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Marcelo Furtado
A clarificação, etapa físico-química do tratamento de água que elimina
sólidos suspensos para reduzir a turbidez, a cor e a carga orgânica, sofreu
nos últimos anos no Brasil algumas mudanças sutis, porém importantes,
demonstrando uma tendência de aplicação de produtos químicos e sistemas mais
versáteis. As modificações incluem o uso de coagulantes mais eficientes, com
menor geração de lodo, de produtos combinados que executam em uma só
aplicação a coagulação e a floculação e ainda a execução de projetos de
decantadores e estações com operação otimizada.
Essa nova realidade é perceptível nas principais fornecedoras da área. A
começar pelas atuantes no produto químico mais básico e importante da
clarificação, os coagulantes inorgânicos, percebe-se uma tendência firme de
tentar convencer os clientes a adotar melhores soluções.
| A finlandesa Kemira,
por exemplo, que hoje se consolida como uma das maiores produtoras do país
de praticamente todos os tipos de coagulantes, com plantas industriais em
São Paulo, Bahia, Santa Catarina e Paraná, está convencida dessas novas
oportunidades. Segundo explicou o vice-presidente para América Latina da Kemira, Fred
Schuurman, exemplifica bem o período a crescente aceitação por parte de
muitos consumidores, tanto estações públicas de tratamento de água como
industriais, pelo uso do policloreto de alumínio (PAC), em substituição a
coagulantes mais tradicionais, como o sulfato de alumínio ou o sulfato
férrico. Na sua opinião, a adesão sinaliza uma mudança radical por todo o
país e faz a Kemira apostar todas as suas fichas no produto, no que diz
respeito a possíveis ampliações em suas unidades produtivas e na estratégia
comercial adotada. |
Cuca Jorge
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| Schuurman aposta suas fichas na expansão de uso do
PAC |
Futuro é do PAC – A confiança no sucesso do PAC (não o plano do governo
federal, diga-se de passagem...) tem explicação técnica. Conforme disse o
diretor de marketing e vendas, Wanderley Ferreira, a baixa alcalinidade
média da água brasileira desfavorece o uso dos coagulantes inorgânicos mais
convencionais, os sulfatos de alumínio e férrico. “Quaisquer desses produtos
derrubam muito o pH da água, o que demanda muito cal para neutralização. E
isso significa, além de maiores gastos com o insumo, a geração de grandes
quantidades de lodo”, afirmou. Esse último aspecto, por sinal, representa um
dos maiores problemas das estações de tratamento de água e
efluentes/esgotos, que se vêem cada vez mais pressionadas a dar um destino
correto ao grande volume de lodos.
Cuca Jorge
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Com o PAC, continua Ferreira, esses gargalos são minimizados. Além de ser
dosado de duas a oito vezes menos do que o sulfato de alumínio, ele não
afeta tanto o pH, demandando bem menos cal e, em consequência, gerando
também uma quantidade bastante inferior de lodo. Apesar de mais caro no
preço direto, por ser um produto polimerizado (em média o dobro dos
sulfatos), na conta total do processo ele fica mais barato. “Isso porque,
além dessas vantagens, ele clarifica melhor, gerando uma água de melhor
qualidade que necessita de menos cloro e facilita a filtração, diminuindo a
frequência de lavagem dos elementos“, complementou o vice-presidente Fred
Schuurman. A mudança de comportamento dos clientes, favorável ao PAC, diz
respeito ao fato de que muitos começam a calcular o tratamento pelo
custo do metro cúbico de água e não mais pelo gasto com os principais
insumos. |
| Ferreira: tendência é unir coagulantes a floculantes |
E nesse
sentido a conta na maioria das vezes privilegia o uso do policloreto de
alumínio. Verdade que, ultimamente, na comparação com o sulfato, a
competitividade foi um pouco abalada em virtude da queda de preço do ácido
sulfúrico, que, em reação com a alumina ou o minério de ferro, gera,
respectivamente, o sulfato de alumínio e o férrico. Mas a perspectiva é de
elevação do preço do ácido para breve, o que vem a complementar as várias
vantagens competitivas do PAC.
De acordo com Wanderley Ferreira, o PAC tem maior poder de aglutinação das
partículas sólidas. Isso porque ele tem carga positiva sempre superior a
três, ao contrário dos sulfatos. “Quanto maior a carga positiva, maior o
poder do coagulante em formar os flocos”, diz. A outra característica
importante é a alta basicidade do polímero, que diminui a necessidade de
dosagem de alcalinizantes no tratamento. A Kemira, em específico, possui em
seu portfólio mais de 20 tipos de PAC, com faixa de basicidade entre 40% e
80%. No Brasil, porém, dispõe de apenas dois tipos, com basicidade de 40% e
60%. “Assim que a demanda for aumentando, vamos nacionalizar mais grades”,
disse o diretor.
Como parte dessa estratégia de difundir o uso do PAC no Brasil, e também do
cloreto férrico, suas duas maiores apostas futuras (apesar de também
produzir os sulfatos, que possuem ainda um grande mercado), a Kemira vai
inaugurar um laboratório de pesquisa e desenvolvimento em São Paulo, com
capacidade de gerar produtos e aplicações apropriadas para o Brasil e para a
América do Sul. O projeto faz parte do plano global da empresa, no valor de
€ 71 milhões, de internacionalizar seus centros de pesquisa. “Não faz
sentido usar o mesmo produto em condições tão diversas, com águas diferentes
em cada lugar do mundo”, disse Fred Schuurman.
Antes desse projeto, já em gestação e com profissionais em treinamento, toda
a pesquisa estava concentrada na Escandinávia, com sete laboratórios na
Finlândia e na Suécia. Desses, cinco foram fechados e realocados para outros
países da Europa, para a China, EUA e, por fim, ao Brasil. “A ideia é ficar
perto do cliente, entender suas necessidades e criar formulações e dosagens
específicas”, disse Ferreira. Estar perto do cliente, aliás, é regra básica
para quem atua na área de coagulantes, não só em termos de pesquisa e
desenvolvimento como em produção. Levando-se em conta o custo logístico do
país, uma unidade de coagulantes inorgânicos precisa estar no máximo a 200
km do cliente, caso contrário perde competitividade. É por causa disso que a
Kemira procura atuar de forma regionalizada, com unidades espalhadas pelo
país.
Dois em um – A necessidade estratégica de criar o centro de pesquisa da Kemira deve atender a uma tendência que existe no mercado há alguns anos e
que deve se intensificar no futuro: a de unir coagulantes inorgânicos com
floculantes orgânicos para simplificar a clarificação. Essa sinergia, resume
o diretor Wanderley Ferreira, consiste “em turbinar os coagulantes
inorgânicos com polímeros para diminuir a geração de lodo e melhorar a
clarificação”. Esse empenho no desenvolvimento químico tem o mérito de
resumir a uma só dosagem o que normalmente é feito em duas etapas: a de
coagulação, onde são dosados os coagulantes para formar os primeiros flocos,
e a de floculação, em que polímeros catiônicos ou aniônicos (normalmente
acrílicos) são empregados em baixas dosagens para aumentar o peso dos flocos
para sua remoção. Com essas formulações, há ganhos até mesmo com o menor
consumo de energia, de equipamentos de dosagem, de volume de produtos e da
área para o tratamento, o que é muito bom para novas plantas ou ampliações.
| Além da Kemira, outras empresas divulgam essas formulações (embora algumas,
como Ashland e SNF Floerger, não gostem de informar ao mercado as suas
tecnologias). Um exemplo é a Kurita, que conta com a linha de
coagulantes-floculantes Kurifloc (na Europa chamado de BioTreat), usada
principalmente no Brasil em tratamento de efluentes. O produto consegue em
uma só dosagem neutralizar as cargas coloidais formando um precipitado
(flocos pequenos), ou seja, a coagulação, e também reúne os vários flocos
pequenos, fazendo a floculação. Segundo o líder da área técnica da Kurita,
Antonio Ricardo Carvalho, a vantagem é a facilidade de manuseio e de
operação do produto com dupla função, a menor quantidade total de produtos
coagulantes e a melhor qualidade do efluente tratado. |
Cuca Jorge
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| Carvalho: produto conjugado para gerar água de reúso |
De acordo com Carvalho, o que motivou a empresa de origem japonesa a
desenvolver o produto foi um caso em uma refinaria na Alemanha. Por ser uma
típica unidade europeia, antiga, ela estava funcionando com uma estação de
lodo ativado com capacidade aquém da necessária para atender à sua produção.
“Estava ocorrendo fuga de flocos contaminados, o que produzia um efluente
com DQO acima do permitido”, diz. A refinaria até mesmo reduzia sua produção
para não ter problemas com o efluente. Em vez de ampliar a unidade, a
empresa preferiu encomendar com a Kurita europeia uma solução química. Daí
surgiu o BioTreat, segundo explica Carvalho. O produto conjugado, dosado
adequadamente, passou a coagular e flocular melhor o lodo, evitando as fugas
químicas no efluente. “Para eles, era uma solução que precisava ser
imediata, porque a fiscalização ambiental na Alemanha é muito rigorosa, com
incursões de coletas de efluentes constantes”, complementa.
Mas no Brasil, disse Carvalho, a situação que faz o produto conjugado ter
boa aceitação é diferente da Alemanha, onde foi criada a formulação de
prateleira. Isso porque no país não há plantas tão antigas, com pouca
possibilidade para expansões como na Europa. Por aqui o que tem feito o seu
uso se expandir é a capacidade de geração de um efluente com boa qualidade
para o reúso. “Essas formulações acrescentam menos íons na água, ao
contrário do PAC, por exemplo, que deixa o nível de cloretos alto e
dificulta o reúso. Isso sem falar que o produto gera muito menos lodo”,
completou. Essas alternativas tecnológicas, segundo ele, são mais
importantes para a difusão das formulações de coagulantes-floculantes do que
a necessidade de expansões. “As estações de tratamento no Brasil são, de
forma geral, novas e boa parte delas ainda não precisa aumentar a eficiência
e a capacidade.”
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