveitados para facilitar a produção. “As amidas, por exemplo, atuam na solubilização das fragrâncias, evitando a turvação do xampu”, comentou Edna Fernandes. Um aditivo produzido pela Rhodia, o Jaguar, um polímero de goma guar, aplicado em dose minúscula (0,1% a 0,3%) para melhorar a penteabilidade e aumentar em 30% a deposição de silicone nos cabelos, pode usar as amidas previamente selecionadas como molhantes. Isso facilita a sua incorporação, evitando a formação de pó. “Basta fazer uma pré-mistura”, explicou.
Edna também comentou que a seleção dos tensoativos pode considerar a redução dos custos de produção, característica desejada por pequenos e médios fabricantes. “Conhecendo as exigências de incorporação dos insumos, é possível evitar etapas de aquecimento e posterior resfriamento, proporcionando economia de energia”, disse.

No campo dos produtos pós-lavagem capilar, caso dos condicionadores, complementos para tratamento e cremes protetores, o Brasil consolida a liderança mundial em demanda. “A união dos produtos Rhodia com os da McIntyre aumentou nossa participação nesse mercado”, comentou Edna. A adquirida tinha relevante produção de amidados, MIPA, proteínas e amidas muito procuradas para a produção de máscaras, condicionadores e produtos de styling capitlar (géis, mousses etc.). Também agregou à Rhodia a liderança nos sulfosuccinatos.

Tendências – Em qualquer região do mundo, os apelos mais recentes da indústria de cosméticos e de artigos de higiene pessoal favorecem os insumos de origem natural e renovável, com preferência pelos derivados vegetais. A substituição de produtos sintéticos pelos de origem vegetal é denominada vegetalização.

Uma alternativa de vegetalização no campo dos tensoativos é a etoxilação direta dos óleos vegetais, originando produtos com boas propriedades sensoriais, porém com a possibilidade de formar produtos de aspecto turvo. Segundo Edna Fernandes, da Rhodia, a presença de glicerina (oriunda do triglicerídeo original) não é problema, podendo contribuir para a umectação da pele, embora possa abater a espuma caso esteja presente em quantidade muito alta. “O problema maior é controlar a quantidade de ácido graxo livre que chegará ao produto final, que pode ser agressivo”, explicou.

Ela explicou que algumas companhias evitam usar etoxilados. Nesse caso, a Rhodia oferece misturas de tensoativos “verdes” que dispensam etoxilação.

“O ácido graxo láurico poderia ser usado para fazer coisas mais nobres que o LESS”, comentou a especialista. Em geral, quando querem fazer outros tensoativos, os formuladores buscam outras fontes. Os ácidos graxos com cadeias entre 12 e 14 átomos de carbono são indicados para melhorar a espumação. Os ácidos com cadeias entre 16 e 18 carbonos oferecem melhor condicionamento capilar. Já as cadeias mais curtas, entre 8 e 10 carbonos, geralmente residuais, são pouco interessantes, por serem mais irritantes, conforme explicou.

Embora a vegetalização esteja na ordem do dia, Edna recomenda verificar se o óleo natural a ser usado foi bem extraído e processado. “Caso o óleo não tenha sido bem cuidado, as suas propriedades benéficas podem ser perdidas”, disse Edna.

 A Polytechno mantém parceria com a sueca AAK, da qual importa manteiga de karité. Segundo Di Domenico, as sementes dessa planta são obtidas de forma sustentável em Burkina Fasso (África) e enviadas para a Suécia com muito controle para manter as características originais da manteiga. A extração da manteiga e seu processamento posterior são feitos com precisão, para não destruir os compostos bioativos naturais (os insaponificáveis). Da manteiga de karité, a Polytechno produz derivados mediante o emprego de

Cuca Jorge

Domenico: tecnologia própria para fazer derivados de karité

tecnologia própria, gerando anfóteros, ésteres, quaternários de amônio e tensoativos não-iônicos. “Alguns desses produtos são exportados para a AAK, que os vende na Europa, Ásia e EUA”, comentou.

A Polytechno também produz derivados especiais de óleo de babaçu e óleo de oliva, mas no mercado nacional tem seguido mais a linha do karité.

 

 

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